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sexta-feira, 5 de junho de 2009

A mentirosa liberdade

Por Lya Luft
"Liberdade não vem de correr atrás de ‘deveres’ impostos de fora, mas de construir a nossa existência"
Comecei a escrever um novo livro, sobre os mitos e mentiras que nossa cultura expõe em prateleiras enfeitadas, para que a gente enfie esse material na cabeça e, pior, na alma – como se fosse algodão-doce colorido. Com ele chegam os medos que tudo isso nos inspira: medo de não estar bem enquadrados, medo de não ser valorizados pela turma, medo de não ser suficientemente ricos, magros, musculosos, de não participar da melhor balada, do clube mais chique, de não ter feito a viagem certa nem possuir a tecnologia de ponta no celular. Medo de não ser livres.
Na verdade, estamos presos numa rede de falsas liberdades. Nunca se falou tanto em liberdade, e poucas vezes fomos tão pressionados por exigências absurdas, que constituem o que chamo a síndrome do "ter de". Fala-se em liberdade de escolha, mas somos conduzidos pela propaganda como gado para o matadouro, e as opções são tantas que não conseguimos escolher com calma. Medicados como somos (a pressão, a gordura, a fadiga, a insônia, o sono, a depressão e a euforia, a solidão e o medo tratados a remédio), cedo recorremos a expedientes, porque nossa libido, quimicamente cerceada, falha, e a alegria, de tanta tensão, nos escapa.
Preenchem-se fendas e falhas, manchas se removem, suspendem-se prazeres como sendo risco e extravagância, e nos ligamos no espelho: alguém por aí é mais eficiente, moderno, valorizado e belo que eu? Alguém mora num condomínio melhor que o meu? Em fileira ao longo das paredes temos de parecer todos iguais nessa dança de enganos. Sobretudo, sempre jovens. Nunca se pôde viver tanto tempo e com tão boa qualidade, mas no atual endeusamento da juventude, como se só jovens merecessem amor, vitórias e sucesso, carregamos mais um ônus pesadíssimo e cruel: temos de enganar o tempo, temos de aparentar 15 anos se temos 30, 40 anos se temos 60, e 50 se temos 80 anos de idade. A deusa juventude traz vantagens, mas eu não a quereria para sempre: talvez nela sejamos mais bonitos, quem sabe mais cheios de planos e possibilidades, mas sabemos discernir as coisas que divisamos, podemos optar com a mínima segurança, conseguimos olhar, analisar e curtir – ou nos falta o que vem depois: maturidade?
Parece que do começo ao fim passamos a vida sendo cobrados: O que você vai ser? O que vai estudar? Como? Fracassou em mais um vestibular? Já transou? Nunca transou? Treze anos e ainda não ficou? E ainda não bebeu? Nem experimentou uma maconhazinha sequer? E um Viagra para melhorar ainda mais? Ainda aguenta os chatos dos pais? Saiba que eles o controlam sob o pretexto de que o amam. Sai dessa! Já precisa trabalhar? Que chatice! E depois: Quarenta anos ganhando tão pouco e trabalhando tanto? E não tem aquele carro? Nunca esteve naquele resort?
Talvez a gente possa escapar dessas cobranças sendo mais natural, cumprindo deveres reais, curtindo a vida sem se atordoar. Nadar contra toda essa louca correnteza. Ter opiniões próprias, amadurecer, ajuda. Combater a ânsia por coisas que nem queremos, ignorar ofertas no fundo desinteressantes, como roupas ridículas e viagens sem graça, isso ajuda. Descobrir o que queremos e podemos é um bom aprendizado, mas leva algum tempo: não é preciso escalar o Himalaia social nem ser uma linda mulher nem um homem poderoso. É possível estar contente e ter projetos bem depois dos 40 anos, sem um iate, físico perfeito e grande fortuna. Sem cumprir tantas obrigações fúteis e inúteis, como nos ordenam os mitos e mentiras de uma sociedade insegura, desorientada, em crise. Liberdade não vem de correr atrás de "deveres" impostos de fora, mas de construir a nossa existência, para a qual, com todo esse esforço e desgaste, sobra tão pouco tempo. Não temos de correr angustiados atrás de modelos que nada têm a ver conosco, máscaras, ilusões e melancolia para aguentar a vida, sem liberdade para descobrir o que a gente gostaria mesmo de ter feito.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Mitos

A IDÉIA DE MITO ENTRE OS GREGOS

A figura trata-se do Apoteose de Homero – Jean Auguste Dominique Ingres (1897): O poeta a quem creditamos a autoria de “Ilíada” e “Odisséia” aparece como uma importante fonte para o estudo da história grega bem como para a divulgação de sua mitologia.

A palavra Mito é usada correntemente pelo homem contemporâneo. Geralmente designa uma narrativa tradicional conservada ao longo de gerações no interior de sua cultura com características fantásticas e retratando feitos inverossímeis. Quando hoje olhamos para as civilizações antigas é de costume apontar para o conjunto de suas crenças religiosas e denominarmos estas de “mitologia”, numa clara oposição com a religião cristã, tida como a “verdade” revelada em seu livro sagrado.
De fato, ao contrário das grandes religiões monoteístas, os gregos jamais tiveram um livro sagrado. A cosmogonia (teorias e narrativas que explicam a origem do universo) e os mitos desta civilização chegaram até nós por intermédio de textos literários, históricos e filosóficos. Neste sentido, o mito era, dentro desta cultura, uma linguagem usada para fornecer explicações acerca de um passado remoto sobre o qual é impossível estabelecer provas de sua autenticidade. Deste modo, o mito é muitas vezes encontrado na busca pelas origens seja do universo, dos deuses, da existência humana, das mulheres, das guerras ou das instituições políticas.
Mito e História
Uma vez que apontamos a importância do mito para a busca das origens entre os gregos, surge a necessidade de discutir sua relação com a história na maneira como era percebida por eles. Segundo sabemos durante os primeiros tempos da história grega a palavra mythos não se opunha à palavra logos, ambas designavam uma espécie de relato que não era diferenciado por seu conteúdo. Teria sido apenas no apogeu das cidades-estados que uma tentativa de separação teria sido feita.

Vernant nos mostra a preocupação de certos autores gregos do século V em exigir a administração da prova daquilo que seria tratado como verdade, ou no mínimo como confiável. Um grande exemplo desta preocupação está no historiador ateniense Tucídides, autor de “A Guerra do Peloponeso”, veja o seu comentário sobre o que se pensava sobre a Guerra de Tróia:

“(...). a expedição a Tróia haja sido maior do que qualquer das anteriores, apesar de menor que as do presente, (...) sendo natural supor que ele1, como poeta, tenha adornado e amplificado a expedição, é evidente que ela foi comparativamente pequena.”

“Segundo as minhas pesquisas, foram assim os tempos passados, embora seja difícil dar crédito a todos os testemunhos nesta matéria. Os homens, na verdade, aceitam uns dos outros relatos de segunda mão dos eventos passados, negligenciando pô-los à prova (...)”.
TUCÍDIDES. “História da Guerra do Peloponeso”. Brasília: Editora UNB. 2001. p. 7-8,13.

Podemos dizer, com o devido cuidado, que o mito está sendo percebido como algo afastado devendo ser objeto das fantasias dos poetas e dos logógrafos que visam os deleites e a aprovação dos ouvintes em certo momento, um passado remoto que não cabe ao historiador apresentar. A história deveria ser feita com regras e campos delimitados para que seu conteúdo pudesse ser útil para as gerações posteriores.

Fonte: www.portalimpacto.com.br

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