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quinta-feira, 16 de julho de 2009

A avareza na ficção

Balzac e Dostoievski, escritores consagrados do século XIX, viviam atolados em dívidas, não admira que ambos tenham criado personagens sovinas e egoístas
por Moacyr Scliar
THE NATIONAL MUSEUM OF THE
PERFORMING ARTS, LONDRES
Sir Herbert Beerbohm Tree no papel de Shylock, em
O mercador de Veneza, de Shakespeare, de 1914, por Charles Buchel
Embora muitos já tenham esquecido, o Brasil viveu períodos de grandes surtos inflacionários, nos quais o dinheiro perdia rapidamente o seu valor. Era muito comum ver moedas nas sarjetas das ruas; ali ficavam porque valiam tão pouco que ninguém se dava ao trabalho de abaixar-se para apanhá-las. Isso nos remete a um fato básico da economia e da vida social: a rigor, o dinheiro é uma ficção. Mas exatamente por causa desse ângulo, digamos, ficcional, ele assume também caráter altamente simbólico. E não muito agradável, segundo Freud. Observando que ao longo da história o dinheiro foi freqüentemente (e ainda é) associado à sujeira, o pai da psicanálise postulou que a proposital retenção de fezes, característica da chamada fase anal do desenvolvimento infantil, teria continuidade, no adulto, com a preocupação com o dinheiro. O avarento é um exemplo caricatural disso.
Aos escritores essas coisas não poderiam passar despercebidas, mesmo porque muitos deles tinham, e têm, problemas com dinheiro; Honoré de Balzac (1799-1850) e Fiódor Dostoievski (1821-1881) viviam atolados em dívidas, sobretudo o escritor russo, que era um jogador compulsivo. Não é de admirar que avarentos tenham dado grandes personagens da ficção. O primeiro exemplo é, naturalmente, o Shylock, de William Shakespeare (1564-1616) na comédia O mercador de Veneza, do fim do século XVI. Shylock era um agiota. Na Idade Média, o empréstimo a juros era proibido aos cristãos e reservado ao desprezado e marginal grupo dos judeus. Um arranjo perfeito: quando o senhor feudal não queria ou não podia pagar dívidas contraídas com os agiotas, desencadeava um massacre de judeus, um grupo desprezado e marginalizado, e resolvia o problema. Shylock sente-se desprezado e quando empresta dinheiro a Antonio, um mercador, pede em garantia uma libra da carne do devedor: ele quer que este se revele inadimplente e pague a dívida com a matéria de seu próprio corpo: um esforço desesperado e grotesco para ser respeitado.
Outro usurário que aparece na peça O avarento (1668), de Jean-Baptiste Molière (1622-1673) é Harpagon. Quanto mais rico fica, mais mesquinho se torna, e mais faz sofrer os filhos, o jovem Cléante, apaixonado por Mariane, moça pobre – Harpagon obviamente se opõe ao namoro – e a filha Élise, que ele quer casar com o velho Anselme. Além das brigas com os filhos, Harpagon tem outros motivos para se inquietar: enterrou em seu jardim uma caixa com dez mil escudos de ouro e é constantemente perseguido pela idéia de que sua fortuna será roubada. No fim, a avareza é castigada e Cléante e Élise podem se unir às pessoas que amam.
Avarentos também não faltam nos romances de Charles Dickens (1812-1870), um dos mais conhecidos é o personagem Ebenezer Scrooge de Um conto de Natal (1843), um homem velho, egoísta, insensível, que odeia tudo – até o Natal – uma festa que evoca bondade e generosidade. Scrooge maltrata seu empregado Bob Cratchit, que tem um filho deficiente físico, o Pequeno Tim, mas na noite de Natal é visitado por misteriosas entidades, os Espíritos do Natal, e muda por completo, tornando-se generoso, ajudando Cratchit e sua família. Em Silas Marner, novela de George Eliot (1819-1880) que usava o pseudônimo de Mary Ann Evans, o personagem, um misantropo que prefere o ouro às pessoas, aprenderá, assim como Scrooge, a sua lição. Ele é roubado, mas, ao tomar sob seus cuidados o menino Eppie, mudará, tornando-se um homem melhor. Em Eugénie Grandet (1900), de Balzac, somos apresentados a Félix Grandet, um rico e sovina mercador de vinhos, que se opõe à paixão da filha pelo sobrinho pobre.
Como se pode ver em todas essas obras, a obsessão pelo dinheiro resulta de uma personalidade repulsiva ou patética. Freud tinha razão: o poder simbólico do vil metal não é pequeno e tem atravessado os séculos incólume.
Original em:

sexta-feira, 3 de abril de 2009

A incurável “doença” da escrita

Impulso que leva uma pessoa a escrever parece originar-se no sistema límbico – conjunto de células cerebrais associadas à emoção – e nem sempre gera talentos

por Moacyr Scliar
Foto: Galeria Nacional da Irlanda, Dublin
Nos últimos anos a tecnologia possibilitou identificar no cérebro as regiões responsáveis por muitas funções intelectuais. Mas será possível aperfeiçoar esse conhecimento? Será possível identificar, por exemplo, uma área responsável pelo impulso que leva uma pessoa a escrever?

Esta foi a pergunta que se fez a neurologista americana Alice Weaver Flaherty, da Universidade Harvard, e que procurou responder no livro The midnight disease: the drive to write, writer’s block, and the creative brain (A doença da meia-noite: o impulso para escrever, o bloqueio do escritor, o cérebro criativo). Sua motivação era, antes de mais nada, pessoal. Pouco tempo depois de dar à luz gêmeos prematuros que em seguida faleceram, ela sentiu um desejo irresistível de escrever, e sobre qualquer coisa. Um ano depois, novo parto; de novo gêmeos, que desta vez sobreviveram, mas de novo o incontrolável impulso da escrita.

Hipergrafia é o termo médico para descrever essa situação, conhecida há muito tempo: o poeta romano Juvenal falava, no primeiro século d.C. da “incurável doença da escrita”. Recentemente constatou-se que a hipergrafia é freqüentemente desencadeada pela epilepsia do lobo temporal, e que às vezes está associada à doença bipolar, na qual a mania se alterna com a depressão, sendo que os antidepressivos conseguem “estancar” o fluxo verbal. O impulso para escrever parece originar-se no sistema límbico – conjunto de células cerebrais associadas à emoção – e transformado em idéias “editadas” pelos lobos temporais. Alguns portadores de hipergrafia tornaram-se famosos. O pastor americano Robert -Shields manteve, de 1972 a 1997, diários que retratavam sua vida minuto a minuto e que encheram 94 caixas de papelão num total de 75 mil páginas, o suficiente para dar uns 4 mil livros de porte razoável. Virginia Ridley, da Geórgia, escreveu menos, 10 mil páginas, mas o seu texto foi mais útil: quando ela morreu de forma misteriosa, serviu para absolver o viúvo, acusado de assassinato (problema deve ter tido a polícia para ler tantas páginas).
E também existem escritores prolíficos, aqueles que escrevem muito. O que não é necessariamente um sinal de talento. A lista dos autores mais produtivos do mundo inclui nomes absolutamente desconhecidos para a maioria dos leitores, como o da sul-africana Mary Faulkner, que, diferente daquele outro Faulkner – o William – não ganhou o Nobel mas está em primeiro lugar na lista de recordes do Guiness, como autora de 904 livros; Lauran Paine, autor de 850 publicações; e Prentiss Ingraham que publicou 600 obras, das quais 200 sobre o cowboy Buffalo Bill. Mas na lista também estão os reputados Georges Simenon, criador do Inspetor Maigret (mais de 500 livros) e John Creasey, autor de conhecidos thrillers. Prolíficos foram também Charles Dickens, Honoré de Balzac e Victor Hugo. Segundo Shakespeare, autor razoavelmente fecundo, há mais coisas entre o céu e a terra do que alcança a nossa vã filosofia. O mesmo se pode dizer do processo criativo.

Moacyr Scliar é médico, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Entre o sonho e a ficção

Conexão entre criação literária e a fantasia pode surgir nos sonhos; o mundo onírico abre as portas do inconsciente e traz respostas para o escritor
por Moacyr Scliar
FOTO: DETALHE DE A RECONCILIAÇÃO DE OBERON E TITANIA, 1847, ÓLEO SOBRE TELA DE JOSEPH NOEL PATON / GALERIA NACIONAL DA ESCÓCIA, EDINBURGO
Há exatos 100 anos, em 1908, Sigmund Freud deu uma palestra (depois transformada em texto) intitulada Ficcionistas e seus devaneios. Nela, o pai da psicanálise enfatizava a conexão entre criação literária e fantasia, que, no ser humano pode surgir de várias maneiras, através de devaneios, de sonhos. Essa conexão explica a razão pela qual, desde há muito, a literatura fala sobre o sonhar. Para começar, na Bíblia as narrativas sobre sonhos são numerosas, mas o mesmo ocorre em narrativas míticas, folclóricas, o que levou Joseph Campbell a afirmar: “Mitos são sonhos públicos, sonhos são mitos privados”.
Os grandes escritores trabalharam muito com a idéia do sonho, e Shakespeare é disso um exemplo. Afinal, foi ele quem disse, em A tempestade: “Somos feitos da mesma matéria que os nossos sonhos”. O tema é recorrente na obra shakesperiana; uma de suas peças tem como título Sonho de uma noite de verão. Ali há um mundo da realidade (a cidade de Atenas) e um dos sonhos, povoado por fadas e elfos, ambos os mundos interagindo constantemente. Muitos dos sonhos shakesperianos têm caráter premonitório. Assim, antes do assassinato de Júlio César, na peça do mesmo nome, sua esposa Calpúrnia vê, em sonhos, a estátua de César, da qual o sangue jorra “por 100 orifícios”.
Vários escritores usaram os próprios sonhos como matéria-prima da ficção. O exemplo mais famoso é o do poeta inglês Samuel Taylor Coleridge. Aconteceu num dia de outono em 1797. Por causa de uma disenteria, Coleridge tomou um pouco de ópio. A droga deixou-o sonolento e ele adormeceu, enquanto lia uma obra que descrevia o palácio construído pelo imperador mongol Kublai Khan. Dormindo, sonhou com um poema que descrevia esse palácio e que tinha “não menos do que 200 ou 300 versos”. Um poema extraordinário que Coleridge, acordando, tratou de colocar no papel. Mas foi interrompido por um homem da localidade de Porlock (desde então a expressão “o homem de Porlock” serve para designar um intrometido que surge no momento mais inoportuno) e não conseguiu terminar o poema, que foi publicado inacabado. Robert Louis Stevenson freqüentemente sonhava com contos inteiros, e foi um sonho que lhe deu a idéia para Dr. Jeckyll e Mr. Hyde (O médico e o monstro). Já Mary Shelley, em sua introdução a Frankenstein, conta que desde criança gostava de escrever, mas tinha um prazer ainda maior: devanear. “Meus sonhos eram mais fantásticos e agradáveis que meus escritos. Eram só meus.” Ou seja: escrever significa compartilhar; sonhar, não. Sonhar é construir mitos privados, como disse Campbell.
A conexão entre sonhos e ficção serviu de mote para, pelo menos, dois livros publicados nos Estados Unidos, com depoimentos de escritores sobre seus sonhos:Tiger garden (O jardim do tigre), editado por Nicholas Royle, e Writers dreaming: 26 writers talk about their dreams and the creative process (Escritores sonhando: 26 escritores falam sobre seus sonhos e o processo criativo), editado por Naomi Epel. Neste último figuram dois best-sellers, Stephen King e Isabel Allende. O primeiro diz que usou em um de seus livros, Salem’s Lot (A hora do vampiro), um pesadelo da infância para descrever uma casa mal-assombrada. Já Isabel Allende conta que escreveu as últimas 15 páginas de A casa dos espíritos pelo menos dez vezes, sem ficar satisfeita com o tom desse final. Foi então que sonhou que falava a seu falecido avô sobre o livro, e, ao acordar, tinha a solução para o problema: “O epílogo deveria ter o tom de uma neta que simplesmente narra uma história ao avô”. A pergunta se impõe: será que no fundo ela já não sabia disso? Provavelmente sim: a resposta para seu problema ficcional estava no inconsciente. O sonho só fez o favor de abrir a porta desse inconsciente. O que, para um escritor, é um grande auxílio.
Moacyr Scliar é médico, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras.

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