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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Pesquisador defende ações com empresas por biodiversidade

Amália Safatle
De São Paulo

Imagine um agricultor que, para sobreviver, precisa comer as sementes que tem para plantar. Imagine um banco que não vive mais dos juros que cobra, mas sim consome o capital que teria para emprestar. Ambos estão com os dias contados, pois nesses casos a busca de sobrevivência no curto prazo compromete de modo irreversível o dia amanhã.
Esta é a figura de linguagem que Jason Clay, PhD em Antropologia e Agricultura pela Universidade de Cornell, nos EUA, e vice-presidente sênior da ONG WWF usa para ilustrar o fato de que nós - humanidade - estamos na mesma situação em relação à Terra. Desde 1990, estamos no vermelho, consumindo hoje 1,3 planeta. Onde mais queimamos a linha foi na questão da perda de biodiversidade, protagonizando a única espécie capaz de provocar a extinção em massa e acelerada de todas que existem. E extinção, vale lembrar, é para sempre.
Diante de um quadro de aumento populacional e de consumo, com países emergentes almejando o nível de afluência das nações ricas, as pressões sobre a biodiversidade só tendem a crescer. Ao mesmo tempo, as decisões no âmbito das Nações Unidas para conservar a biodiversidade são lentas, pois exigem consenso de todos países participantes, que possuem interesses divergentes e se estendem em longuíssimas negociações.
Com pouco tempo para revertermos o ritmo de perda da biodiversidade, Jason Clay, defende uma iniciativa de ordem bem prática, específica, quase cirúrgica: atuar junto a algumas empresas escolhidas a dedo, que sejam capazes de mover uma extensa cadeia de valor, trabalhem com produtos de consumo prioritários e atuem em regiões estratégicas em termos de biodiversidade.
Ele mapeou 35 regiões ricas em diversidade biológica e literalmente vitais para o equilíbrio ecológico. E também identificou 15 commodities que, produzidas de maneira insustentável, representam as maiores ameaças a esses lugares devido ao desmatamento, à perda de solo fértil, à exploração da água, ao uso de pesticidas, à sobrepesca, entre outros fatores.
Dados 35 lugares e 15 commodities, Clay perguntou-se como podem ser modificados os modos de produção, de modo a conservar a biodiversidade. Certamente será complicado trabalhar com 6,9 bilhões de consumidores (a população mundial) que falam 7 mil línguas diferentes e conscientizar todos a ponto de mudarem instantaneamente seus modos de consumo. E mesmo que queiram mudar, haveria oferta de produtos mais sustentáveis para todos ao mesmo tempo?Também será difícil lidar com 1,5 bilhão de produtores. Mas com 300 a 500 empresas, que controlam no mínimo 70% do comércio de cada uma das 15 commodities, a ideia começa a se tornar mais factível. "Se mudarmos essas companhias e a maneira como fazem negócios, o restante acontecerá automaticamente", defende Clay, em palestra que pode ser acessada em www.ted.com/talks/jason_clay_how_big_brands_can_save_biodiversity.html.
Em uma visão mais detalhada, Clay descobriu que 100 dessas 300 empresas estão ligadas de alguma a 25% do comércio das 15 commodities. "E com 100 companhias, nós podemos trabalhar". Ainda que 25% não seja um percentual tão alto, o pesquisador explica que essas grandes marcas têm o poder de influenciar a rede de fornecedores com a qual trabalham, e criar um efeito em cadeia.
Companhias podem 'empurrar' produtores mais rapidamente do que os consumidores seriam capazes."
E por que as empresas seriam convencidas a transformar seu modo de operar e fazer negócios levando em conta a conservação da biodiversidade e processos mais sustentáveis. Mais que o risco reputacional, está em jogo a própria existência das commodities, que dependem de um ambiente em equilíbrio.
Clay conta que 100 empresas já foram identificadas nos últimos dois anos. Nos últimos 18 meses, foram assinados acordos com 40 delas. Nos próximos 18 meses, ele acredita que serão firmados acordos com mais 40. Uma das empresas que cita é a Cargill que embora ainda esteja engatinhando nesse processo, ao menos aderiu a ele. É uma empresa chave, responsável por 20% a 25% da produção global de óleo de palma. "Se ela toma essa decisão, pelo menos metade da indústria mundial de palma se mexe", aposta. Outros exemplos que menciona são a Mars e a Coca-Cola.
"Essas companhias começaram a pensar diferente. Tudo o que possa ter sido sustentável em um mundo com 6 bilhões de habitantes não será em um mundo com nove", afirma.
Amália Safatle é jornalista e fundadora da Página 22, revista mensal sobre sustentabilidade, que tem como proposta interligar os fatos econômicos às questões sociais e ambientais.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Avatar é aqui

Samira Feldman Marzochi

Mesmo que Avatar não seja um filme de grande profundidade, aproxima-se, sinteticamente, de um estrato da cosmologia contemporânea, e assim nos permite analisá-la. Avatar traduz o modo como, em alguma medida, percebemos nosso mundo. Sabemos que nenhuma representação, mesmo individual ou de um grupo, é absolutamente particular. A representação da lua Pandora é extraída da “consciência coletiva” terrena, produzida em algum nível do “senso comum”, e particularizada pela criatividade de uma equipe. Adentrar em Pandora, por isso, é viver uma cosmologia etnografada em terceira dimensão. De modo inconsciente, o diretor e toda a produção atuaram como etnógrafos de um mundo imaginado.

Mas, sabemos também que os mundos, inclusive a Terra, são sempre imaginados, se tudo o que existe é mediado por símbolos e imagens. Inversamente, toda imaginação é verdadeira: são visões de mundo que se sobrepõem ao “real” entendido como a condição material mínima para a continuidade da vida orgânica. Pandora, portanto, pode ser considerado um planeta Terra de projeção cosmológica que revela alguma coisa sobre o modo como estamos nos vendo. (Em parte, disto advém seu sucesso publicitário).

Pandora revela duas ideologias importantes da contemporaneidade. Uma de ordem política, a outra de caráter sociológico. Ao contrário da caixa mitológica, esta lua guarda as melhores éticas, aspirações e valores políticos. Neste mundo, realiza-se o ideal do pragmatismo bem intencionado em que não há significados transcendentes, distinção entre “pensamentos” e “coisas”, e tudo faz parte de um mesmo “estofo” universal. Desde que não haja interferência alienígena, isto é, humana, todo o seu sistema ecológico permanece em equilíbrio e é capaz de auto-organização.

Neste mundo, não há dominação de uns sobre outros, apenas conexão: o dragão alado de montaria não se subordina ao “dragoneiro”, mas o escolhe num desafio. O enfrentamento físico é encerrado quando ambos se conectam organicamente, e assim conseguem voar em sincronia; quando se mata um animal por defesa, este não pode ser considerado um motivo de alívio ou alegria, mas um fato a lamentar. Mesmo a caça para consumo deve ser um gesto “limpo”, em que se pede desculpas ao animal informando-o que sua alma será libertada e que seu corpo reviverá no corpo do povo que dele se alimente; a autoridade política é também a autoridade familiar. Cada clã possui como chefes um “Pai” e uma “Mãe” idosos, indicando que não há hierarquias de gênero e que a legitimidade do poder provém da experiência e do conhecimento; a participação política e o direito à voz em assembléias em que todos se reúnem, é garantida pelo pertencimento ao clã e pelo domínio da língua. Porém, assim como a língua pode ser assimilada, o pertencimento não é um direito adquirido exclusivamente por descendência ou lugar de nascimento, mas conquistado num processo de iniciação cultural autorizado pelos chefes e selado em um ritual de passagem.

Como ideais políticos, todos estes aspectos são bem compreendidos. Mas, ao revelarem-se também uma forma contemporânea de percepção da realidade, tornam-se bastante problemáticos. Ultrapassam o campo da normatividade para constituir-se como uma nova sociologia deslocada de seus conceitos fundamentais. Note-se a maneira como, de modo implícito, o conceito de “sociedade” aparece em Avatar. O conceito não teria avançado muito desde o século XVIII. Saint-Simon já compreendera a Sociedade como um “ser” independente. Durkheim aprimorou esta observação afirmando que ela não resulta da soma de seus indivíduos mas da interação entre eles. Todas as suas pesquisas partiram e confirmaram o pressuposto da autonomia e transcendência da sociedade em relação aos indivíduos. Porém, como criação coletiva, a Sociedade se impõe ao real jamais identificando-se completamente com ele.

Em Pandora, ao contrário, as árvores sagradas, que seriam a representação mais elementar do próprio clã, não são outra coisa senão o acúmulo literal de vozes e memórias individuais dos antepassados que podem ser “acessadas” uma a uma. Os seres se conectam a estas entidades e entre si fisicamente, não através de um espírito comum, alma do povo, língua ou cultura. É quase desnecessário mencionar que Pandora está impregnada de conceitos tecnológicos. A idéia central do roteiro é, aliás, a da possibilidade de transferência de uma “pessoa” a outro corpo através da tecnologia. A identidade pessoal é determinada pela consciência que habita o corpo, assim como softwares se instalam em hardwares. Há sempre algum grau de determinação do meio material sobre a personalidade, mas o princípio identitário se dá, sobretudo, pela “memória” do indivíduo capaz de garantir a completa unidade do corpo e eliminar qualquer dualidade entre “corpo” e “espírito”.

A atmosfera de Pandora assemelha-se ao interior de um mar profundo em que sementes gigantes movem-se como águas-vivas e poeiras cintilam à luz do sol, planetas e luas que atravessa a floresta. A menor gravidade em relação à Terra, a possibilidade de montanhas flutuantes, sugerem esta inversão de primazia entre a Sociedade e seus elementos. Em menor gravidade, as partes do mundo são suspensas e se tornam mais evidentes. Neste universo em que representação e realidade se indistinguem, assim como não há hierarquias entre sujeito e objeto, a comunicação intersubjetiva entre humanóides, animais e plantas é direta, não mediada por formas culturais.

No entanto, assim co­mo nas religiões ditas “e­­lementares”, tudo o que existe em Pandora resulta de um desdobramento da natureza universal a que todas as coisas estão ligadas. A diferença é que esta enorme “rede” conectiva não é pura metáfora, mas sim algo substantivo. A lua, quase toda uma densa floresta onde a invasão humana não fez seu estrago, é riscada de fios pendulares, cintilantes, prontos a tocar e entrelaçar outras linhas para transferir informações. Já na passagem para o século XX, Durkheim esforçava-se por desfazer a falsa idéia cientificista destes fios materiais que nos ligam simultaneamente à natureza e à vida social.

Tão povoada de cores e brilhos, Pandora nos faz ver a Terra, muito depois do filme, como um lugar mais vazio, pálido e fosco. Os corpos dos sapiens sapiens parecem até mais feios que os humanóides azulados. Os “Povos do Céu” continuam insanos e mesquinhos, cada qual com sua idiossincrasia, mas dominados por uma mesma loucura de auto-destruição. Para aprender com os Na’vi, é preciso esvaziar-se dos conhecimentos humanos, tornar-se “copo vazio”. Paradoxalmente, num universo impregnado da linguagem bio-tecnológica, a ciência é tida como indício de loucura, pois é ela quem, na Terra ou em Pandora, legitima a destruição.

Ainda que o conexionismo seja um avançado ideal político, crer hoje numa realidade conexionista significa repor, sob a inspiração da cibernética, da informática e da genética, a perspectiva imanentista das ciências modernas (européias e oitocentistas) que esta mesma ideologia contemporânea critica. Além de não traduzir a realidade, tampouco analisá-la criticamente, a perspectiva conexionista não permite a compreensão da mudança social como resultado da contradição entre realidade e representação, ou da desigualdade entre sujeito e objeto de poder e conhecimento. Consiste, portanto, de um ideal que apenas pode realizar-se em outro mundo, de uma não-problematização do poder, de um abandono das questões relativas à emancipação.

Mesmo que Avatar sustente críticas importantes ao comportamento humano face à natureza, e que os invasores nocivos sejam derrotados, é Pandora quem se apresenta como possibilidade existencial para a vida, e não uma Terra radicalmente transformada. O “final feliz” não corresponde, portanto, à emancipação crítica em relação à humanidade, à evolução do homem e da razão, mas à desistência e à fuga do mundo humano. O herói apenas revive em liberdade em um novo corpo, assim como os terráqueos, após destruírem seu planeta, buscam outros mundos. Em seu ímpeto de dominação treinado pelas guerras, torna-se líder entre os povos, assumindo a função histórica de unificar todos os clãs. Estruturalmente, nada de muito distinto.

Em última análise, Avatar simplesmente repõe o “mito da fuga planetária”. Porque assistimos a trama também como avatares distanciados da Terra, quase nos esquecemos de que a felicidade dos mocinhos vem acompanhada da destruição ambiental de nosso planeta, o que já não é um problema para o filme. Se não há como salvar a Terra, se o homem é naturalmente egoísta, nossas aspirações políticas se voltam para “um outro mundo possível”, mas bem longe daqui, aqui mesmo, sob as lentes de 3D.
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Samira Feldman Marzochi é pós-graduanda do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp
Artigo socializado pelo Jornal da Unicamp, ANO XXIV – Nº 452 e publicado pelo EcoDebate, 06/03/2010

segunda-feira, 15 de março de 2010

Alerta Final

Gaia: alerta final - James Lovelock
A hipótese da Terra (Gaia) como um gigantesco Organismo Vivo foi para mim - na década de 80 - uma magnífica, indescritível e inimaginável experiência de quebra paradigmática. Naqueles anos eu mergulhei em leituras impensadas, que vagavam da física quântica às fundamentações antropológicas e ecossistêmicas de nossas mais radicais realidades humanas e planetárias...de fato foram tempos de muita introspecção e de duros ajustes em minhas sinapses e na compreensão consciente das coisas deste Universo!!

Mais uma vez o mesmo mestre de outrora e pai da teoria de Gaia, James Lovelock - hoje com os seus 90 anos - publica um novo livro, na verdade mais um de uma série de alertas, que foi lançado no Brasil no próximo dia 12/01/2010, e nos convida, na verdade nos convoca, nos recruta, para travar duras reflexões sobre o agora da Humanidade e do Planeta Terra : "GAIA: ALERTA FINAL"!!!


Com fortes críticas aos movimentos verdes da atualidade e às decisões políticas das nações frente os desafios inadiáveis das mudanças climáticas inevitáveis, o autor vai fundo na questão da sobrevivência e do prosseguimento da humanidade num mundo instável e caótico, onde o modelo de conforto urbano está com os dias contados e será levado a cabo nos próximos anos e décadas...veja abaixo alguns pequenos trechos do Primeiro Capítulo:

" [...] No Reino Unido, sobrou pouca terra para cultivo e para nos alimentar, mas nós e os refugiados poderemos, de qualquer forma, não ser capazes de o fazer, porque a maioria absoluta de nós é urbana, e praticamente ignora a vida além da cidade, não entendendo que todas as nossas vidas dependem dele. As visões tão íntegras e bem-intencionadas da União Europeia para "salvar o planeta" e promover o desenvolvimento sustentável com o uso apenas de energia "natural" poderiam ter funcionado em 1800, quando havia apenas um bilhão de seres humanos no mundo, mas agora não podemos nos dar a esse luxo. De fato, à sua própria maneira, a ideologia verde que agora parece inspirar o norte da Europa e os Estados Unidos poderá, afinal, ser tão prejudicial ao meio ambiente real quanto o foram as ideologias humanistas anteriores. Se o governo do Reino Unido persistir em forçar os esquemas dispendiosos e nada práticos da energia renovável, em breve descobriremos que quase tudo o que resta da nossa região rural será usado para a produção de biocombustível, geradores de biogás e parques eólicos de escala industrial - tudo isto no exato momento em que precisaremos de todo o campo existente para o cultivo de alimentos. Não se sinta culpado por optar por essa bobagem: um exame mais profundo revela que ela é um elaborado embuste criado pelo interesse de algumas nações cujas economias se enriquecem a curto prazo pela venda de turbinas eólicas, usinas de biocombustível e outros equipamentos energéticos supostamente verdes. Não acredite por um momento sequer na conversa de vendedor de que isso salvará o planeta. A conversa mole dos vendedores tem a ver com o mundo que eles conhecem, o mundo urbano. A Terra real não precisa ser salva. Pôde, ainda pode e sempre será capaz de se salvar, e agora está começando a fazê-lo, mudando para um estado bem menos favorável a nós e outros animais. O que as pessoas querem dizer com o apelo é "salvar o planeta como o conhecemos", e isso agora é impossível.

Os Estados Unidos entendem a ameaça do aquecimento global? Poucos duvidariam de que, no presente momento, os Estados Unidos sejam a nação mais destacada em termos de ciência e invenção - e não há maior prova disso que o computador que está sobre todas as nossas mesas e que, no mínimo, realiza o trabalho outrora feito por um datilógrafo. Os Estados Unidos tiveram um papel importante em sua evolução. Como se não bastasse, temos os pousos na Lua, a exploração de Marte e as frotas de satélites assombrosamente complexos, desde o telescópio Hubble até aqueles que lhe informam exatamente onde você se encontra em qualquer lugar do mundo. Tudo isso e muito mais é um tributo ao know-how americano e sua atitude dinâmica. Mesmo a teoria de Gaia foi descoberta no fértil ambiente do Laboratório de Propulsão a Jato da Califórnia, e o único biólogo que a entendeu e continuou a desenvolvê-la foi a destacada cientista americana Lynn Margulis. Obviamente, avanços em ciência e tecnologia emergiram na Europa na Idade Média e seu centro de excelência se moveu entre as nações. Em tecnologia e teoria computacionais, Babbage, Ada Lovelace e o mais trágico entre os homens, Alan Turing, fizeram, todos, o trabalho de base aqui, no Reino Unido. Turing foi aquele que, com seu grupo, construiu o primeiro aparelho computacional sério e o utilizou para decifrar o código inquebrável dos nossos inimigos de tempo de guerra. Mas isso foi naquela época. Agora, os Estados Unidos são o centro da ciência.

Faço este elogio solene aos Estados Unidos da América por estar perplexo: apesar de sua excelência científica, eles, entre todas as nações, foram os mais lentos em perceber a ameaça do aquecimento global. Duvido que essa ignorância inesperada tenha alguma ligação com o fato de o uso per capita americano de combustível fóssil, uma fonte de dano climático, ser maior que em qualquer outro lugar. Considero-a mais uma consequência de a maioria dos cientistas americanos, à sua maneira francamente bem-sucedida e reducionista, considerar a Terra algo que eles poderiam melhorar ou controlar; parece que eles a veem como nada mais que uma bola de rocha umedecida pelos oceanos e situada dentro de uma tênue esfera de ar. Até parece que consideram Marte um planeta a ser desenvolvido quando a Terra não for mais habitável. Não veem a Terra como um planeta vivo que regula a si próprio.

Políticos do mundo desenvolvido reconhecem a mudança climática, mas suas políticas ainda estão no século XX, fundamentadas nos conselhos de lobistas dos ambientalistas e daqueles da comunidade empresarial, que enxergam um enorme lucro no curto prazo vindo de planos energéticos subsidiados. Eles raramente parecem agir sob as recomendações de seus consultores científicos. Em Bali, líderes políticos acordaram em cortar as emissões de carbono em 60% até 2050. De onde é que eles tiraram a ideia de que poderiam fazer uma política para um mundo com mais de quarenta anos de antecedência? É improvável que políticas baseadas em extrapolação injustificável e dogmas ambientais evitem a mudança climática, e não deveríamos sequer tentar implementá-las. Em vez disso, nossos líderes deveriam se concentrar imediatamente na sustentação de suas próprias nações como um habitat viável; poderiam ser inspirados a fazê-lo não apenas por causa de um interesse nacional egoísta, mas como capitães dos botes salva-vidas que suas nações poderiam vir a ser. No início de 2008, o governo do Reino Unido finalmente anunciou um programa para a construção de novas centrais energéticas nucleares. Certamente espero que essa não seja outra das falsas promessas que caracterizaram tantas das eloquentes declarações do governo Blair. Energia nuclear é, de longe, o meio mais efetivo de reduzir a emissão de dióxido de carbono, mas não é esse o motivo mais importante para que rivalizemos com a França e passemos a produzir eletricidade a partir de urânio. O importante é que as cidades exigem um fornecimento constante e econômico de eletricidade que até recentemente veio do carvão e do gás, mas esses recursos estão agora em declínio e não deixam nenhuma alternativa além da energia nuclear. As megacidades que estão começando a emergir demandarão enormes fluxos de eletricidade e somente uma vigorosa e rápida expansão da energia nuclear poderá satisfazê-los num futuro próximo. Essa necessidade se intensifica por termos pouca terra para cultivar alimentos - e a agricultura intensiva exige energia abundante. Com o esgotamento do petróleo, precisaremos sintetizar combustível para a maquinaria móvel de construção, transporte e agricultura. Não é algo difícil de fazer a partir do carvão ou da energia nuclear, mas precisamos começar a nos preparar para isso agora. Poderemos até ter de considerar a síntese direta de alimento a partir de dióxido de carbono, nitrogênio, água e cultura de células.

Talvez, por sermos tão adaptáveis, não estejamos cientes da velocidade com que o mundo está mudando. Se a temperatura média no Reino Unido em janeiro for 7°C, temos a sensação de frio a maior parte do tempo e nos agasalhamos nas manhãs geladas quando sopra um deprimente vento noroeste. Resmungamos: onde está o aquecimento global agora? No verão, a média é de 20°C em julho e desfrutamos uma semana com temperaturas máximas de 30°C, mas grunhimos se cair a 15°C por um mesmo período. Ainda assim, há apenas vinte anos, essas temperaturas de inverno e de verão teriam sido registradas como anormalmente quentes para essas épocas do ano. A precipitação pluvial nos condados orientais do Reino Unido sempre foi baixa, na faixa de 500 milímetros por ano, mas a zona rural sempre foi exuberante e verde, porque permanecia fresca durante o verão. Em comparação, o Arizona, que tem uma precipitação pluviométrica semelhante, é quase inteiramente cerrado e deserto simplesmente por ser bem mais quente e pelo fato de a chuva que cai secar inteiramente ou escorrer para dentro dos canais antes que as plantas possam aproveitá-la. Nosso condado mais ao sudeste, Kent, já está com escassez crescente de água, e o sul da Europa é agora quase um deserto. A adaptação, como animais individuais, não é tão difícil: quando uma tribo muda das regiões temperadas para as tropicais, leva apenas algumas gerações para que os indivíduos se tornem mais escuros à medida que a seleção elimina os de pele clara. Também é assim com todos nós: nosso mundo mudou para sempre, e teremos de nos adaptar a muito mais que a mudança climática. Mesmo durante meu tempo de vida, o mundo encolheu em relação àquele que era bastante vasto para fazer da exploração uma aventura e incluía muitos lugares distantes onde ninguém tinha jamais caminhado. Agora, tornou-se quase uma cidade interminável, encravada numa agricultura intensiva, mas domesticada e previsível. Em breve, poderá reverter novamente a uma selva. Para sobreviver nesse novo mundo, precisamos de uma filosofia Gaiana e precisamos nos preparar para combater um chefe militar bárbaro disposto a nos capturar e a se apoderar de nosso território.

Em um pequeno grau, a difícil situação dos britânicos em 1940 lembra o estado do mundo civilizado agora. Naquela época, tínhamos quase uma década da crença bem-intencionada, mas inteiramente equivocada, de que a paz era tudo o que importava. Os seguidores dos lobistas da paz dos anos 1930 eram parecidos com os movimentos verdes agora; as intenções eram mais que boas, mas inteiramente impróprias para a guerra que estava prestes a começar. A falha fundamental dos lobistas verdes de agora se revela no próprio nome Greenpeace; por aglutinarem o humanismo dos movimentos pela paz com o ambientalismo, eles inconscientemente antropomorfizam Gaia. Está na hora de despertar e perceber que Gaia não é nenhuma mãe acolhedora que acalenta os seres humanos e que pode ser aplacada por gestos como comércio de carbono ou desenvolvimento sustentável. Gaia, mesmo que façamos parte dela, sempre dita os termos da paz. Em maio de 1940, despertamos para descobrir, encarando-nos do outro lado do canal da Mancha, uma força continental inteiramente hostil prestes a nos invadir. Estávamos sozinhos, sem nenhum aliado efetivo, mas tivemos a sorte de ter um novo líder, Winston Churchill, cujas palavras comoventes sacudiram a nação inteira de sua letargia: "Nada tenho a oferecer, senão sangue, trabalho duro, lágrimas e suor." Precisamos de um outro Churchill agora, que nos tire do pensamento insistente, acomodado e consensual de fins do século XX e una a nação num esforço resoluto de travar uma guerra difícil. Precisamos de um líder que instigue todos nós, mas especialmente atice aqueles jovens ativistas verdes que tão bravamente protestaram contra todas as formas de profanação dos campos. Onde estão os batalhões de "Terra acima de tudo" e para onde foram Swampy* e seus amigos?

Desfrutamos 12 mil anos de paz climática desde a última mudança da era glacial para a interglacial. Não demorará muito e poderemos nos defrontar com uma devastação de alcance planetário pior até que uma guerra nuclear ilimitada entre superpotências. A guerra climática poderia matar quase todos nós e deixar os poucos sobreviventes com um padrão de vida comparável ao da Idade da Pedra. Mas em vários lugares do mundo, inclusive no Reino Unido, temos uma chance de sobreviver e, até mesmo, de viver bem. Para que isso seja possível teremos, neste momento, de deixar nossos botes salva-vidas em condições de enfrentar o mar. Mesmo que algum evento natural, como uma série de grandes erupções vulcânicas ou um decréscimo da radiação solar, nos dê uma trégua, ainda assim terá sido melhor gastar nosso dinheiro e nossos esforços tornando nossos países autossuficientes em alimentos e energia e, se quisermos nos tornar inteiramente urbanos, então, na criação de cidades nas quais tenhamos orgulho em viver.

* "Pantaneiro", apelido de Daniel Hooper, um dos mais conhecidos "ecoguerreiros" do Reino Unido. (N. do T.) "

"Gaia: Alerta Final"

Lançamento: Previsto para 12/01/2010
Autor: James Lovelock
Editora: Intrínseca
Páginas: 264
Quanto: R$ 29,90
Onde comprar: 0800-140090 ou na Livraria da Folha

 
 
 
 
 
Fonte: Blog de Luiz Felipe Muniz - http://bit.ly/77FtSc

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Opção pela Terra


Opção pela Terra: religiões fazem frente comum sobre o clima

Podem até se referir a Céus diferentes, mas as tradições religiosas do mundo sabem muito bem que a Terra é uma só. Assim, enquanto às vésperas da Cúpula de Copenhage sobre as mudanças climáticas, que ocorre entre os dias 07 a 18 de dezembro, as expectativas que se referem a um acordo sério e vinculante sobre o corte das emissões de gás carbônico continuam baixas, um motivo de esperança, ou de consolo, vem do crescente compromisso das religiões do mundo na luta em defesa do planeta.

A reportagem é de Claudia Fanti, publicada na revista Adista, 08-12-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Foi o que surgiu, por exemplo, de um encontro que, entre os dias 02 e 04 de novembro passado, reuniu no castelo de Windsor, na Inglaterra, os líderes das diversas denominações cristãs, do Islã, do judaísmo, do budismo, do hinduísmo, do taoísmo e de outras tradições religiosas, convidadas pelo príncipe Felipe de Edimburgo, presidente da Alliance of Religions and Conservation (Arc), e pelo secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon.

O encontro The Windsor Commitments produziu uma série de compromissos com os quais os representantes de todas as religiões assumem a tarefa de educar seus próprios fiéis a cuidar da natureza, protegendo-a pelo bem das futuras gerações: se é verdade que, indicou Olaf Kjorven, assistente do secretário-geral da ONU, 85% da população mundial professa uma religião, essa iniciativa poderia realmente se tornar a maior mobilização mundial em defesa do planeta.

Em campo cristão, particularmente, a Conferência das Igrejas Europeias (Kek) e o Conselho das Conferências Episcopais da Europa (CCEE) divulgaram, no último dia 06 de novembro, uma carta conjunta aos fiéis das Igrejas cristãs de toda a Europa, convidando-os a mudar seus estilos de vida. Entre as iniciativas previstas para a Cúpula sobre as mudanças climáticas, a mais singular é provavelmente a campanha dos "350 toques de sino", lançada pelas Igrejas dinamarquesas: em Copenhague, às 15 horas do dia 13 de dezembro, os sinos de todas as Igrejas darão 350 toques, aos quais as igrejas de todo o mundo ecoarão.

"Temos previsto – lê-se na carta assinada pelo secretário-geral da Kek, Colin Williams, e do CCEE, Pe. Duarte da Cunha – uma cadeia de toques de sinos e orações que se estenderão em um longo fuso horário a partir das Ilhas Fiji, no sul do Pacífico, que é a primeira região em que nasce o sol, onde os efeitos negativos das mudanças climáticas já se fazem sentir, até a Europa setentrional, passando por todo o mundo".

Das mudanças climáticas e das consequências devastadoras que elas já estão produzindo em algumas áreas do planeta, falou-se também em Chiang Mai, na Tailândia, onde, entre os dias 02 e 06 de novembro passado, o Conselho Ecumênico das Igrejas (Cec), a Conferência Cristã da Ásia e a Conferência das Igrejas do Pacífico convocaram uma Consulta Ecumênica sobre "Pobreza, bem-estar e ecologia na Ásia e no Pacífico".

Inserida no âmbito do processo do Cec, denominado Agape (Alternativa Global, Ambiente, Paz, Economia), a consulta foi concluída com a aprovação da "Declaração de Chiang Mai", que, destacando a estreita ligação existente entre crise ecológica e injustiça econômica, convida a uma "radical renovação espiritual" fundamentada no "imperativo bíblico da opção preferencial de Deus pelos menores (justiça) e pela sacralidade da criação (sustentabilidade)".

Fonte: IHU On-line
 
Caputrado no site:
http://transnet.ning.com/profiles/blog/show?id=2018942%3ABlogPost%3A40106&xgs=1&xg_source=msg_share_post

terça-feira, 7 de abril de 2009

Fim do mundo


Por mais que o mundo procure, parece que a solução mágica que todos esperavam para a tal crise financeira não surge de canto algum. Alguns jornalistas procuram garimpar no sub-texto da fala e promessas dos políticos alguma dica de prazo ou data para o momento da redenção.
Sairemos da crise em 2010? Ou 2012? Mas o calendário dos Maias acaba em 2012, segundo me contaram. Então, será o final do mundo? De qual dos mundos? Do mundo como um todo? Da esfera azul cheia de água, terra e gente ou do mundo celestial, macrocosmo povoado por energias que nem de longe conhecemos ainda? Ou será que é o fim do mundo em que vivemos até hoje... Este mundo onde o modelo econômico estava baseado em provocar endividamento para movimentar as massas? Ou será que o fim do mundo virá abalar as relações da forma como estavam estruturadas onde a hierarquia se fazia consoante o valor da conta bancária de cada membro participante da mesma?
De que final de mundo estão todos comentando?
Vamos por partes para ver se conseguimos chegar a algum entendimento.
Pensando sobre o planeta Terra, seus recursos, seus movimentos e equilíbrio, já chegamos ao fim do mundo há algum tempo. Tem ouvido falar sobre o degelo que vai lançando milhões de litros de água nos oceanos? Água esta que não vai sair voando pelo espaço sideral. Terá que se acomodar roubando espaço onde antes era solo, fértil ou não, área onde populações construíram suas casas e seus campos.
Tem lido ou visto o desmatamento das florestas, onde o destaque de campeã parece ficar com nossa Amazônia?
Bem, as raízes das árvores destas florestas servem, entre outras coisas, para frear a força das águas que vem do alto. As copas ajudam na formação do oxigênio, na moradia dos pássaros, na sustentação dos frutos que alimentam também estes animais e assim por diante.
Pensou no impacto que a devastação destas áreas causa na outra ponta do planeta? (Se puder assista o filme "Uma Verdade Inconveniente" de Al Gore, para aumentar sua consciência a respeito do tema).
Algumas imagens desta devastação não deixam dúvida que o fim do mundo já está lá.
Colchões, sofás, pneus, embalagens, descem os leitos dos rios jogados pelas nossas mãos, afundando numa certa altura, entupindo o curso das águas, deformando o desenho do sulco, atravancando a passagem da vida.
Em São Paulo, durante o Carnaval, um lago secou em uma hora revelando seu fundo enlameado, onde carrinhos de feira, sapatos, restos de tudo que se pode imaginar disputavam espaço com peixes agonizantes, cisnes atolados, lágrimas dos frequentadores aturdidos pelo acontecido.
Apocalipse aqui e agora, em plena capital de um estado!Frente a tudo isso, nosso mundo interno rui também. Vamos perdendo a fé, a vontade de mudar, a determinação de pôr um basta e reverter.
É preciso imediatamente iniciar uma marcha internacional de educação, de saneamento, de seriedade, responsabilidade, moral.Todos precisamos nos unir para limpar o Planeta. Começando pelo Planeta Mente.
É neste campo que tudo começa. Nossas ações são projeções do que temos em nosso hard disc pessoal e coletivo.Temos que parar de assistir e compartilhar tanto lixo.Temos que ter forças para sair do sofá e desligar a TV, mudar o canal, deixar de ver e ouvir tanta porcaria, tanta falta de cultura e desinformação. Temos que parar de dar audiência para o entorpecimento. A solução não vem da passividade, do conformismo, do "deixa que o Universo resolve". Sim, o Universo resolve, mas talvez isso possa custar a casa que construímos, os filhos que geramos, a vida que tanto queremos preservar.
Minha proposta é que a gente se una ao Universo e numa só linguagem e expressão possamos contribuir para que o início de um novo mundo nos traga orgulho de pertencermos à raça humana!

Izabel Telles é terapeuta holística e sensitiva formada pelo American Institute for Mental Imagery de Nova Iorque. Tem três livros publicados: “O outro lado da alma”, pela Axis Mundi, “Feche os olhos e veja” e “O livro das transformações” pela Editora Agora.

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