Mostrando postagens com marcador desastres_ambientais. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador desastres_ambientais. Mostrar todas as postagens

sábado, 23 de outubro de 2010

As cidades têm solução?


Cientista diz que precisamos conhecer a natureza e respeitar as culturas locais para conseguirmos lidar com os problemas ambientais.
Furacão Catarina destruiu casas em SC
Por Danuza Facco Mattiazzi - jornalista participante do Curso de Jornalismo Ambiental NEJ-RS.
Estamos distantes da natureza e cegos, confiamos excessivamente na ciência e acreditamos que a tecnologia pode resolver todos os problemas que as cidades enfrentam hoje. Esse é o diagnóstico do professor Rualdo Menegat, doutor em Ecologia de Paisagem, sobre a sociedade atual.
Ele propõe algumas mudanças que podem soar estranhas, como a instalação de chiqueiros nas cidades e a manutenção dos carroceiros. Ele defende a integração com o ambiente natural e a manutenção das diferentes culturas, no caminho inverso da homogeneização e urbanização em um “xadrez perfeito”.
A temática ambiental ficou popular recentemente no Hemisfério Sul.
Na década de 90, países do Hemisfério Norte já sofriam com catástrofes ambientais agravadas pelo aquecimento global já anunciado pelos cientistas.
Já no Hemisfério Sul, Menegat diz que a atenção às mudanças climáticas começou no início do século 21, especialmente com o ciclone Catarina, que atingiu os estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, em março de 2004. O fenômeno vitimou e feriu dezenas de habitantes, destruiu casas e causou prejuízos à agricultura.
– Foi o mais importante evento climático da década, pois de fato mostrou  algo em ação no clima da Terra para o Hemisfério Sul – esclarece o doutor.
O aquecimento global contribui com o agravamento das catástrofes ambientais.  Conforme explica Menegat, o aumento da concentração de CO2 na atmosfera, devido à poluição, combinado com a diminuição da umidade do ar, faz com que as precipitações sejam mais concentradas e intensas em determinadas áreas menos frequentes em outras, aumentando nestas a ocorrência de incêndios.
Ao citar eventos ambientais do último ano – como fortes nevascas na Inglaterra, deslizamentos de terra em Santa Catarina e inundações pelo Brasil – o pesquisador defende que a população esquece muito rápido dos desastres. “Os humanos não estão sabendo ter a leitura do mundo em que vivem. Não conseguem mais interpretar a paisagem”, diz ele, ao mostrar uma foto em que mãe e filho caminham indiferentes aos destroços de uma cidade destruída por enchentes.
Outra imagem que ilustra a falta de compreensão da sociedade sobre os desastres ambientais é a foto de dezenas de pessoas sendo alcançadas pelo tsunami que atingiu a ilha de Sumatra, na Indonésia, vitimando 230 mil pessoas em dezembro de 2004. Segundo Menegat, muitas pessoas assistiram à invasão da onda gigante até o momento em que foram engolidas pela força da água. “Tiravam fotos, gravavam. Achavam que não seriam atingidas? As pessoas não têm consciência da força da natureza. O tsunami de Sumatra é o signo da cegueira da atual civilização perante a natureza”.

Natureza e cultura
Menegat discute a relação entre a natureza e a cultura dos povos, ou seja, de que forma a humanidade se insere no meio natural. Com a construção das cidades, foram criados grandes centros urbanos que limitam a visão de mundo de seus habitantes. “Quem mora aqui dentro [em referência a uma grande cidade], está enclausurado, encapsulado por esses centros urbanos. A cidade não oferece ao cidadão informações fundamentais para que ele olhe a paisagem e a leia”.
As metrópoles já evoluíram para mega-cidades, como São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre. E, para que consigamos viver sem o caos do ritmo acelerado e da poluição nesses espaços, o doutor diz que é necessário tornarmos as cidades mais sustentáveis e buscarmos o contato com o meio natural e o respeito aos limites que a natureza impõe.
Para exemplificar a ideia, Menegat cita o problema enfrentado pela cidade de Arequipa, no Peru. Com 850 mil habitantes, a cidade se expandiu até a saia de um vulcão. O prefeito pediu a ajuda de Menegat para solucionar o problema. “A ciência pode desenvolver uma enorme rolha e tapar o vulcão, que tal?”, brinca o cientista. A colocação irônica de Menegat ilustra a maneira com que os seres humanos confiam na ciência. Ocupam territórios com alto risco de acidentes ambientais sem se preocupar com os riscos e, assim, se prevenir.
Mas, depois, querem que a tecnologia solucione a questão. “Nosso problema não é o vulcão, e sim, a cidade. É o peso urbano sobre nós, é a cidade que nos pesa, não a natureza”. Por isso, a resposta do cientista ao governante peruano foi a sugestão de reunir as comunidades, esclarecer sobre os riscos de se morar próximo a um vulcão que pode entrar em erupção a qualquer momento e desenvolver estratégias segundo a cultura local e consenso da população.

Presos no xadrez urbano
Um dos principais problemas das megalópoles, segundo Menegat, é a geometria urbana.  A imposição do desenho de um “xadrez perfeito” para as cidades compromete a integração com o ambiente natural. O modelo predominante desde a era das colonizações pôs fim ao ideal de cidade ecológica – posto em prática na cidade Ur, da antiga Mesopotâmia. Ur foi construída segundo o curso do rio Eufrates, respeitando o caminho da água e tentando somente proteger os habitantes das enchentes.
Com o estabelecimento do modelo de tabuleiro, não se pensou mais na natureza. “Segundo o ‘xadrez perfeito’, o rio não pertence à geometria da cidade. Ele só atrapalha. Aí todo mundo larga o lixo ali, já que aquilo não pertence ao tabuleiro urbano perfeito. O mesmo acontece com algum morro que impede a linha reta das ruas. O que fazer? Destruir o morro. Nada pode atrapalhar a geometria urbana”, aponta Menegat.
Ele defende ações locais para inclusão de atitudes ecológicas e ampliação da visão de mundo das pessoas. A proposta é unir cientistas, estudantes, políticos e habitantes das comunidades para discutir soluções inteligentes e que respeitem a cultura de cada grupo.

Chiqueiros urbanos
Uma das alternativas para uma cidade sustentável é a criação de animais no meio urbano. Menegat defende que chiqueiros e aviários podem contribuir com o metabolismo das cidades – ao consumirem os restos de comida da população – e gerar renda a famílias que sofrem com o desemprego.
Outra proposta de Menegat é a manutenção das favelas. “Temos que criar condições de vida nesses locais e não removê-los”, defende ele, ao dizer que os moradores de áreas pobres construíram uma sociedade organizada segundo seus padrões culturais, só precisam de saneamento, segurança e boas escolas para que vivam com qualidade.
“Remover um grupo de catadores de materiais recicláveis, por exemplo, e colocá-los em apartamentos é um grande erro. Eles precisam de casas, um galpão onde possam guardar os materiais que recolhem e um estábulo para cuidar dos cavalos que puxam suas carroças”. A retirada dos carroceiros das ruas de Porto Alegre – ação que deve ser concluída pela prefeitura até 2011 – é condenada pelo cientista. “Essas pessoas, excluídas do mercado de trabalho, criaram uma profissão por elas mesmas. E, agora, vamos tirar isso delas?”.
Uma das alternativas consiste em dar melhores condições de trabalho para esses profissionais, como carroças elétricas já em funcionamento em Curitiba, no Paraná. Menegat defende que os catadores precisam de uma política pública que respeite o ritmo de trabalho que construíram, sem retirar deles o que têm de mais genuíno, uma profissão que criaram segundo a sua cultura e suas necessidades. O ideal brasileiro de cidades melhores, segundo Menegat, tem que respeitar a cultura local. “Não somos a Europa e nunca seremos. Temos que lidar com os nossos problemas”.
 ________________________________________
Realizado nos dias 20 e 21 de agosto, em Porto Alegre, o curso de Jornalismo Ambiental promovido pelo Núcleo dos Ecojornalistas, NEJ-RS, teve como palestrantes os professores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
Fernando Antunes (Mestre em Comunicação Social) e Rualdo Menegat (Doutor em Ciências),  que abordou o tema Cegueira e civilização, onde está a natureza?, além do jornalista Hernán Sorhuet, colunista do jornal uruguaio El Pais, que palestrou sobre o tema Desafios da cobertura jornalística dos temas ambientais.

Fonte: EcoAgência de Notícias


sábado, 11 de setembro de 2010

Queimadas: Ainda fazemos desertos

"O que causa maior espanto é a perpetuação de um método tão rústico e agressivo após mais de um século de “Fazedores de desertos”. Em meio à campanha eleitoral, cabe ainda mais uma pergunta: quais as propostas dos principais candidatos à Presidência da República para acabar com o descaso histórico do Brasil com seus recursos naturais?"

Artigo de Elenita Malta Pereira, publicado no Estado de São Paulo
Historicamente, o Brasil queima. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), no monitoramento de queimadas disponível em seu website, registra cerca de quarenta mil focos de fogo em 2010, durante
outro quente agosto de nossa história.

O fogo como método de “preparo” para a terra remonta há milhares de anos, praticado pelos indígenas que habitavam o território das Américas. Como muitas tribos viviam em meio às florestas, a prática da agricultura já causava a perda da biodiversidade, através das queimadas.
É claro que a dimensão das áreas incineradas era ínfima, comparado ao que o colonizador branco devastou depois.
Assim como a prática do fogo, os discursos preocupados com as consequências para o homem e o meio também são antigos. Euclides da Cunha, há 108 anos já tratava, em seus escritos, o problema das queimadas. O assunto aparece na primeira parte de Os Sertões – A Terra – subcapítulo “Como se faz um deserto”, e no artigo “Fazedores de Desertos”, publicado em O Estado de S. Paulo em 22 de outubro de 1901.

No clássico Os Sertões, depois de apresentar dados geográficos, geológicos e climáticos dos sertões do norte, o autor discorre sobre a ação de “um agente geológico notável – o homem” – sobre o meio, que, “de fato, não raro reage brutalmente sobre a terra e entre nós, assumiu, em todo o decorrer da história, o papel de um terrível fazedor de desertos”. Além do motivo agrícola, o hábito utilizado pelos indígenas para subsistência passou a ser praticado em larga escala pelos portugueses para desbravar o território, dilacerando a floresta “de chamas, para desafogar os horizontes e destacar bem perceptíveis, tufando nos descampados limpos, as montanhas que o norteavam, balizando a marcha das bandeiras”.

Euclides chega a citar decretos de 1713, por meio dos quais o governo colonial tentava “por paradeiro” nas queimadas. E alerta: “Imaginem-se os resultados de semelhante processo aplicado, sem variantes, no decorrer dos séculos”.

No artigo “Fazedores de desertos”, um trecho poderia ter sido escritos nesta semana, em virtude do aumento dos focos de incêndio que chegaram a provocar uma nuvem de fumaça cobrindo grande parte do Brasil.
O volume de biomassa queimando gera tamanha emissão de carbono na atmosfera que “a temperatura altera-se, agravada nesse expandir-se de áreas de insolação cada vez maiores pelo poder absorvente dos nossos terrenos desnudados, cuja ardência se transmite por contato aos ares, e determina dois resultados inevitáveis: a pressão que diminui tendendo para um mínimo capaz de perturbar o curso regular dos ventos, desorientando-os pelos quatro rumos do quadrante, e a umidade relativa que decresce, tornando cada vez mais problemáticas as precipitações aquosas”.

Ainda que Euclides se referisse ao sertão nordestino, suas considerações cabem aos outros biomas que ainda sofrem com as queimadas no Brasil. Para o autor, o deserto iniciado por razões naturais era intensificado pelo fogo. Entretanto, não se trata de criar desertos como o Saara, ou o Atacama, por exemplo, e sim o alerta de que o homem pode contribuir na transformação de um bioma de floresta em uma espécie de savana. Pesquisas recentes têm demonstrado que Euclides tinha razão.
Geógrafos têm constatado que os fenômenos de desertificação e de savanização são acelerados quando o homem interfere. 

O que mais assombra na leitura desses textos de Euclides da Cunha não é tanto a preocupação ambiental, pois, como havia recebido uma sólida formação, Euclides dominava conceitos da geologia, geografia, biologia, e ecologia, correntes desde o século XIX nos meios científicos. Ideias conservacionistas também já eram manifestadas há tempos, por José Bonifácio (que também se manifestou contra as queimadas), entre outros autores.

O que causa maior espanto é a perpetuação de um método tão rústico e agressivo após mais de um século de “Fazedores de desertos”. Como isso ainda é possível no país onde se encontram as maiores reservas florestais do planeta? É queimando o Cerrado e a Amazônia que o Brasil pretende cumprir as metas apresentadas em Copenhagen, ano passado, de  reduzir as emissões de gases do efeito estufa entre 36,1% a 38,9%, até 2020? Em meio à campanha eleitoral, cabe ainda mais uma pergunta: quais as propostas dos principais candidatos à Presidência da República para acabar com o descaso histórico do Brasil com seus recursos naturais?

As queimadas são praticadas impunemente onde não há presença suficiente de agentes para coibi-las. A Brigada Prevfogo, apesar de sua atuação heróica, não tem como dar conta de milhares de focos espalhados em áreas imensas das regiões Norte e Centro-Oeste. Diante de uma cortina de fumaça, que atinge cidades como Porto Alegre (onde provocou chuva ácida), há milhares de quilômetros de distância, assistimos atônitos a emissão de toneladas de gás carbônico na atmosfera, além da perda irremediável de biodiversidade.

Para Euclides, o homem não conseguia conviver com a natureza: extinguia-a. Parece que continuamos com grande dificuldade de convivência, e com enorme relutância em entender o quanto é necessário esse convívio. Depois de tanto tempo, esses textos de Euclides ainda podem propiciar a reflexão sobre a relação do homem com a natureza, o que, hoje, mais do que nunca, é fundamental.

Elenita Malta Pereira é historiadora e mestranda em História na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
Artigo originalmente publicado em O Estado de S.Paulo.
EcoDebate, 27/08/2010

Seguidores

Visualizações nos últimos 30 dias

Visitas (clicks) desde o início do blog (31/3/2007) e; usuários Online:

Visitas (diárias) por locais do planeta, desde 13/5/2007:

Estatísticas