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sábado, 12 de setembro de 2009

Vergonha na cara

Oi!
Tava relendo o post anterior, em que foi publicada a minha crônica de quarta-feira em Zero Hora, e me dei conta de como é delicado julgar os outros - e no entanto é o que mais fazemos, o tempo todo. Quando eu escrevo (ou qualquer pessoa escreve) que o consumismo anda desmedido, está passando a informação de que é uma pessoa diferente, que o seu próprio consumismo é controlado. Cada vez que criticamos alguém, estamos nos auto-elogiando. Isso é uma sinuca... Mas uma sinuca inevitável, e isso me veio à cabeça porque estava lendo sobre dois acontecimentos recentes e pensei: e se fosse comigo? É com essa pergunta que a gente testa se estamos sendo realmente honestos na nossa crítica ou se estamos apenas jogando pra torcida.
Um desses acontecimentos foi a eleição do ex-presidente e atual senador Fernando Collor como o mais novo imortal da Academia Alagoana de Letras. Como se sabe, todo pretendente se candidata à vaga, e trabalha por ela, faz campanha. De campanha o Collor entende, mas de literatura? Recebeu 22 votos a favor e oito em branco - nenhum contra. Eu considero isso uma piada, mas o que mais me surpreende é a cara-de-pau. Suponhamos que não tenha sido ideia dele, e sim de um baba-ovo que tenha sugerido: "Fernando, candidate-se a uma vaga na Academia de Letras, seus artigos e discursos são literatura da maior qualidade, e será mais um momento de holofote em sua carreira, você ficará ainda mais prestigiado aqui na nossa terra, vamos lá, honre seu sobrenome". Collor vem de uma linhagem de políticos reconhecidos, mas Academia de Letras é local de escritor, até onde sei - o que não impede que Sarney e Marco Maciel sejam imortais da ABL. Mas voltando à cena imaginária: como um homem ou mulher sensata responderia à sugestão? "Meu caro, obrigada pela gentileza da lembrança, mas meu negócio é política, nunca publiquei um livro, nunca colaborei para a vida intelectual do país, vamos deixar isso para poetas e romancistas, eu já tenho visibilidade suficiente no que faço". E encerrava a questão. Mas isso é o que eu faria, e provavelmente o que você faria. Collor nem pestanejou.
Outro assunto que me incomodou: a confirmação de que Nelsinho Piquet realmente provocou um acidente de propósito no GP de Cingapura de 2008, uma palhaçada planejada pela Renault para facilitar a vitória de Fernando Alonso. Foi todo mundo pego com as calças na mão: a Renault por desrespeitar os princípios do esporte, o Piquet por não ter a grandeza de se negar ao papelão (ok, ele disse amém pros chefes para garantir a renovação do seu contrato, mas onde fica aquela palavrinha chamada honra, caráter?) e Fernando Alonso por ter aceitado levantar o troféu (no caso de saber antecipadamente da farsa - não sei se sabia). Posso estar parecendo ingênua, já que estamos falando de uma escuderia com muita bala na agulha, ou seja, assunto de gente grande. Mas honradez e caráter não são negociáveis, ao menos não pra mim, e acredito que pra você também não. Até mesmo as facilitações de ultrapassagem entre parceiros de escuderia, razoavelmente explicáveis com o argumento de "trabalho de equipe", me irritam, acho que ferem o espírito esportivo, imagine então provocar um acidente na pista como estratégia. É de uma cafajestada ímpar, sem falar no risco que algumas pessoas correram de sairem feridas, o próprio Nelsinho, inclusive.
Vergonha na cara. Como a gente vê pouco.
Beijo!
Martha Medeiros
Original no blog dela em:

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

O Caráter Ético do Agir Humano


Por Robson Stigar
No entender do pensador brasileiro (Catão) a sociedade contemporânea sofre de uma negação, e o contraponto bem como, a contestação assume tal magnitude que questionam os fundamentos da ética tradicional. Assim, "para que as pessoas e as comunidades humanas se autoposicionem livremente na vida é preciso tornar os educadores capazes de viver com plena consciência da relatividade de todas as normas e caminhos que lhe são propostos e viver em vista de um bem" (CATÃO, 1997: 111). Com isso, objetivo da ética é a realização das pessoas, na comunhão com o transcendente que dá sentido para a vida.
De acordo com Catão o desafio é responder a pergunta que surge na contemporaneidade, ou seja, como podemos construir essa ética?
A grande dificuldade do educador "é de situar numa perspectiva que lhe permite desenvolver um raciocínio propriamente ético bem fundamentado e por sua vez fundante de uma moral autenticamente humana, sem se impor à consciência, violar a liberdade nem frustrar as aspirações dos educandos" (CATÃO, 1997: 111).
Desse modo, a ética não pode ser regulada por uma lei restritiva e na informalidade. A aporia se coloca por causa da contradição entre educadores (transmissão de valores) e educandos (liberdade e direitos). Assim, existe um impasse porque o "educador toma consciência de que é responsável pela transmissão de valores ao mesmo tempo, pela educação da liberdade dos educandos, que questionam tais valores" (CATÃO, 1997: 112). Com isso a única maneira de pensar essa oposição entre objetividade e subjetividade é reconstruir o conceito de ética.
Para reconstruir a ética demandaríamos muito tempo ao caminho que teríamos de percorrer. Por isso, a maneira que encontra o autor é pensar a ética com fundamento em Tomas de Aquino. No entender de Catão "trata-se da maneira da maneira de entender a liberdade e a consciência e do lugar de destaque que se confere a convivência" (CATÃO, 1997: 112).
A preocupação do autor passa ser agora de três níveis, definir o que é liberdade, consciência e convivência. O autor inicia distinguindo três diferentes tipos de liberdade no âmbito da realidade.

1ºa liberdade.

Esta consiste precisamente na autodeterminação do sujeito em face do bem. Escolhas incluindo a possibilidade de escolher mal, também chamada de livre arbítrio. E por último a liberdade da escolha no âmbito físico ou histórico, chamada de liberdade de coação.
O autor distingue esses três tipos para garantir precisão na referencia a liberdade.
Assim, no âmbito jurídico a liberdade repousa sobre o cumprimento ou na transgressão da lei.
No âmbito da política "os liberais defendem a liberdade de escolha como liberdade primeira, ao passo que os socialistas os acusam de pregar uma liberdade abstrata, pois só é realmente livre, liberado, quem tem os meios de fazer o que quer, sem coação de espécie alguma, não só psicológica, mas real, efetiva, econômica" (CATÃO, 1997: 113). Configura-se assim, a opressão do pobre porque não pode fazer o que sonha, por isso sofre do desemprego, falta de moradia, comida e outras necessidades.
Portanto, a ética é "a qualidade do ato verdadeiramente humana, pois o agir só é humano e sujeito a um juízo de ordem ética quando brota do interior do sujeito e é por ele subjetivamente querido" (CATÃO, 1997: 113). Com efeito, liberdade é entendida como autodeterminação, ou seja, a possibilidade de escolha e a separação de condicionamentos.
2º A consciência

A consciência permite pensar a possibilidade de escolha livre e reta acerca do agir no âmbito prático.
Para Catão existe uma distinção entre o conceito expresso no catecismo, "a consciência é um julgamento da razão" (CATECISMO, nº 1778) e o conceito de consciência entendido na Ética que "na realidade não é um julgamento, mas um juízo da razão -jugament de la raison- como está no original francês, por intermédio do qual o ser humano percebe o que é justo e reto" (CATÃO, 1997: 113). Portanto, a consciência não julga, indica. A sua função não é condenar ou aprovar, mas mostrar o que é justo e reto para seguir o bem. Assim, é necessário que haja uma conformidade entre o agir e a indicação da consciência.
Isso significa que a qualidade Ética do ato humano, "longe de se medir diretamente por um preceito, divino, natural, legal ou humano depende da conformidade ou não com a consciência: o ato humano é bom ou mau na medida em que a autodecisão do sujeito se conforma ou não com o que a consciência diz ser justo e reto" (CATÃO, 1997: 114).
3º - A consciência

O autor está preocupado com a possibilidade do critério ético permanecer restrito a subjetividade, implicando na supressão da universalidade ética. Por isso, procura formas de pensar o critério ético de modo objetivo sem descartar a subjetividade.
1º a atenção recíproca: que implica em respeito, serviço e amor ao outro, do próximo, como na linguagem cristã;
2º uma razão antropológica: considerando que a pessoa nasce indeterminada e precisa construir seu percurso durante o decurso da vida.
Assim, a ética na visão cristã não pode estar atrelada a obrigações e sansões, mas fundada basicamente em dois princípios de ação: amara a Deus e ao próximo.
Segundo Catão, educar eticamente não é discutir somente a obrigatoriedade ou torcer o pepino enquanto é maleável, ou seja, podar e direcionar o individuo. No entender deste "educar eticamente é trabalhar para melhorar a qualidade do inter-relacionamento entre as pessoas, e contribuir para uma convivência entre os humanos caracterizada pela justiça e pela solidariedade, pela atenção, respeito e serviço uns aos outros e um dos outros" (CATÃO, 1997: 115). Com efeito, a pedagogia usada na ética procura conferir à ação humana uma base educativa, que garanta o exercício da liberdade na convivência, através do uso adequado da consciência.
Desta maneira, "a tarefa do educador ético é dupla: despertar e sustentar a autodeterminação dos educadores" (CATÃO, 1997: 115) buscando a ação ética em comunhão com os demais e sua realização.
Contudo, surge uma verdadeira contradição no exercício do juízo ético que é a oposição entre consciência e lei. Pois a consciência garante em última instÂncia a liberdade de ação, mas conferir pode supremo a ela seria, da parte do educador, esquecer da necessidade de formação sem perder de vista a razão e a lei (ethos e nomos)[1].
No entender do autor o problema central da formação da consciência é levar o educando ao que é realmente bom. Para tanto precisamos levar em consideração que o agir humano "é radicalmente fruto do espírito com que empreende agir e do sentido que tem tal ação no contexto do inter-relacionamento pessoal em que se vive" (CATÃO, 1997: 118). Isto é, no agir humano o espírito cumpre papel da atuação em busca do bem e do amor.
[1]Ethos e nomos.
Original em:

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