Mostrando postagens com marcador respeito. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador respeito. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 28 de maio de 2009

A crise que estamos esquecendo

Por Lya Luft
O tema do momento é a crise financeira global. Eu aqui falo de outra, que atinge a todos nós, mas especialmente jovens e crianças: a violência contra professores e a grosseria no convívio em casa. Duas pontas da nossa sociedade se unem para produzir isso: falta de autoridade amorosa dos pais (e professores) e péssimo exemplo de autoridades e figuras públicas.
Pais não sabem como resolver a má-criação dos pequenos e a insolência dos maiores. Crianças xingam os adultos, chutam a babá, a psicóloga, a pediatra. Adolescentes chegam de tromba junto do carro em que os aguardam pai ou mãe: entram sem olhar aquele que nem vira o rosto para eles. Cumprimento, sorriso, beijo? Nem pensar. Como será esse convívio na intimidade? Como funciona a comunicação entre pais e filhos? Nunca será idílica, isso é normal: crescer é também contestar. Mas poderíamos mudar as regras desse jogo: junto com afeto, deveriam vir regras, punições e recompensas. Que tal um pouco de carinho e respeito, de parte a parte? Para serem respeitados, pai e mãe devem impor alguma autoridade, fundamento da segurança dos filhos neste mundo difícil, marcando seus futuros relacionamentos pessoais e profissionais. Mal-amados, mal-ensinados, jovens abrem caminho às cotoveladas e aos pontapés.
Mal pagos e pouco valorizados, professores se encolhem, permitindo abusos inimagináveis alguns anos atrás. Uma adolescente empurra a professora, que bate a cabeça na parede e sofre uma concussão. Um menininho chama a professora de “vadia”, em aula. Professores levam xingações de pais e alunos, além de agressões físicas, cuspidas, facadas, empurrões.
Cresce o número de mestres que desistem da profissão: pudera. Em escolas e universidades, estudantes falam alto, usam o celular, entram e saem da sala enquanto alguém trabalha para o bem desses que o tratam como um funcionário subalterno. Onde aprenderam isso, se não, em primeira instância, em casa? O que aconteceu conosco? Que trogloditas somos – e produzimos –, que maltrapilhos emocionais estamos nos tornando, como preparamos a nova geração para a vida real, que não é benevolente nem dobra sua espinha aos nossos gritos? Obviamente não é assim por toda parte, nem os pais e mestres são responsáveis por tudo isso, mas é urgente parar para pensar.
Na outra ponta, temos o espetáculo deprimente dos escândalos públicos e da impunidade reinante. Um Senado que não tem lugar para seus milhares de funcionários usarem computador ao mesmo tempo, e nem sabia quantos diretores tinha: 180 ou trinta?
Autoridades que incitam ao preconceito racial e ao ódio de classes? Governos bons são caluniados, os piores são prestigiados. Não cedemos ao adversário nem o bem que ele faz: que importa o bem, se queremos o poder? Guerra civil nas ruas, escolas e hospitais precários, instituições moralmente falidas, famílias desorientadas, moradias sub-humanas, prisões onde não criaríamos porcos. Que profunda e triste impressão, sobretudo nos mais simples e desinformados e naqueles que ainda estão em formação. Jovens e adultos reagem a isso com agressividade ou alienação em todos os níveis de relacionamento. O tema “violência em casa e na escola” começa a ser tratado em congressos, seminários, entre psicólogos e educadores. Não vi ainda ações eficazes.
Sem moralismo (diferente de moralidade) nem discursos pomposos ou populistas, pode-se mudar uma situação que se alastra – ou vamos adoecer disso que nos enoja. Quase todos os países foram responsáveis pela gravíssima crise financeira mundial. Todos os indivíduos, não importa a conta bancária, profissão ou cor dos olhos, podem reverter esta outra crise: a do desrespeito geral que provoca violência física ou grosseria verbal em casa, no trabalho, no trânsito. Cada um de nós pode escolher entre ignorar e transformar. Melhor promover a sério e urgentemente uma nova moralidade, ou fingimos nada ver, e nos abancamos em definitivo na pocilga.

sábado, 15 de novembro de 2008

A tolerância e o respeito em Aristóteles

Por Ramiro Marques

Os conceitos de tolerância e de respeito necessitam de uma definição prévia para evitarmos cair num dos maiores males da vida intelectual contemporânea: o mau uso e o abuso dos conceitos, devido ao peso avassalador da actual onda de vulgaridade e superficialismo.

O Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (1) de José Pedro Machado dá-nos a seguinte definição de tolerância: "Do latim tolerantia, constância a suportar, resistência; paciência". E de uma pessoa tolerante, diz-se que é alguém que suporta e que resiste. O verbo tolerar vem do latim tolerare, que significa levar, suportar um peso, um fardo, aguentar, sofrer, persistir, suster, manter e resistir. Ser tolerante implica que se aceite que os outros pensem de maneira diferente de nós, sem por isso os odiarmos. Podemos ser tolerantes dentro do mesmo grupo, por exemplo, face aos pequenos defeitos e diferenças de carácter; ser tolerantes face aos que não pertencem ao nosso grupo; e tolerar as convicções e crenças dos outros que sejam diferentes das nossas.

O citado Dicionário dá-nos a seguinte definição de respeito: tomar em consideração e preocupar-se com. Vem do latim respectare, que significa olhar para trás e estar à espera. É uma atitude que consiste em não prejudicar alguém ou uma coisa. Por exemplo, respeitar o bem dos outros, a liberdade alheia, as tradições e as crenças. O contrário do respeito é o desprezo, a impertinência e a insolência.
Quer isto dizer que tolerar não é amar, nem tão pouco, apreciar. Tolera-se aquilo de que não se gosta, mas que se é obrigado a aceitar e, na melhor das hipóteses, a compreender, para evitar o conflito e a violência. Estamos perante um valor necessário e importante, mas muito insuficiente. Seria um valor suficiente, caso a nossa vida ética se limitasse ao cumprimento dos deveres, ao respeito pelos contratos e ao respeito pela regra de ouro, ou seja, da máxima "não faças aos outros o que não queres que te façam a ti". A tolerância é um valor estruturante do campo social da ética, ou seja do processo de ordenação e de hierarquização dos valores que norteiam o nosso relacionamento com os outros, com os grupos e com a sociedade. Não é, no entanto, um valor estruturante do campo pessoal da ética, ou seja, do processo de hierarquização dos valores que norteiam e ordenam as prioridades da nossa vida. Comparada com o respeito, a tolerância não passa de uma valor de resistência, o qual não pode deixar de ocupar uma posição subordinada ao respeito. Ou seja, embora o respeito implique um uso equilibrado, isto é sem excesso e sem defeito, da tolerância, com o respeito estamos perante um valor activo, profundamente abrangente, estruturante tanto do campo pessoal como do campo social da ética e mobilizador de uma ética máxima norteada pela finalidade culminante do amor.

A tolerância obriga a respeitar a regra de ouro: "não faças aos outros o que não queres que te façam a ti". Neste sentido, estamos perante uma ética do dever, deontológica portanto, que se limita a evitar fazer mal aos outros. Trata-se de uma polaridade meramente passiva.

O respeito, ao invés da tolerância, carrega uma polaridade activa, marcada pela preocupação com os outros e na qual vem impressa a indelével marca do amor. Neste caso, a máxima "abstém-te de fazer mal os outros" não é suficiente, porque ela é governada pela passividade. Ora, o respeito é governado pela actividade e é, por isso, que a máxima que melhor se lhe aplica é "ama o próximo como a ti mesmo". É, por isso, que o respeito constitui uma virtude estruturante de uma ética do amor e da benevolência, de uma ética marcada pela mensagem e pela palavra de Jesus Cristo. O respeito é, portanto, uma virtude intermédia na longa e difícil travessia em direcção ao cume da vida ética: o amor. Manuel Ferreira Patrício (2) identificou muito bem esta relação ao afirmar: "o primado cabe, efectivamente, à Pessoa. Esta postura personalista fundamental vem, evidentemente, do cristianismo. Eu afirmarei mesmo que vem directamente de Jesus, tal como o Evangelho no-lo dá. Lembremo-nos do mandamento que nele a certa altura nos é apresentado: ama o próximo como a ti mesmo. O próximo é o outro que está aí, logo à mão, logo a seguir. O próximo é o primeiro a amar, porque é o primeiro a aparecer. Não há que desviar o olhar, para o alto ou para o lado, procurando o outro longínquo; há que olhar directamente em frente para ver o outro aí, para ver o próximo, para ver e cuidar do próximo".
E em referência ao estatuto de dependência da tolerância em relação ao respeito, Manuel Ferreira Patrício (3) foi um dos autores que melhor soube explicar essa relação: "tolerar é bom, mas respeitar é melhor. Respeitar é bom, mas amar é melhor. Locke escreveu, no século XVII, a Carta sobre a Tolerância. Que bom seria se, neste final do século XX, estivesse ultrapassada a necessidade de tolerância e fosse a hora de escrever uma Carta sobre o Respeito".

Enquanto o respeito constitui uma virtude que nunca pode pecar por excesso, porque quanto mais respeito se tem mais se ama, a tolerância é o exemplo de uma virtude que se obriga ao meio termo porque, em excesso, resulta em indiferença, e, em falta, traz o sabor da intolerância.

Embora Aristóteles, na Ética a Nicómaco (4) não tenha incluído a tolerância no seu sistema de virtudes, e o facto de o não ter feito já quer dizer muito, podemos aplicar a este conceito a concepção aristotélica do meio termo, para verificarmos quão nefasta pode ser a tolerância em excesso, embora a sua falta provoque sempre mais danos do que o seu excesso. O que é uma virtude? "A virtude é a) uma estado que decide, b) que consiste num meio termo, c) que é um meio termo relativo a nós, d) o qual é definido por referência à razão, e) ou seja, à razão por referência à qual a pessoa inteligente a definiria. É um meio termo entre dois vícios, um que peca por excesso, outro que peca por deficiência" (5). Ou seja, ao contrário do respeito ou do amor - os quais nunca são excessivos - a tolerância deve reportar-se à sua condição intermédia e deve manifestar-se no momento certo, sobre as coisas certas, face às pessoas certas, em subordinação às rectas finalidades e da forma correcta. Não é fácil ser tolerante no momento certo, sobre as coisas certas, face às pessoas certas, em subordinação às rectas finalidades e da forma correcta. Talvez por isso, nas nossas sociedades liberais ocidentais, se opte com mais facilidade pelo excesso de tolerância, isto é, pela indiferença, com receio de se cair na intolerância, por má aplicação do princípio aristotélico do momento certo, sobre as coisas certas e em subordinação às rectas finalidades.

Importa referir que esta atitude é, apesar de tudo, um progresso em relação à onda de intolerância radical que devastou a Europa do século XVII e que motivou John Locke para a escrita da Carta sobre a Tolerância. Mas o facto de ser melhor não significa que seja boa.
A actual vaga de indiferença, isto é, de tolerância em excesso, é preocupante por duas razões: 1) conduz à aceitação e proliferação do que é intrinsecamente mau, ou seja, violador da dignidade da pessoa, e a "democratização" do que é ética e esteticamente mau traz consigo a generalização dos valores inferiores, os quais por terem mais força são mais facilmente captados pelas pessoas, favorecendo a sua preferência com a consequente preterência dos valores superiores; 2) revela uma certa incapacidade de amar as pessoas e as coisas verdadeiramente boas.

A gravidade da generalização da indiferença, qual doença social contemporânea típica das sociedades liberais ocidentais, resulta do facto de que à medida que vamos sendo cada vez mais indiferentes sobre cada vez mais coisas, aumenta a nossa insensibilidade ao amor e àquilo que vale a pena. A manter-se a tendência para a acentuação e generalização da indiferença isso quereria dizer que a nossa civilização tenderia para a aceitação da inversão da pirâmide dos valores, com a consequente decadência civilizacional e humana que daí necessariamente decorre. A História da Humanidade está repleta de exemplos de grandes civilizações que sucumbiram desse mal.

O discurso oficial nem sempre revela incorporar a noção de meio termo aplicada à virtude da tolerância. E se é certo que, com a tolerância, o excesso se encontra mais próximo da média e que a sua falta está mais distante, importa ter a noção da medida e da proporção para não cairmos em posições relativistas radicais impeditivas do estabelecimento de qualquer hierarquia de valores. E, no campo da ética, a ausência de uma hierarquia de valores contraria a própria existência de vida moral. É importante chamar a atenção para o facto de o excesso de tolerância resultar no vício da indiferença porque existe a tentação, nas sociedades liberais ocidentais, de encarar todos os valores, todas as culturas e todas as práticas culturais como se estivessem no mesmo nível de elevação, quando, na verdade, há algumas mais elevadas do que outras e há até casos de violação sistemática da dignidade humana que importa tentar compreender mas não respeitar, nem provavelmente tolerar (6).
Notas
1) Machado, J.P. (1977). Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Cinco Volumes. Lisboa: Livros Horizonte
2) Patrício, M. F. (1999). "A Escola e a Educação para a Cidadania", in Suplemento da AEPEC, Diário do Sul, 5 de Maio, p. 22
3) Idem, p. 22
4) Aristóteles (1985). Nicomachean Ethics (Tradução, introdução e notas de Terence Irwin). Indianapolis: Hackett
5) Idem, 1107 a, p. 44
6) Ver a este respeito o livro de Marques, R. (1998). Ensinar Valores: Teorias e Modelos. Porto: Porto Editora

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Sawabona Shikoba

:: Por Flávio Gikovate ::
Não é apenas o avanço tecnológico que marcou o inicio deste milênio. As relações afetivas também estão passando por profundas transformações e revolucionando o conceito de amor.
O que se busca hoje é uma relação compatível com os tempos modernos, na qual exista individualidade, respeito, alegria e prazer de estar junto, e não mais uma relação de dependência, em que um responsabiliza o outro pelo seu bem-estar.
A idéia de uma pessoa ser o remédio para nossa felicidade, que nasceu com o romantismo, está fadada a desaparecer neste início de século.
O amor romântico parte da premissa de que somos uma fração e precisamos encontrar nossa outra metade para nos sentirmos completos.
Muitas vezes ocorre até um processo de despersonalização que, historicamente, tem atingido mais a mulher. Ela abandona suas características, para se amalgamar ao projeto masculino.
A teoria da ligação entre opostos também vem dessa raiz: o outro tem de saber fazer o que eu não sei. Se sou manso, ele deve ser agressivo, e assim por diante.
Uma idéia prática de sobrevivência, e pouco romântica, por sinal. A palavra de ordem deste século é parceria. Estamos trocando o amor de necessidade, pelo amor de desejo. Eu gosto e desejo a companhia, mas não preciso, o que é muito diferente.
Com o avanço tecnológico, que exige mais tempo individual, as pessoas estão perdendo o pavor de ficar sozinhas, e aprendendo a conviver melhor consigo mesmas. Elas estão começando a perceber que se sentem fração, mas são inteiras. O outro, com o qual se estabelece um elo, também se sente uma fração. Não é príncipe ou salvador de coisa nenhuma. É apenas um companheiro de viagem.
O homem é um animal que vai mudando o mundo, e depois tem de ir se reciclando, para se adaptar ao mundo que fabricou. Estamos entrando na era da individualidade, o que não tem nada a ver com egoísmo. O egoísta não tem energia própria; ele se alimenta da energia que vem do outro, seja ela financeira ou moral.
A nova forma de amor, ou mais amor, tem nova feição e significado. Visa a aproximação de dois inteiros, e não a união de duas metades. E ela só é possível para aqueles que conseguem trabalhar sua individualidade. Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho, mais preparado estará para uma boa relação afetiva.
A solidão é boa, ficar sozinho não é vergonhoso. Ao contrário, dá dignidade à pessoa. As boas relações afetivas são ótimas, são muito parecidas com o ficar sozinho, ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem.
Relações de dominação e de concessões exageradas são coisas do século passado.
Cada cérebro é único.
Nosso modo de pensar e agir não serve de referência para avaliar ninguém.
Muitas vezes, pensamos que o outro é nossa alma gêmea e, na verdade, o que fizemos foi inventá-lo ao nosso gosto.
Todas as pessoas deveriam ficar sozinhas de vez em quando, para estabelecer um diálogo interno e descobrir sua força pessoal. Na solidão, o indivíduo entende que a harmonia e a paz de espírito só podem ser encontradas dentro dele mesmo, e não a partir do outro. Ao perceber isso, ele se torna menos crítico e mais compreensivo quanto às diferenças, respeitando a maneira de ser de cada um.
O amor de duas pessoas inteiras é bem mais saudável. Nesse tipo de ligação, há o aconchego, o prazer da companhia e o respeito pelo ser amado. Nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes você tem de aprender a perdoar a si mesmo...
Caso tenha ficado curioso(a) em saber o significado de SAWABONA, é um cumprimento usado no sul da África quer dizer "EU TE RESPEITO, EU TE VALORIZO, VOCÊ É IMPORTANTE PRA MIM". Em resposta as pessoas dizem SHIKOBA que é "ENTÃO EU EXISTO PRA VOCÊ".

Flávio Gikovate é médico psicoterapeuta, pioneiro da terapia sexual no Brasil. Conheça o Instituto de Psicoterapia de São Paulo. Confira o programa "No Divã do Gikovate" que vai ao ar todos os domingos das 21h às 22h na Rádio CBN (Brasil), respondendo questões formuladas pelo telefone e por e-mail gikovate@cbn.com.br Email: instituto@flaviogikovate.com.br
Texto original em:

Seguidores

Visualizações nos últimos 30 dias

Visitas (clicks) desde o início do blog (31/3/2007) e; usuários Online:

Visitas (diárias) por locais do planeta, desde 13/5/2007:

Estatísticas