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sexta-feira, 3 de julho de 2009

Psicoterapia Corporal e Psicossomática


A doença não é um acontecimento que atinge um indivíduo, o qual passa, então, a estar a ela submetido. O organismo doente está envolvido no aparecimento, no desenvolvimento e na cura de sua doença. O ser humano pode-se instalar na doença, pode obter com ela benefícios, mas pode, principalmente, pela doença, exprimir tendências profundas.
Existe, então, um fenômeno psique-soma no processo de adoecimento físico do ser humano, e seu estudo, dentro de uma perspectiva moderna, a psicossomática, foi iniciado por Freud, a partir de seus estudos sobre a"histeria de conversão". No acontecimento histérico, o corpo relata, fala, descarrega e protesta através do seu próprio adoecimento. É sempre, uma forma de o organismo expressar conflitos profundos. Como os distúrbios digestivos, por exemplo, que são, muitas vezes, expressão de conflitos entre o reter e o expelir, entre o desejo e a necessidade.
A doença, portanto, não é algo que vem de fora ou já está lá antecipada, é, sim, um modo peculiar de a pessoa se comunicar em circunstâncias adversas. É, pois, em suas várias formas, um modo de ser no mundo, um modo de se relacionar com as pessoas em volta. O conhecimento atual sobre o sistema imunológico, visto como um sistema intermediário entre o indivíduo, seus outros sistemas e o meio exterior e, também, como mantenedor da integridade corporal - portanto, um sistema auto-regulável, adaptativo e da vida de relação, estando, pois, em íntima interação com o sistema nervoso e com o sistema endócrino -, tem sido uma enorme contribuição na compreensão do tênue limite existente entre o que é propriamente somático e o que é propriamente psíquico.
Isto nos leva a ter que encarar o limite do conhecimento técnico na comprensão dos mecanismos de formação das doenças; e, em função desses princípios, colocamo-nos a refletir sobre a importância de se mudar o foco da ação terapêutica da doença para a interação com alguém doente, de quem, na verdade, podem advir os recursos realmente curadores de uma doença.
Uma das mais importantes fórmulas acerca do encontro entre o psíquico e o somático é a fórmula da energia. No conceito de "Unidade Funcional" ou "Identidade Básica", criado por William Reich, considera-se que a fonte de todos os acontecimentos humanos é a bionergia, ou orgon, o que significa que as atitudes corporais e as atitudes mentais-emocionais se correspondem, podendo substituir-se e influenciar-se mutuamente. (1) Cada região do corpo, além de prestar-se a uma determinada função vivente, pode emprestar-se para representar uma zona específica de conflito, conflito energético entre o psíquico e o somático. Esses conflitos são cargas emocionais relacionadas a acontecimentos vitais do passado, os quais, mal "metabolizados", permanecem e atualizam-se, criando obstáculos diversos à vida. Quando mobilizados, podem liberar ou distribuir energia, facilitando a consciência das circunstâncias vividas, a expressão emocional, antes contida, e a organização de um novo modus vivendi psico/corporal.
Todo o stress ocorrido durante as fases primitivas do desenvolvimento somato-emocional do indivíduo geram, em cada organismo humano, reações energéticas específicas, que servem de base para o desenvolvimento de doenças, no futuro, desse organismo. É Federico Navarro quem diz que as biopatias primárias, que correspondem às bases energéticas das doenças graves e geralmente "incuráveis", estariam relacionadas ao stress vivido em períodos mais tenros da vida humana (uterinos). As biopatias secundárias, bases de doenças graves e geralmente "curáveis", estariam também ligadas ao stress ocorrido em períodos iniciais (uterinos) e em torno do nascimento. As doenças somato-psicológicas conhecidas como "subclínicas" (ex.: gastrites, úlceras não instaladas, etc) corresponderiam ao stress ocorrido no período da infância. As somatizações ligadas a fortes acontecimentos emocionais (como paralisias histéricasdiversas), corresponderiam ao stress advindo da puberdade em diante. (2)
Diante dessa concepção de interação mente/corpo/energia, podemos criar relações entre as diversas regiões do corpo afetado e a expressão de conteúdos subjetivos. E assim, podemos observar que, mobilizando o movimento respiratório irregular, o silêncio peristáltico, a contração ocular e as diversas disfunções organísmicas, possibilitaremos o encontro com os sentidos mais profundos da gênese da doença de uma pessoa. E restabelecendoo ritmo respiratório espontâneo, os sons peristálticos rítmicos, o contato ocular descontraído, em síntese, o estado natural do organismo humano estaria a pessoa ambientando um novo campo energético onde basear a sua saúde.
Um acompanhamento terapêutico baseado numa visão da integração do organismo pode, pois, propiciar uma busca mais profunda do sentido da cura.
Outra maneira de olhar para o acontecimento doença/grave e a possibilidade/da/morte é a que pretende integrar o somático, o psíquico e o espiritual. Nessas visões, como na de David Boadella, dá-se uma grande ênfase ao grounding espiritual e aos estados transpessoais, reconhecendo-se que o trabalho psicossomático abre conexões para além do físico. O trabalho terapêutico, dentro de perspectivas que consideram a questão "espiritual", requer uma profunda reflexão sobre a relação entre o terapeuta e seu cliente. Ressonância, empatia, amor de transferência, tele são conceitos diversos para falar da mesma e necessária humanidade dessa relação. Conceitos como o de inner-ground, self, eu superior e outros fazem referência a uma realidade essencial, relacionada à presença e ao ser mais profundo em cada um de nós. (3)
Haveria, pois, na experiência de estar doente e/ou de morrer, um sentido espiritual de contínuo aprendizado. Nesse sentido, poderia haver um grande amparo no processo de adoecimento e de morte de uma pessoa se ela experimentasse a presença de um outro corpo/espelho/apoio/contato a estimular-lhe a vida. Como terapeutas precisamos encontrar vias em nós mesmos e nos prepararmos para exercer essa forma de ajuda. Segundo Susan Sontag, "a doença é o lado sombrio da vida, uma espécie de cidadania mais onerosa. Todas as pessoas vivas têm dupla cidadania, uma no reino da saúde e outra no reino da doença. Embora todos prefiramos usar somente o bom passaporte, mais cedo ou mais tarde, cada um de nós será obrigado, pelo menos por um curto período, a identificar-se como cidadão do outro país. (...) Meu ponto de vista é que a doença não é uma metáfora e que a maneira mais honesta de encará-la - e a mais saudável de ficar doente - é aquela que esteja mais depurada de pensamentos metafóricos..." (4)
Atendendo Alice, muito refletimos sobre essa questão. Alice teve que fazer uma cirurgia cardíaca para instalar uma válvula-prótese. Era a consequência de anos de um longo curso de uma febre reumática, que tinha sido bem tratada. Evidentemente, passara uma infância limitada em seus movimentos e possibilidades, já que quaisquer esforços agudizavam a sua doença. A família, estóica, ensinou-a a lidar, bastante naturalmente, com as suas condições de saúde, mas "esqueceu-se" de valorizar os aspectos emocionais vividos por uma criança diante de experiência tão limitadora. E, provavelmente, também, não pôde valorizar os aspectos emocionais ligados às suas próprias vivências diante de tarefa tão árdua como a de cuidar, ininterruptamente, de uma criança com febre reumática.
Tudo bem "contidinho", Alice construiu-se, sempre, objetivamente natural. Perto da cirurgia, sentiu medo - mas tranqüilizou-se e cuidou-se muito bem: fisicamente. Teve uma boa cirurgia, excelente recuperação, exímios cuidados médicos e familiares.
E agora, passado o pós-operatório, sozinha, sem a proximidade de sua família, sente-se machucada no seu peito: deprime-se. Luta consigo própria:"que é isso?, eu, sentindo essas coisas incontroláveis...?" É preciso "convencê-la" a emocionar-se. Permitir-se sofrer por suas próprias dores. É verdade, é "natural" a sua doença; é "apenas uma doença", que "dói aqui, dói ali..." -Mas chore, Alice! Seu peito foi aberto. Lamente-se. É só ser humana! Alice "atende". Transforma-se, agora, em lágrimas e estoicismo. -Bravo, Alice! Bravo!
Haveria como aplicar essa visão não-preconceituosa da naturalidade da doença para com as concepções acerca da morte?
Referências Bibliográficas
1 - REICH, W. - "A função do Orgasmo" - Editora Brasiliense, 11a edição, São Paulo, 1985.
2 - NAVARRO, F. - "Somatopsicodinâmica das Biopatias" - EditoraRelume Dumará, 1a edição, Rio de Janeiro, 1991.
3 - BOADELLA, D. - "Correntes da Vida - Uma introdução à Biossíntese"Summus Editorial, São Paulo, 1992.
4 - SONTAG, S. - "A Doença como Metáfora" - Edições Graal, Rio de Janeiro, 1984.
5 - LEVINE, S. - "Healing into Life and Death" - Doubleday, New York, 1987.
6 - KUBLER-ROSS, E. - "Friends of Shanti Nilaya" (magazine) - Londres, 1990.
Resumo do currículo dos autores:
Humbertho Oliveira - Médico, Psicoterapeuta Somático, Fundador e Coordenador do Grupo Quiron - Centro de Estudos e Práticas Transomáticas, Psicoterapeuta da Associação de Apoio à Criança com Câncer.
Mauricio Tatar - Médico, com formação em Medicina Chinesa e Homeopatia, participação em cursos, palestras e grupos de estudo em Terapia Floral, Cromoterapia, Fitoterapia, Dietoterapia e Oligoelementos. Ministra cursos desde 1989 sobre estes temas.
Susana Hertelendy - Psicóloga formada pela Columbia University, New York, EUA em 1975; Revalidação pela UFRJ, Rio de Janeiro, 1980; Psicoterapeuta Somática; Guest Trainer internacional do grupo Transformational Energetics, New York, EUA; Fundadora e Membro do Quiron-Centro de Estudos e Práticas Transomáticas, RJ.
Vania Didier - Psicóloga, Psicoterapeuta Somática, Fundadora e Coordenadora do Grupo Quiron - Centro de Estudos e Práticas Transomáticas.
Original em:

quinta-feira, 2 de julho de 2009

A Doença como Significado


A Doença como Significado (claro ou oculto) - As contingências da linguagem na transição para o terceiro milênio

Nossa proposta é de re-significar. Em muitos casos, os significadostornaram-se obsoletos e inapropriados. A mudança de paradigmas se reflete profundamente na linguagem. Só é possível mudar comportamentos e atitudes, se os conceitos em que se baseiam estão claramente expressos nas palavras que representam uma língua. Mas os significados da época em que vivemos são ambíguos e, freqüentemente, não nos ajudam no confronto com as questões contemporâneas.
A doença, por exemplo, exceto quando hereditária, é vista, em nossa sociedade, como algo que é o resultado de uma interferência externa: um vírus, uma bactéria, má nutrição, etc..., algo que nos atinge e que, portanto também deve ser erradicado através de uma interferência externa. Freqüentemente, este seria efetivamente um lado da questão. Mas, se somos organismos com aspectos que vão além do físico e fisiológico, e se somos criaturas inseridas num contexto mais amplo e que dependemos de tudo o que nos cerca, então o que nos acontece é algo pelo qual podemos ser responsáveis por um lado, enquanto que por outro, é tão vasto o mundo que habitamos e tão imprevisíveis e insondáveis as interações e influências, que, no mínimo, o que poderíamos dizer é que a doença - como a suposta cura- constituem-se em mistérios. Como misteriosa é a própria vida.
Poderíamos, entre outras coisas, dizer que a doença é passagem, é comunicação, é transformação. E, acima de tudo, poderíamos dizer que ela tem um sentido muito pessoal para cada um, a cada momento de indagação. A doença seria, então, uma entrada em outra realidade. Como o sonho, ela pode ter inúmeras leituras para cada pessoa.
A doença, assim como a dificuldade emocional - e elas podem ser complementares -, freqüentemente, proporcionam um contato com outras dimensões do ser talvez negligenciadas, trazendo um confronto com a "sombra" do indivíduo em questão. E só o conhecimento em si dessas dimensões, o estreitamento da relação entre aspectos conhecidos e desconhecidos pode trazer a integração com a essência, que é a fusão harmoniosa do ser como um todo. (3)
Nesse sentido, poderíamos argumentar que a doença é um instrumento introduzido por outro aspecto de nosso ser que quer nos dizer algo a respeito de nossas relações conosco mesmos, com a natureza e com os seres animados e inanimados, com a vida, com o divino, em última análise.
Com freqüência, nos revoltamos com as doenças ou, então, nos acomodamos e seguimos passivos, entregues a algum tratamento ou alguma direção imposta, deprimidos e sem mais indagar ou buscar formas próprias de entender ou conviver com o que nos acontece. Passivamente, aceitamos o que nos dizem os meios médicos, terapêuticos, religiosos e espirituais, familiares e de amigos.
Mas, enquanto nossos limites assim se manifestam, alguma reflexão sobre o que se passa conosco poderá estar se realizando em níveis menos conscientes.
Nesse contexto, é importante também registrar que o atual momento de transição planetária traz, à luz, outras vias antes ocultas, restritas a meios específicos, ou simplesmente, mais lentas e difíceis de contactar.
Hoje, o acesso a outros planos ou aspectos nossos e/ou da realidade em que vivemos se torna possível, às vezes, sem grande esforço da nossa parte. Exemplo disso são os debates e eventos públicos como esse, onde temos a oportunidade de trocar idéias, sonhos e desejos, e também confirmar trajetórias escolhidas, reforçando, assim, a auto-confiança existente em cada um de nós.
Essa troca faz parte da busca do "caminho do meio", do equilíbrio e da harmonia. E ela abre o caminho para o conhecimento de outras escolhas possíveis.
Em uma transição de vida, por exemplo, podemos harmonizar o tratamento tradicional com o alternativo, a visão médica com a terapêutica e a espiritual para obter uma visão mais ampla e mais integrada do nosso processo individual, e para poder assumir com mais serenidade uma administração mais própria dos caminhos a seguir nas decisões exigidas por tal transição.
Assim, enquanto nos tratamos através da medicina tradicional, podemos também suavizar nossa atitude para com a doença, permitir-lhe o espaço para que sua mensagem se expresse com clareza, nos comunicando as necessidades do nosso organismo que antes não podiam ser acolhidas. E podemos, também, expressar conscientemente a nossa intenção com referência aos medicamentos que tomamos e aos tratamentos aos quais nos submetemos. Essas atitudes, que imprimem de nossa parte uma qualidade positiva em um tratamento prescrito, fazem parte de práticas meditativas comumenteutilizadas em certas tradições espiritualistas. (5)
A meditação e a oração são práticas que podem nos ajudar nesse processo. Como também podem ser úteis os trabalhos energéticos, as visualizações, os relaxamentos, e, em certos casos, as massagens. Tais práticas e técnicas abrem o caminho para uma outra relação com a doença. Uma relação em que não nos apegamos a ela e nem a rejeitamos. Apenas permitimos a sua presença e ouvimos o que tem a dizer, já que pode nos ensinar a ter uma nova relação com tudo o que nos cerca e com a vida. (6)
Essa linha de pensamento faz parte do trabalho de re-significação. Refletir sobre os sentidos da linguagem, buscar a coerência entre estes e os conceitos, valores e comportamentos que representam um momento cultural, mas que atravessam também um processo de revisão, é buscar ser consciente na linguagem e no comportamento, e inteiro quanto à nossa manifestação na vida. A mudança de paradigmas que está acontecendo também na expressão linguística, continuará se fazendo ao longo do tempo, quer através de uma profunda transformação nas línguas existentes - acompanhada, é claro, do surgimento de novas palavras e expressões -, quer através da permanência de palavras com novos sentidos e novas cargas energéticas.
Acima de tudo é possível compreender que nem sempre conseguiremos explicar o que nos acontece. Há muitas coisas misteriosas na vida e o decifrar delas permanecerá além do nosso alcance a despeito de qualquer esforço de nossa parte. Entretanto, se formos humildes e confiantes, a nossa essência sempre nos mostrará o que é possível, e com referência ao que permanecer além disso, nos guiará e ajudará a acolher e reverenciar o desígnio divino.
Referências Bibliográficas
1 - REICH, W. - "A função do Orgasmo" - Editora Brasiliense, 11a edição, São Paulo, 1985.
2 - NAVARRO, F. - "Somatopsicodinâmica das Biopatias" - EditoraRelume Dumará, 1a edição, Rio de Janeiro, 1991.
3 - BOADELLA, D. - "Correntes da Vida - Uma introdução à Biossíntese"Summus Editorial, São Paulo, 1992.
4 - SONTAG, S. - "A Doença como Metáfora" - Edições Graal, Rio de Janeiro, 1984.
5 - LEVINE, S. - "Healing into Life and Death" - Doubleday, New York, 1987.
6 - KUBLER-ROSS, E. - "Friends of Shanti Nilaya" (magazine) - Londres, 1990.
Resumo do currículo dos autores:
Humbertho Oliveira - Médico, Psicoterapeuta Somático, Fundador e Coordenador do Grupo Quiron - Centro de Estudos e Práticas Transomáticas, Psicoterapeuta da Associação de Apoio à Criança com Câncer.
Mauricio Tatar - Médico, com formação em Medicina Chinesa e Homeopatia, participação em cursos, palestras e grupos de estudo em Terapia Floral, Cromoterapia, Fitoterapia, Dietoterapia e Oligoelementos. Ministra cursos desde 1989 sobre estes temas.
Susana Hertelendy - Psicóloga formada pela Columbia University, New York, EUA em 1975; Revalidação pela UFRJ, Rio de Janeiro, 1980; Psicoterapeuta Somática; Guest Trainer internacional do grupo Transformational Energetics, New York, EUA; Fundadora e Membro do Quiron-Centro de Estudos e Práticas Transomáticas, RJ.
Vania Didier - Psicóloga, Psicoterapeuta Somática, Fundadora e Coordenadora do Grupo Quiron - Centro de Estudos e Práticas Transomáticas.
Original em:
http://www.fw2.com.br/clientes/artesdecura/REVISTA/psico/doenca_como_caminho.htm

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