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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O cume da tolerância

A tolerância é uma virtude rara e importante. Tem os seus limites, mas estes são geralmente estabelecidos demasiado rigidamente e nos pontos errados. Considere-se a decisão de um juiz madrileno que indeferiu um requerimento, apresentado pela polícia da cidade, no sentido de ordenar às prostitutas da Casa de Campo que andassem mais vestidas. Ali, as prostitutas andavam insuficientemente vestidas com cintos de ligas, corpetes e minissaias reduzidíssimas, o que o chefe da polícia considerava indecente; mas o juiz decidiu que, uma vez que se tratava do uniforme da profissão, elas tinham o direito de andar assim vestidas.

Foi um verdadeiro Daniel a proferir o juízo. A decisão é uma imagem da própria tolerância, e teria sido aplaudida pelo maior profeta da História desta virtude: John Stuart Mill. Na sua obra fulcral Sobre a Liberdade, escreveu: “A humanidade terá muito a ganhar deixando que cada um viva como lhe parece bem, e não forçando cada um a viver como parece bem aos restantes”.

Esta observação tem várias implicações importantes. Define uma pessoa intolerante como alguém que deseja que os outros vivam como ela pensa que eles deveriam viver e que procura impor-lhes as suas próprias práticas e convicções. Diz que a comunidade humana se beneficia ao permitir o florescimento de vários estilos de vida, pois estes representam experiências com as quais muito se poderá aprender sobre como lidar com a condição humana. E reitera a premissa de que ninguém tem o direito de dizer a outro como ser ou agir, desde que esse ser e esse agir não prejudiquem terceiros. Estes são os princípios do liberalismo, palavra maldita entre os que pensam que, se não se mantiver um controle rígido sobre os pensamentos e os instintos humanos, a Terra abrir-se-á e dela brotarão demônios.

Contudo, a tolerância é não apenas o centro como também o paradoxo do liberalismo. Isto é assim porque o liberalismo impõe a tolerância de perspectivas opostas e permite-lhes expressarem-se, deixando que a democracia das ideias decida qual deve prevalecer. O resultado é frequentemente a morte da própria tolerância, pois aqueles que se orientam por princípios rígidos e perspectivas intransigentes nas questões políticas, morais e religiosas silenciam sempre — se lhes for dada a menor oportunidade — os liberais, uma vez que o liberalismo, devido à sua própria natureza, ameaça a hegemonia que desejam impor.

Assim, à questão “Deverá o tolerante tolerar o intolerante?”, deverá ser dado em resposta um retumbante “Não”. A tolerância tem de se proteger a si própria. Pode fazê-lo facilmente, dizendo que todos podem expor um ponto de vista mas ninguém pode forçar os outros a aceitá-lo. A única coerção deve ser a da argumentação; a única obrigação, o raciocínio honesto. Helen Keller disse que “o resultado mais elevado da educação é a tolerância”, e estava certa: pode confiar-se em que, na maioria dos casos, o raciocínio imparcial de um espírito informado favorecerá o bem e a verdade.

A intolerância é um fenômeno psicologicamente interessante porque é sintomático de insegurança e medo. Os fanáticos que, se pudessem, nos obrigariam a agir em conformidade com o seu modo de pensar, poderiam pretender estar a tentar salvar a nossa alma, mesmo contra nossa vontade, mas, na verdade, fá-lo-iam porque se sentiam ameaçados. Os talibãs do Afeganistão obrigam as mulheres a usar véu, a ficar em casa e a desistir da sua educação e do seu emprego porque temem a sua liberdade. Os velhos tornam-se intolerantes para com os jovens quando ficam alarmados com a indiferença votada pela juventude ao que eles há muito conhecem e estimam. O medo gera a intolerância e a intolerância gera o medo: o ciclo é vicioso.

Mas a tolerância e o seu oposto não são apenas formas, nem sequer sempre, de aceitação e rejeição, respectivamente. É possível tolerar uma crença ou uma prática sem a aceitar. O que subjaz à tolerância é o reconhecimento de que o mundo é suficientemente vasto para permitir a coexistência de alternativas, e se nos sentimos ofendidos pelo que os outros fazem é porque já nos deixamos envolver demasiado. Toleramos melhor os outros quando sabemos como tolerar-nos a nós mesmos; aprender a fazê-lo constitui um objetivo da vida civilizada.

autor: A. C. Grayling
tradução: Maria de Fátima St. Aubyn
original: O Significado das Coisas. Gradiva: 2003.
fonte: crítica

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

4. Desafio diário

Na hora da raiva, das bravas, qual é o primeiro xingamento que lhe vem à cabeça? Em geral, nesses momentos o ser humano não é criativo e invoca diferenças de comportamento sexual, de origem familiar ou de grupo étnico. Pois o treinamento da aceitação das diferenças deve começar exatamente por aí. De todas as virtudes do campo da civilidade, a TOLERÂNCIA é a que mais exige autoaprendizagem. Quem acha que nunca, jamais conseguirá cumprimentar um torcedor do time adversário pode começar com coisas mais simples, como não ter espasmos visíveis diante do abuso do gerúndio ou prometer a si mesmo ao sair de casa que pelo menos naquele dia não vai comparar nenhuma mulher à fêmea de uma famosa ave natalina. "Tolerância tem a ver com comportamentos diferentes daqueles que valorizamos e pelos quais temos repugnância. Exercê-la é importante não só para a convivência social como para a sanidade mental", diz Bolívar Lamounier.

O fato
Fabio Motta/AE

Não é qualquer um que consegue fazer o país inteiro se solidarizar com um integrante do governo. Mas também não é qualquer um que usa o palavreado do governador de Mato Grosso do Sul, ANDRÉ PUCCINELLI, em relação ao ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc: "Ele é v... e fuma maconha. Se viesse aqui, eu ia correr atrás dele e estuprar em praça pública". Para piorar, veio depois o típico pedido falso de desculpas: "Se alguém se sentiu ofendido...". Desafio aos tolerantes urbanos: não achar que todo produtor rural é um brutamontes destruidor da natureza.

A análise

"O governador foi desmascarado em seus preconceitos mais bestiais. Em um momento em que se luta tanto contra discriminações, sejam elas de gênero, sejam sociais, o governador mostrou que não tem equilíbrio mental nem competência profissional para estar no cargo que ocupa", fulmina o cientista político Gaudêncio Torquato.

Original no site:
http://veja.abril.com.br/041109/pequeno-manual-civilidade-p-108.shtml

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

A arte de conviver com pessoas insuportáveis no trabalho


Texto enviado por Denise Tellier Sartori
Por: Marcela Tavares
Não importa qual o ramo de atividade que exercemos, mais cedo ou mais tarde temos que conviver com pessoas com um temperamento difícil. O que fazer? Entrevistamos Bruna Gasgon, consultora em comunicação e recursos humanos, que criou apelidos para os tipinhos insólitos que aparecem nos escritórios e ensinar de uma maneira divertida como neutralizar as más influências.
Os insuportáveis podem ser de dois tipos. O primeiro deles é a pessoa é insuportável e pode até precisar de terapia porque não sabe que é assim. No segundo, a pessoa está insuportável porque teve uma semana ruim, está se sentindo mal. "Pelo menos um dia na vida a gente é insuportável", disse Bruna."
A primeira providência é perceber que você também é uma pessoa insuportável. Eu mesma sou a insuportável número um!", brincou a consultora. Ela frisa que todo o exercício de lidar com pessoas com quem você não se dá bem tem como primeiro momento o autoconhecimento. "Pode ter certeza, em algum momento de sua vida você foi (ou é) insuportável para alguém. Então você tem que refletir sobre as suas atitudes para que o clima do escritório não piore".
Num segundo momento, tente entender a chatice de seu colega descobrindo o que o leva a agir assim. "Se você sabe que alguém dormiu mal, está com uma mãe doente e essa pessoa te dá uma patada, você acaba relevando. É claro que isso não pode acontecer sempre, mas se você está ciente de que a irritação não é com você, a sua dor de cabeça ou sua raiva evaporam", aconselha Bruna.
Finalmente, tente sinalizar que esse tipo de atitude incomoda e muito. "Quando você percebe que está sendo chato e por isso as pessoas se afastam de você, não há quem não tente melhorar", disse a consultora.
Conheça os principais tipinhos difíceis de escritório e aprenda a lidar com eles
Brucutu - Perfil
É aquele que sente prazer especial em humilhar as pessoas, principalmente os subordinados. Ele grita, dá respostas grosseiras e parece que nem percebe o quanto magoa os que estão ao seu redor. Geralmente, ou você engole, ou vira brucutu também. Nenhuma das duas alternativas é interessante.
Por que ele é assim?
Um brucutu pode ter acordado com o pé esquerdo, estar de TPM, "a Tendência Para Matar", disse Bruna. Geralmente tratam mal os subordinados porque acham que têm poder suficiente para escapar de protestos.
O que fazer?
Quando alguém estiver explodindo com você, deixe que a pessoa fale tudo o que quer. "Espere acabar a corda", explica Bruna. Fique parado na mesma posição. "É estranho, mas em todas as pesquisas que fiz, quando alguém se move numa situação dessas, a pessoa que está explodindo fica ainda mais brava". Finalmente, depois que o brucutu se calar, diga em um tom de voz calmo e baixo que você é um profissional, que merece ser respeitado e de gostaria muito que isso não acontecesse mais. "Pode acreditar, o brucutu se desmonta na hora porque ele percebe que reagiu de forma errada".
Sabe-tudo - Perfil
Sabe aquele chato que sempre te corta no meio de uma reunião porque ele tem certeza de que sabe muito mais sobre o assunto? Também é aquele que fica o tempo todo contando vantagem, falando da viagem sensacional que fez, do melhor restaurante da cidade que só ele conhece, do carrão que comprou.
Por que ele é assim?
Pessoas que tentam mostrar o tempo todo o como são melhores têm um profundo complexo de inferioridade, são muito inseguras, diz Bruna.
O que fazer?
Vire o melhor ouvinte do mundo. Não tente dizer que o seu é melhor ou que você não acha a nova camisa dele tão fantástica assim. Quanto mais você der corda, mais ele vai querer se exibir.
Kid Tocaia - Perfil
O mais nocivo de todos. É aquele colega que faz de tudo para que você fique mal diante dos olhos do seu chefe e que comemora secretamente cada falha que ele vê em você. Fofoqueiro, costuma dar umas alfinetadas em você no meio de uma rodinha e depois solta um "eu tava brincando, amiga!".
Por que ele é assim?
O Kid Tocaia quer alguma coisa que você tem. Pode ser seu cargo, seu cabelo, seu namorado. São patologicamente invejosos.
O que fazer?
É preciso estar atento para que as mentiras espalhadas pelo Kid Tocaia não acabem com a sua imagem na empresa. "O mais complicado é segurar a vontade de sair no braço com o invejoso, mas não adianta revidar. Se você estiver explodindo, vá ao banheiro mais próximo e dê uns gritos de caratê para aliviar a tensão", aconselha Bruna. Não adianta ficar remoendo o ódio, afinal de contas você não é culpado pela inveja do Kid. "Dedique-se ao seu lazer. Pegue um dia para dar um passeio sozinho. Não adianta ficar acumulando a raiva porque isso faz mal à saúde e atrapalha ainda mais o seu trabalho", disse a consultora.
Frente fria - Perfil
Uma nuvem preta paira apenas sobre a cabeça dele. Tudo está ruim e a pessoa se sente tão mal com tudo e todos que contamina o escritório.
Por que ele é assim?
Os frente fria são pessoas muito melancólicas, que optaram por olhar sempre para o lado negativo das coisas. Sabe aquela história de ver que o copo está meio vazio?
O que fazer?
Não tente argumentar ou brincar de "Jogo do Contente". Eles vão inverter tudo que você disser e achar ainda mais "provas" de que o mundo vai acabar antes das seis da tarde. Principalmente, NUNCA mude seus planos por causa de uma opinião do frente fria.
Disque problema - Perfil
Primo do frente fria, é viciado em reclamar. Se trocam os computadores, reclama que não vai saber mexer nos programas novos. Se pintam as paredes, reclama que o ambiente ficou muito claro.
Por que ele é assim?
Para essas pessoas, reclamar é um vício. É impressionante como eles conseguem estragar a melhor das intenções.
O que fazer?
Chame a pessoa para conversar e fale francamente o que você acha das atitudes dela. Não tente atacar, a conversa tem que ser bastante amigável. Você pode até começar brincando, chamando a pessoa de reclamona. "Na hora o Disque Problema pode fugir da conversa, mas com certeza no dia seguinte ele vai falar com você e tentar reclamar menos", disse Bruna.
Agradecimentos
Bruna Gasgon
Consultora em comunicação e RH
(11) 5052-9124

sábado, 6 de junho de 2009

A borboleta e o cavalinho



Esta é a história de duas criaturas de Deus que viviam numa floresta distante há muitos anos atrás. Eram elas, um cavalinho e uma borboleta.
Na verdade, não tinham praticamente nada em comum, mas em certo momento de suas vidas se aproximaram e criaram um elo. A borboleta era livre, voava por todos os cantos da floresta enfeitando a paisagem. Já o cavalinho, tinha grandes limitações, não era bicho solto que pudesse viver entregue à natureza.
Nele, certa vez, foi colocado um cabresto por alguém que visitou a floresta e a partir daí sua liberdade foi cerceada. A borboleta, no entanto, embora tivesse a amizade de muitos outros animais e a liberdade de voar por toda a floresta. Gostava de fazer companhia ao cavalinho, agradava-lhe ficar ao seu lado e não era por pena, era por companheirismo, afeição, dedicação e carinho. Assim, todos os dias, ia visitá-lo e lá chegando levava sempre um coice, depois então um sorriso.
Entre um e outro ela optava por esquecer o coice e guardar dentro do seu coração o sorriso. Sempre o cavalinho insistia com a borboleta que lhe ajudasse a carregar o seu cabresto por causa do seu enorme peso.
Ela, muito carinhosamente, tentava de todas as formas ajudá-lo, mas isso nem sempre era possível por ser ela uma criaturinha tão frágil. Os anos se passaram e numa manhã de verão a borboleta não apareceu para visitar o seu companheiro.
Ele nem percebeu, preocupado que ainda estava em se livrar do cabresto.E vieram outras manhãs e mais outras e milhares de outras, até que chegou o inverno e o cavalinho sentiu-se só e finalmente percebeu a ausência da borboleta.
Resolveu então sair do seu canto e procurar por ela. Caminhou por toda a floresta a observar cada cantinho onde ela poderia ter se escondido e não a encontrou. Cansado se deitou embaixo de uma árvore.
Logo em seguida um elefante se aproximou e lhe perguntou quem era ele e o que fazia por ali.
-Eu sou o cavalinho do cabresto e estou a procura de uma borboleta que sumiu.
- Ah, é você então o famoso cavalinho?
- Famoso, eu?
- É que eu tive uma grande amiga que me disse que também era sua amiga e falava muito bem de você. Mas afinal, qual borboleta que você está procurando?
- É uma borboleta colorida, alegre, que sobrevoa a floresta todos os dias visitando todos os animais amigos.
- Nossa, mas era justamente dela que eu estava falando. Não ficou sabendo? Ela morreu e já faz muito tempo.
- Morreu? Como foi isso?
- Dizem que ela conhecia, aqui na floresta, um cavalinho, assim como você e todos os dias quando ela ia visitá-lo, ele dava-lhe um coice. Ela sempre voltava com marcas horríveis e todos perguntavam a ela quem havia feito aquilo, mas ela jamais contou a ninguém. Insistíamos muito para saber quem era o autor daquela malvadeza e ela respondia que só ia falar das visitas boas que tinha feito naquela manhã e era aí que ela falava com a maior alegria de você.
Nesse momento o cavalinho já estava derramando muitas lágrimas de tristeza e de arrependimento.
- Não chore meu amigo, sei o quanto você deve estar sofrendo.
Ela sempre me disse que você era um grande amigo, mas entenda, foram tantos os coices que ela recebeu desse outro cavalinho, que ela acabou perdendo as asinhas, depois ficou muito doente, triste e sucumbiu e morreu.
- E ela não mandou me chamar nos seus últimos dias?
- Não, todos os animais da floresta quiseram lhe avisar, mas ela disse o seguinte:
"Não perturbem meu amigo com coisas pequenas, ele tem um grande problema que eu nunca pude ajudá-lo a resolver. Carrega no seu dorso um cabresto, então será cansativo demais pra ele vir até aqui."

Você pode até aceitar os coices que lhe derem quando eles vierem acompanhados de beijos, mas em algum momento da sua vida, as feridas que eles vão lhe causar, não serão mais possíveis de serem cicatrizadas.
Quanto ao cabresto que você tiver que carregar durante a sua existência, não culpe ninguém por isso, afinal muitas vezes, foi você mesmo que o colocou no seu dorso, OU PERMITIU QUE FOSSE COLOCADO.
“Espero que você possa aceitar as coisas como elas são...
Sem pensar que tudo conspira contra você...
Porque parte de nós é entendimento... a outra parte é aprendizado..."
(Desconheço a autoria)

sábado, 15 de novembro de 2008

A tolerância e o respeito em Aristóteles

Por Ramiro Marques

Os conceitos de tolerância e de respeito necessitam de uma definição prévia para evitarmos cair num dos maiores males da vida intelectual contemporânea: o mau uso e o abuso dos conceitos, devido ao peso avassalador da actual onda de vulgaridade e superficialismo.

O Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (1) de José Pedro Machado dá-nos a seguinte definição de tolerância: "Do latim tolerantia, constância a suportar, resistência; paciência". E de uma pessoa tolerante, diz-se que é alguém que suporta e que resiste. O verbo tolerar vem do latim tolerare, que significa levar, suportar um peso, um fardo, aguentar, sofrer, persistir, suster, manter e resistir. Ser tolerante implica que se aceite que os outros pensem de maneira diferente de nós, sem por isso os odiarmos. Podemos ser tolerantes dentro do mesmo grupo, por exemplo, face aos pequenos defeitos e diferenças de carácter; ser tolerantes face aos que não pertencem ao nosso grupo; e tolerar as convicções e crenças dos outros que sejam diferentes das nossas.

O citado Dicionário dá-nos a seguinte definição de respeito: tomar em consideração e preocupar-se com. Vem do latim respectare, que significa olhar para trás e estar à espera. É uma atitude que consiste em não prejudicar alguém ou uma coisa. Por exemplo, respeitar o bem dos outros, a liberdade alheia, as tradições e as crenças. O contrário do respeito é o desprezo, a impertinência e a insolência.
Quer isto dizer que tolerar não é amar, nem tão pouco, apreciar. Tolera-se aquilo de que não se gosta, mas que se é obrigado a aceitar e, na melhor das hipóteses, a compreender, para evitar o conflito e a violência. Estamos perante um valor necessário e importante, mas muito insuficiente. Seria um valor suficiente, caso a nossa vida ética se limitasse ao cumprimento dos deveres, ao respeito pelos contratos e ao respeito pela regra de ouro, ou seja, da máxima "não faças aos outros o que não queres que te façam a ti". A tolerância é um valor estruturante do campo social da ética, ou seja do processo de ordenação e de hierarquização dos valores que norteiam o nosso relacionamento com os outros, com os grupos e com a sociedade. Não é, no entanto, um valor estruturante do campo pessoal da ética, ou seja, do processo de hierarquização dos valores que norteiam e ordenam as prioridades da nossa vida. Comparada com o respeito, a tolerância não passa de uma valor de resistência, o qual não pode deixar de ocupar uma posição subordinada ao respeito. Ou seja, embora o respeito implique um uso equilibrado, isto é sem excesso e sem defeito, da tolerância, com o respeito estamos perante um valor activo, profundamente abrangente, estruturante tanto do campo pessoal como do campo social da ética e mobilizador de uma ética máxima norteada pela finalidade culminante do amor.

A tolerância obriga a respeitar a regra de ouro: "não faças aos outros o que não queres que te façam a ti". Neste sentido, estamos perante uma ética do dever, deontológica portanto, que se limita a evitar fazer mal aos outros. Trata-se de uma polaridade meramente passiva.

O respeito, ao invés da tolerância, carrega uma polaridade activa, marcada pela preocupação com os outros e na qual vem impressa a indelével marca do amor. Neste caso, a máxima "abstém-te de fazer mal os outros" não é suficiente, porque ela é governada pela passividade. Ora, o respeito é governado pela actividade e é, por isso, que a máxima que melhor se lhe aplica é "ama o próximo como a ti mesmo". É, por isso, que o respeito constitui uma virtude estruturante de uma ética do amor e da benevolência, de uma ética marcada pela mensagem e pela palavra de Jesus Cristo. O respeito é, portanto, uma virtude intermédia na longa e difícil travessia em direcção ao cume da vida ética: o amor. Manuel Ferreira Patrício (2) identificou muito bem esta relação ao afirmar: "o primado cabe, efectivamente, à Pessoa. Esta postura personalista fundamental vem, evidentemente, do cristianismo. Eu afirmarei mesmo que vem directamente de Jesus, tal como o Evangelho no-lo dá. Lembremo-nos do mandamento que nele a certa altura nos é apresentado: ama o próximo como a ti mesmo. O próximo é o outro que está aí, logo à mão, logo a seguir. O próximo é o primeiro a amar, porque é o primeiro a aparecer. Não há que desviar o olhar, para o alto ou para o lado, procurando o outro longínquo; há que olhar directamente em frente para ver o outro aí, para ver o próximo, para ver e cuidar do próximo".
E em referência ao estatuto de dependência da tolerância em relação ao respeito, Manuel Ferreira Patrício (3) foi um dos autores que melhor soube explicar essa relação: "tolerar é bom, mas respeitar é melhor. Respeitar é bom, mas amar é melhor. Locke escreveu, no século XVII, a Carta sobre a Tolerância. Que bom seria se, neste final do século XX, estivesse ultrapassada a necessidade de tolerância e fosse a hora de escrever uma Carta sobre o Respeito".

Enquanto o respeito constitui uma virtude que nunca pode pecar por excesso, porque quanto mais respeito se tem mais se ama, a tolerância é o exemplo de uma virtude que se obriga ao meio termo porque, em excesso, resulta em indiferença, e, em falta, traz o sabor da intolerância.

Embora Aristóteles, na Ética a Nicómaco (4) não tenha incluído a tolerância no seu sistema de virtudes, e o facto de o não ter feito já quer dizer muito, podemos aplicar a este conceito a concepção aristotélica do meio termo, para verificarmos quão nefasta pode ser a tolerância em excesso, embora a sua falta provoque sempre mais danos do que o seu excesso. O que é uma virtude? "A virtude é a) uma estado que decide, b) que consiste num meio termo, c) que é um meio termo relativo a nós, d) o qual é definido por referência à razão, e) ou seja, à razão por referência à qual a pessoa inteligente a definiria. É um meio termo entre dois vícios, um que peca por excesso, outro que peca por deficiência" (5). Ou seja, ao contrário do respeito ou do amor - os quais nunca são excessivos - a tolerância deve reportar-se à sua condição intermédia e deve manifestar-se no momento certo, sobre as coisas certas, face às pessoas certas, em subordinação às rectas finalidades e da forma correcta. Não é fácil ser tolerante no momento certo, sobre as coisas certas, face às pessoas certas, em subordinação às rectas finalidades e da forma correcta. Talvez por isso, nas nossas sociedades liberais ocidentais, se opte com mais facilidade pelo excesso de tolerância, isto é, pela indiferença, com receio de se cair na intolerância, por má aplicação do princípio aristotélico do momento certo, sobre as coisas certas e em subordinação às rectas finalidades.

Importa referir que esta atitude é, apesar de tudo, um progresso em relação à onda de intolerância radical que devastou a Europa do século XVII e que motivou John Locke para a escrita da Carta sobre a Tolerância. Mas o facto de ser melhor não significa que seja boa.
A actual vaga de indiferença, isto é, de tolerância em excesso, é preocupante por duas razões: 1) conduz à aceitação e proliferação do que é intrinsecamente mau, ou seja, violador da dignidade da pessoa, e a "democratização" do que é ética e esteticamente mau traz consigo a generalização dos valores inferiores, os quais por terem mais força são mais facilmente captados pelas pessoas, favorecendo a sua preferência com a consequente preterência dos valores superiores; 2) revela uma certa incapacidade de amar as pessoas e as coisas verdadeiramente boas.

A gravidade da generalização da indiferença, qual doença social contemporânea típica das sociedades liberais ocidentais, resulta do facto de que à medida que vamos sendo cada vez mais indiferentes sobre cada vez mais coisas, aumenta a nossa insensibilidade ao amor e àquilo que vale a pena. A manter-se a tendência para a acentuação e generalização da indiferença isso quereria dizer que a nossa civilização tenderia para a aceitação da inversão da pirâmide dos valores, com a consequente decadência civilizacional e humana que daí necessariamente decorre. A História da Humanidade está repleta de exemplos de grandes civilizações que sucumbiram desse mal.

O discurso oficial nem sempre revela incorporar a noção de meio termo aplicada à virtude da tolerância. E se é certo que, com a tolerância, o excesso se encontra mais próximo da média e que a sua falta está mais distante, importa ter a noção da medida e da proporção para não cairmos em posições relativistas radicais impeditivas do estabelecimento de qualquer hierarquia de valores. E, no campo da ética, a ausência de uma hierarquia de valores contraria a própria existência de vida moral. É importante chamar a atenção para o facto de o excesso de tolerância resultar no vício da indiferença porque existe a tentação, nas sociedades liberais ocidentais, de encarar todos os valores, todas as culturas e todas as práticas culturais como se estivessem no mesmo nível de elevação, quando, na verdade, há algumas mais elevadas do que outras e há até casos de violação sistemática da dignidade humana que importa tentar compreender mas não respeitar, nem provavelmente tolerar (6).
Notas
1) Machado, J.P. (1977). Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Cinco Volumes. Lisboa: Livros Horizonte
2) Patrício, M. F. (1999). "A Escola e a Educação para a Cidadania", in Suplemento da AEPEC, Diário do Sul, 5 de Maio, p. 22
3) Idem, p. 22
4) Aristóteles (1985). Nicomachean Ethics (Tradução, introdução e notas de Terence Irwin). Indianapolis: Hackett
5) Idem, 1107 a, p. 44
6) Ver a este respeito o livro de Marques, R. (1998). Ensinar Valores: Teorias e Modelos. Porto: Porto Editora

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