domingo, 28 de fevereiro de 2010

Os neocaretas


Geysi tem 20 anos, carnes fartas e - suprema arrogância - gosta de si a ponto de usar um vestido vermelho e curto, deixando de fora um bom naco das coxas generosas. E vai vestida assim para a escola, justificando-se:
- Depois da aula vou numa festa.

Convenhamos: não é de bom tom ir à aula de minissaia, qualquer que seja a cor, certo? Pode provocar tumulto. E foi exatamente o que aconteceu neste ano de 2009 do novo milênio. Além de usar a minissaia, Geysi subiu a rampa que dá acesso às salas de aula... E alguém sentiu-se incomodado com o vestido e as coxas da moça e falou para outro alguém, que também se incomodou. Outros alguéns compartilharam da incomodação e começaram a xingar a moça, juntando mais gente e encurralando-a numa sala de aula da universidade Uniban, em São Bernardo, SP.

Foi necessário que a polícia fosse chamada para Geysi ser retirada do local em segurança, vestindo um jaleco branco sobre o vestido escandaloso.

Pelas cenas, calculei que umas 300 pessoas estiveram envolvidas na confusão. Tenho certeza de que pelo menos 270 estavam no tumulto pelo tumulto. Queriam fazer algazarra, tirar fotos e participar da bagunça. Mas alguns estavam realmente irados e dispostos a dar um corretivo na moça que ousou usar uma minissaia na escola.

O ser humano em grupo é um perigo. Perde o senso do ridículo, o medo, a capacidade de usar a lógica e é capaz de cometer as maiores barbaridades. É assim com as torcidas organizadas, nas brigas na balada, e com aqueles grupos de jovens que destroem os orelhões.

Em grupo, somos irracionais.

E ali, dentro de uma universidade, local que tradicionalmente chama a si a vanguarda pelas "lutas democráticas", assistimos a uma demonstração de intolerância, brutalidade e estupidez como há muito não se via. Provavelmente a maioria dos "defensores da moral e bons costumes" eram garotos e garotas que não veem mal em dançar aqueles funks com letras pornográficas, navegar por sites de sacanagem, dar audiência para a mulher melancia - que mostra o útero em rede nacional de televisão - ou consumir algumas substâncias pra "ficar mais alegre". Essa gente tão liberal ficou zangada com o vestido da Geysi. E decidiu partir para a porrada.

E o Brasil conheceu a versão atualizada dos cara-pintadas: os neocaretas.

Parece que apenas um professor defendeu a garota. Ninguém mais. Até dá para entender: o medo de apanhar pode ter espantado os defensores habituais... Mas e depois? Cadê as declarações estridentes daquelas ONGs que defendem a mulher? Cadê as ameaças daqueles grupos que se mobilizam pelos direitos humanos? Cadê a pastoral do bairro? Ninguém se manifestou. Geysi está só.

Geysi Arruda é a Geni do novo milênio. Mas, diferente da Geni da música de Chico Buarque, não sofre preconceito por ser prostituta. O mal de Geysi é ser loira. Ter olhos claros. Não ser miserável. Não ser negra. Não ser homossexual. Não ser bolsista pelo sistema de cotas.

O pecado de Geysi é não defender alguma bandeira "dos oprimidos".

No Afeganistão, ela teria sido apedrejada.

Ainda chegaremos lá.

Luciano Pires
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sábado, 27 de fevereiro de 2010

Pequeno manual da civilidade

As pequenas vantagens de virtudes grandemente subestimadas, analisadas por quem entende tudo do assunto, desde sempre.
Por Juliana Linhares
Montagem sobre foto divulgação

NÃO LIBERTE O MONSTRO QUE EXISTE EM VOCÊ

A vida em estado natural: "Solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta"

Engana-se quem pensa que civilidade é uma matéria relacionada a senhores pomposos e mesas cobertas de talheres esquisitos. Mas é verdade que o tema foi tratado por cavalheiros com quilometragem de pelo menos alguns séculos. Tudo o que disseram, porém, sobre a necessidade de convenções sociais para promover a boa convivência e administrar conflitos permanece de urgente contemporaneidade. Quando Schopenhauer, o gigante da filosofia alemã do século XIX, dizia que as pessoas deveriam seguir o comportamento do porco-espinho - se fica muito perto de seus pares, morre espetado; se fica muito longe, morre de frio -, não estava pensando no uso do telefone celular em público, mas bem que poderia. Thomas Hobbes, um dos gênios do pensamento político produzidos pela Inglaterra, constatou no século XVII que em estado natural, sem as construções sociais, "a vida do homem é solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta". Em outras palavras, um congestionamento em São Paulo em dia de chuva. Por isso, emergem leis necessárias, entre as quais que "os homens cumpram os pactos que celebrarem" (e não parem em fila dupla, por exemplo) e "não declarem ódio ou desprezo pelo outro por atos, palavras, atitude ou gesto" (e não façam perfis falsos na internet). Especialistas em ética, comportamento e controle dos monstros interiores fazem análises e sugestões nesse pequeno manual das virtudes da civilidade. Todo mundo pode aprender - e até lucrar com elas. "O stress é causado em grande parte por relacionamentos humanos mal resolvidos. Se melhorarmos a capacidade de nos relacionar, teremos menos brigas, menos stress e, consequentemente, menos processos e pessoas doentes", diz o italiano Piero Massimo Forni. Professor da Universidade Johns Hopkins e um dos maiores especialistas mundiais no estudo da civilidade, ele até calculou o custo da falta dela nos Estados Unidos: 30 bilhões de dólares por ano. Já pensaram se ele conhecesse o Congresso brasileiro?

As 10 publicações, cada uma num dia, anteriores a este post, correspondem ao presente manual, publicado pela revista Veja.
Original em:
http://veja.abril.com.br/041109/pequeno-manual-civilidade-p-108.shtml

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

1. Questão de honra

Houve um tempo em que tudo girava em torno dela: ter honra era ser um legítimo membro da tribo; não ter, preferível morrer. O conceito de honra, na sua interpretação mais tradicional, nasceu na Grécia antiga, foi remodelado em Roma e reemergiu na Idade Média. "Na época feudal, a honra era uma qualidade atribuída aos nobres, essencialmente guerreiros, cuja função social era proteger o rei, as crianças e as mulheres", diz Roberto Romano, professor de ética e filosofia da Unicamp. Hoje, a HONRADEZ pode ser mais relacionada à fidelidade aos próprios princípios ou ao próprio eu. Ou, no popular, ter vergonha na cara. É por isso que o tribunal da própria consciência continua a pesar mesmo quando se alega que "todo mundo faz", a começar dos "caras lá de cima", então "que mal tem" em levar a avozinha para passar na frente na fila de comprar ingresso, desrespeitar a precedência na hora de pegar uma vaga no estacionamento do shopping ou deixar uma toalha guardando lugar o dia inteirinho na espreguiçadeira da piscina disputada? O mal, evidentemente, está em desprezar a própria dignidade.

O fato
Nelson Almeida/AFP

É difícil imaginar exemplo mais completo de desonra que o do piloto NELSON PIQUET JÚNIOR. Ameaçado de demissão da escuderia Renault, ele confessou bem a posteriori ter concordado em fraudar o Grande Prêmio de Fórmula 1 de Singapura no ano passado. A certa altura da corrida, para facilitar a situação de seu companheiro de equipe, Fernando Alonso, Nelsinho recebeu a ordem de bater seu carro contra um muro. Obedeceu. Os privilégios de nascimento - bonito, rico, sobrenome famoso - agravam o tamanho da indignidade cometida contra si mesmo e do mau exemplo dado à sociedade.

A análise

"Ser honrado, hoje em dia, significa ser portador de exemplaridade para uma comunidade. E, para ser exemplo, o sujeito precisa ser probo em todos os aspectos da vida dele. Não basta, por exemplo, ser só bom médico ou bom piloto. É preciso ser bom pai, bom marido, um sujeito respeitoso e incorruptível", diz o cientista político Bolívar Lamounier.

Original em:

http://veja.abril.com.br/041109/pequeno-manual-civilidade-p-108.shtml

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

MIkikinho!

Se foi o Mikikinho!
Se foi....

2. Os intransigíveis

O conceito de INTEGRIDADE tem raízes na Grécia antiga, onde o sujeito íntegro era chamado aplos, uma peça só - projetando com esse nome a imagem de inteireza, de alguém que não tem duas palavras, duas lealdades. "Não é íntegro aquele que transige em valores inegáveis de uma sociedade", diz Bolívar Lamounier. Integridade é não abusar do poder, não desmerecer os outros, não tripudiar. E também outras interdições mais prosaicas: não se esgueirar melifluamente na fila de embarque, não "deixar o carro aqui só um minutinho", não dizer que vai atender "só esta chamada" no meio da refeição compartilhada e não começar nenhuma piada dizendo "esta é politicamente incorreta" caso você não trabalhe no Casseta & Planeta.

O fato
Roberto Monaldo/La Presse/Zuma

Ele já deixou a primeira-ministra alemã Angela Merkel esperando enquanto falava ao celular, já passou cantada numa médica entre ruínas de um terremoto e já fez piadinha racista com Barack Obama (é "bonito e bronzeado", disse). Mas será que o primeiro-ministro italiano SILVIO BERLUSCONI também tem o direito de fazer o que quiser quando está na sua casa - como promover orgias e contratar prostitutas?

A análise

"O conceito de integridade não pode ser aplicado a Berlusconi porque ele não tem essa inteireza. Teria de apresentar um comportamento probo, imaculado, uma vez que deve espelhar o que há de melhor na sociedade. Mas o que prevalece nele é outra faceta, a de quem se movimenta com escracho, sem respeitar a liturgia que o poder exige", diz Bolívar Lamounier.

Original em:
http://veja.abril.com.br/041109/pequeno-manual-civilidade-p-108.shtml

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

3. Obrigado, por favor

Um dos maiores especialistas do mundo no estudo da civilidade, Piero Massimo Forni acredita que as BOAS MANEIRAS não apenas não são coisa de um passado mítico de galanteria, mas ficaram mais importantes ainda na vida contemporânea. "Até umas três gerações atrás, boa parte da sustentação emocional e material das pessoas vinha dos familiares. Hoje convivemos muito mais com amigos e desconhecidos, e, nesse caso, ser afável é uma vantagem", explica. "A cortesia melhora a autoestima da pessoa a quem ela foi dirigida e, dessa maneira, torna as relações sociais menos tensas", concorda Renato Janine Ribeiro, professor de ética e filosofia política da USP. A regra geral, e não escrita, de decência estabelece que todos devem ser tratados com os requisitos básicos de cortesia - "bom dia", "por favor", "obrigado" e "até logo" -, os quais devem ser redobrados em relação a quem ocupa posições menos destacadas. Ignorar a existência de quem presta serviços como trazer o seu carro ou limpar a sua sala é prova de insensibilidade. Ou boçalidade.
Rosana Braga escreveu uma obra
maravilhosa sobre o comportamento:
O PODER DA GENTILEZA
Editora Minuano

O fato

A atriz MEGAN FOX, 23 anos, é infernalmente bonita - e mal-educada. O pessoal técnico que trabalhou com ela em Transformers deu exemplos: ela chega ao estúdio sem cumprimentar ninguém, reclama de tudo, tem ataques de estrelismo e não dirige a palavra aos que considera hierarquicamente inferiores. Mesmo no caso dos superiores, como o diretor Michael Bay, já disse "É um Hitler" - ofensa hedionda, embora o pessoal ache que ela não sabe exatamente quem foi Hitler.

A análise

"A agressão verbal penetra no fundo da alma de quem é atingido por ela. É tão, mas tão grave que tem até punição prevista em lei. Um dos exercícios que proponho para identificarmos se tal ato é uma incivilidade é ver se é possível todo mundo praticá-lo ao mesmo tempo sem que o mundo vire uma barbárie, com todos matando a todos", diz Roberto Romano.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

4. Desafio diário

Na hora da raiva, das bravas, qual é o primeiro xingamento que lhe vem à cabeça? Em geral, nesses momentos o ser humano não é criativo e invoca diferenças de comportamento sexual, de origem familiar ou de grupo étnico. Pois o treinamento da aceitação das diferenças deve começar exatamente por aí. De todas as virtudes do campo da civilidade, a TOLERÂNCIA é a que mais exige autoaprendizagem. Quem acha que nunca, jamais conseguirá cumprimentar um torcedor do time adversário pode começar com coisas mais simples, como não ter espasmos visíveis diante do abuso do gerúndio ou prometer a si mesmo ao sair de casa que pelo menos naquele dia não vai comparar nenhuma mulher à fêmea de uma famosa ave natalina. "Tolerância tem a ver com comportamentos diferentes daqueles que valorizamos e pelos quais temos repugnância. Exercê-la é importante não só para a convivência social como para a sanidade mental", diz Bolívar Lamounier.

O fato
Fabio Motta/AE

Não é qualquer um que consegue fazer o país inteiro se solidarizar com um integrante do governo. Mas também não é qualquer um que usa o palavreado do governador de Mato Grosso do Sul, ANDRÉ PUCCINELLI, em relação ao ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc: "Ele é v... e fuma maconha. Se viesse aqui, eu ia correr atrás dele e estuprar em praça pública". Para piorar, veio depois o típico pedido falso de desculpas: "Se alguém se sentiu ofendido...". Desafio aos tolerantes urbanos: não achar que todo produtor rural é um brutamontes destruidor da natureza.

A análise

"O governador foi desmascarado em seus preconceitos mais bestiais. Em um momento em que se luta tanto contra discriminações, sejam elas de gênero, sejam sociais, o governador mostrou que não tem equilíbrio mental nem competência profissional para estar no cargo que ocupa", fulmina o cientista político Gaudêncio Torquato.

Original no site:
http://veja.abril.com.br/041109/pequeno-manual-civilidade-p-108.shtml

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

5. Bateu, não levou

Levar uma fechada, ouvir uma buzinada milésimos de segundo depois que o sinal abre, esperar que o manobrista pegue o carro largado na sua frente com a maior displicência. O stress e o anonimato propiciados pelo trânsito nas grandes cidades se combinam para testar o tempo todo os limites do AUTOCONTROLE. Para não se transformar num ser desatinado em busca de vingança, só existe uma reação possível: olhar tudo aquilo de um ponto de vista distanciado - ou, se preferir, superior. "Podemos aliviar a raiva tomando distância do que está acontecendo. Alguém me xinga, por exemplo, e eu reajo como se a ofensa fosse um pacote que recebo e devolvo fechado, porque não me considero o destinatário. O ato de grosseria está relacionado com o estado mental do agressor, não com o do agredido", ensina Piero Forni. Quem acha que tem temperamento forte, sangue quente ou pavio curto, e usa essas expressões para justificar comportamentos agressivos, deve considerar a hipótese oposta. "A pessoa que não controla a agressividade no fundo tem ego fraco", explica a psicóloga Lidia Aratangy.

O fato
Jonathan Mannion/
Corbis Outline/Latin Stock

Eles estavam numa festa, discutiram. Entraram no carro, gritaram. Pararam, ela pegou a chave e jogou pela janela. Que briga de namorados já não passou por esses estágios? A diferença no caso infeliz do rapper americano CHRIS BROWN, 20 anos, é que ele não teve autocontrole para impedir que a raiva se transformasse em agressão - e arrebentou brutalmente o rosto da cantora Rihanna, 21. E ainda disse no dia seguinte que todo mundo iria saber quem "era ela de verdade". A partir daí, os profissionais de imagem assumiram e ele pediu desculpas duas vezes, sem muita convicção. Foi condenado a cinco anos em regime de liberdade vigiada e 180 dias de trabalho comunitário.

A análise

"A única maneira de uma pessoa de pavio curto adquirir autocontrole é ela tomar a decisão, de maneira íntima e compromissada, de não agir com violência diante de uma situação de stress", diz o cientista político Rubens Figueiredo. Quem já atingiu o limiar da agressão física deve parar - de dirigir, por exemplo, ou de beber - até se reprogramar, com ajuda profissional se necessário.

Original no site:
http://veja.abril.com.br/041109/pequeno-manual-civilidade-p-108.shtml

domingo, 21 de fevereiro de 2010

6. Respeito é bom

O termo CIVILIDADE vem da palavra civitas, que quer dizer cidade. Tem civilidade, portanto, aquele que sabe viver em sociedade, um sistema refinado ao longo dos tempos. No século XVI, por exemplo, o filósofo holandês Erasmo escreveu uma espécie de manual de comportamento. "Ele explicava que não devemos cuspir à mesa nem na mesa, nem beber a sopa direto da sopeira, nem colocar as botas em cima da mesa. Soaria estranho fazer isso hoje, mas houve um tempo em que os nobres precisaram ser educados para melhorar seus modos", diz Renato Janine Ribeiro. Na construção da sociedade ocidental, o mesmo conceito que abrange algo aparentemente acessório, como os bons modos à mesa, inclui o complexo mecanismo do respeito entre as pessoas, base das relações civilizadas. "Hoje, o que entendemos como a ideia central da civilidade é justamente o respeito pelos outros. Os bons modos mostram a nosso próximo que temos estima por ele", diz Ribeiro. Roberto Romano propõe uma pergunta simples para aplicar o conceito de civilidade em diferentes situações da vida cotidiana: o que posso fazer pelo outro para que a vida de todos seja suportável? Ed Ferreira/AE

O fato





Desprezar o conceito de serviço público, legislar em causa própria, fazer nepotismo cruzado, usar recursos não contabilizados e mentir muito. Todo mundo já percebeu de quem estamos falando. Mas fazer tudo isso e ainda esfregar na nossa cara? Em maio passado, o deputado SÉRGIO MORAES (PTB-RS) se irritou com jornalistas que cobravam dele posição mais rigorosa sobre o caso do colega do castelo de 25 milhões de reais nunca declarados e tripudiou: "Eu estou me lixando para a opinião pública. Até porque a opinião pública não acredita no que vocês escrevem. Vocês batem, batem, e nós nos reelegemos mesmo assim". A ofensa em escala nacional não abalou o senhor Moraes. "A mídia distorceu a minha fala. O que eu quis dizer é que eu não ia mentir, como a mídia queria", insiste. E reincide: "Não fui deselegante com ninguém, não me arrependo e tenho muito orgulho do que eu disse".

A análise

"O deputado desrespeitou quem votou nele, desrespeitou seu cargo, desrespeitou quem escutou aquela declaração. O perigo mais evidente nesse tipo de situação é o comportamento mimético. As pessoas pensam: se o deputado rouba, por que eu não posso roubar? Se ele fala essas coisas, por que eu tenho de me esforçar para ser educado?", diz Gaudêncio Torquato.

Original no site:
http://veja.abril.com.br/041109/pequeno-manual-civilidade-p-108.shtml

sábado, 20 de fevereiro de 2010

7. Fora, trapaceiros

Todo mundo quer se dar bem, mas, se fizer qualquer coisa para conseguir isso, o mundo todo vai acabar mal. Não é preciso nem voltar ao estado natural, ou hobbesiano, da guerra de todos contra todos para entender a necessidade de um conjunto de regras comumente aceitas e, dentre elas, a importância da HONESTIDADE. Seja pagar pelo gabarito da prova do Enem, seja levar comissão em obras públicas, quem faz trapaça está roubando um pouco de cada um, não só em termos materiais, mas principalmente pela infração ao pacto social através do qual contemos nossos instintos mais selvagens em troca das garantias da civilização. "Na sociedade ocidental cristã, a figura do trapaceiro é uma das mais odiadas. A trapaça fere várias convenções sociais, entre elas a obediência às regras e a honradez", diz Roberto Romano.

O fato
Timothy A. Clary/AFP

Mesmo no universo dos grandes ladrões, a tungada de BERNARD MADOFF, 71 anos, estabeleceu novos parâmetros de desonestidade. Madoff conseguiu tirar dinheiro de gente que entendia tudo do assunto, mas também limpou viúvas, instituições de caridade, parentes e amigos. A pirâmide financeira que presidiu sugou 65 bilhões de dólares de quase 5 000 enganados. Faltando poucos dias para ser preso, quando todo o esquema já havia ruído, ele ainda conseguiu arrancar 250 milhões de dólares do homem a quem dizia ter como pai, o venerando empresário Carl Shapiro, de 95 anos, dando um novo sentido à expressão roubar velhinhos.

A análise

"O efeito de uma desonestidade cometida por uma figura conhecida, bem-sucedida e querida pode virar um problema enorme. Nem todas as pessoas vão ver a desonestidade que não deu certo como um ato necessariamente ruim, passível de restrição moral. A interpretação de muitos é que o erro pode não ter sido o ato, mas o fato de aquele sujeito conhecido, bem-sucedido e admirado não ter conseguido se safar", diz o sociólogo Demétrio Magnoli.

Original no site:
http://veja.abril.com.br/041109/pequeno-manual-civilidade-p-108.shtml

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

8. Dobre a língua

A cultura da permissividade tem enormes vantagens - a começar, naturalmente, pelo abrandamento dos costumes repressivos. A contrapartida também é evidente: a ideia disseminada de que cada um pode, e até deve, fazer e falar o que quiser, mesmo que isso invada o espaço alheio, incluindo os ouvidos. Não dizer o que dá na bola é diferente de contar mentiras. No primeiro caso, quem usa da CONTENÇÃO VERBAL está obedecendo ao mecanismo de freios sociais pelo qual as opiniões próprias são atenuadas de forma a não ofender os sentimentos alheios. No segundo, a verdade é falsificada para tirar algum proveito, nem que seja promover a própria e engrandecida imagem. Quem acha que tem de "pôr para fora" tudo o que pensa e até invoca o pensamento mágico ("Assim não vou ter infarto") na verdade não está no comando de si mesmo. "Viver em sociedade implica abrir mão de certas selvagerias para obter a proteção social que vem da vida em conjunto", diz Roberto Romano. "Nesse contexto, a má-educação, a ganância desmedida, a negligência ao outro, são todos fatores de desagregação social."

O fato
Adriano Vizoni/Folha Imagem

Quando MARTA SUPLICY era ministra do Turismo e disparou o infame "relaxa e goza" para os infelizes vitimados pelas longas esperas nos aeroportos, obedeceu a imperativos próprios: ter papas na língua era o equivalente a viver uma vida de insuportável repressão, como pregava uma tendência psicanalítica dos anos 70. Resultado: passou imagem de arrogância pela classe a que pertence, prepotência pelo posto que ocupava e, incrivelmente para uma pessoa com seu histórico, machismo virulento pela comparação.

A análise

"Na política, alguém que fala o que quer e, principalmente, com um nível de agressividade alto está querendo dizer que é dono da verdade absoluta", analisa Demétrio Magnoli. "Na esfera privada, quem fala o que quer e não se preocupa com o que o outro pensa e sente, além de ser profundamente incivilizado, não permite que uma divergência seja resolvida. O diálogo é cortado antes que produza frutos."

Original no site:
http://veja.abril.com.br/041109/pequeno-manual-civilidade-p-108.shtml

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

9. Sinto muito, mesmo

Pressa, pressão, prazos - tudo na vida contemporânea conspira para que o tratamento civilizado seja atropelado mais cedo ou mais tarde. Para isso existe um remédio universal: PEDIR DESCULPAS. O arrependimento sincero, aquele cuja intenção seja menos aliviar a consciência do ofensor e mais dar uma satisfação moral a quem foi ofendido, é um lenitivo de eficácia comprovada através dos tempos. Só os seres altamente evoluídos se desculpam com classe e naturalidade, mas os demais - ou seja, todos nós - também podem desfrutar o sentimento de paz interior que essa atitude desencadeia. É só treinar direitinho. Quanto ao momento e ao método corretos para pedir desculpas, gente com os mecanismos psíquicos em estado de bom funcionamento tem um "vergonhômetro" infalível. "É aquele sangue que sobe ao rosto quando fazemos algo errado, e que sinaliza o respeito pelo outro", diz Roberto Romano. "Sem isso, o pedido de desculpas não vale."

O fato

Kevin Lamarque/Reuters

A moral sexual é, evidentemente, assunto de foro íntimo, mas trair a mulher e tentar faturar em cima disso vira um caso flagrante de ofensa social. Ainda por cima fingindo falso arrependimento, como fez o apresentador americano DAVID LETTERMAN, 62 anos, ao contar piadinhas para confessar que teve casos com funcionárias e que estava divulgando o fato porque alguém que sabia da prática ameaçou chantageá-lo. Só uma semana depois ele se lembrou de pedir desculpas, esfarrapadíssimas, à mulher. A audiência foi às alturas.

A análise

"Ao fazer humor com o ocorrido, ele quis banalizar seu erro e, assim, ser perdoado", diz Rubens Figueiredo. "O pedido de desculpas deve mostrar que você está ciente de que o que fez foi errado, e que magoou a outra pessoa. Buscar justificativas tortuosas para o ato demonstra negligência em relação aos sentimentos do outro", completa Piero Forni

Original no site:
http://veja.abril.com.br/041109/pequeno-manual-civilidade-p-108.shtml

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

10. A casa comum

O comportamento decoroso surgiu na Igreja Católica, a partir da vestimenta dos padres e das freiras, sempre igual em qualquer ambiente e feita para cobrir tudo de forma a não atentar contra o pudor próprio ou alheio. "Com o tempo, o DECORO das vestimentas passou para a linguagem e as atitudes. A fala decorosa é aquela que diz o que tem de dizer sem adular ou ferir. O comportamento decoroso é aquele que não ofende os outros, que não agride, que não é exibicionista ou apelativo", explica Roberto Romano. Pequenos atentados cotidianos ao decoro incluem urrar ao celular em ambientes confinados, ignorar solenemente aquilo que seu cãozinho faz na calçada e ouvir música nas alturas porque "a casa é minha". Ter decoro é entender que a casa é um pouco de todos.

O fato
Divulgação/TV Globo

Lady Kate, personagem da atriz KATIUSCIA CANORO no programa Zorra Total, é exibida, decotada e exagerada, adora gastar o dinheiro de um certo senador que convenientemente nunca aparece e, diante de qualquer obstáculo que surge, repete o bordão: "Tô pagando". Na personagem, é engraçado; na vida real, é execrável.

A análise

"Uma vez conscientes de que a vida é uma experiência baseada nas relações, temos de ter em mente que os desejos das outras pessoas são tão válidos quantos os nossos. Isso significa que, ao perseguir nossos objetivos, precisamos ter certeza de que estamos sendo justos com os outros. O decoro nos ajuda a ajustar essa medida", diz Piero Forni


Original no site:
http://veja.abril.com.br/041109/pequeno-manual-civilidade-p-108.shtml

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

A Europa morreu em Auschvitz


Com respeito as caricaturas que sairam sobre o profeta Maome, saiu num jornal europeu este artigo de um jornalista espanhol:

TODA A VIDA DA EUROPA MORREU EM AUSCHVITZ

Muito importante : Os Europeus comecam a entender – mas e’ muito tarde!!!!

Sebastian Villar Rodrigues

Estava andando em Barcelona e de repente descobri uma verdade apavorante – A Europa morreu em Auschvitz.

Nós matamos seis milhoes de judeus e os trocamos por 20 milhoes de muculmanos.

Em Auschvitz queimamos cultura, pensamento, creatividade, capacidade. Destruimos o povo eleito, realmente eleito, pois eles nos deram pessoas unicas e especiais, que mudaram o mundo.

A influencia dessas pessoas e’ sentida em todos os aspectos a vida: ciencia, artes, comercio international e mais de tudo, a consciencia do mundo. Esses sao os seres que queimamos.

E sob o cinismo de compreensao, porque queriamos provar para nos mesmo que nos curamos da doenca do racismo, abrimos nossos portoes para 20 milhoes de muculmanos, que trouxeram com eles ignorancia e idiotice, fanatismo religioso e incompreensao, assaltos e pobreza derivados da falta de vontade de trabalhar e de sustentar suas familias com honra.

Eles transformaram nossas cidades espanholas maravilhosas em terceiro mundo, infestadas de desespero e assaltos.

Eles moram em casas que receberam de graca do governo e la’ mesmo eles planejam o assassinato e destruicao das pessoas inocentes que os receberam.

E assim, para azar nosso, trocamos cultura por odio fanatico, creatividade por destruicao, inteligencia por atraso e ignorancia.

Trocamos a busca da paz do judaismo da Europa e a capacidade destes de almejar um futuro melhor para seus filhos e respeito a vida por ser a vida sagrada,

Por pessoas que correm atras da morte, pessoas que almejam a morte para si, para os outros, para nossos filhos e para seus filhos.

Que erro terrivel foi feito pela Europa triste.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Cérebros ruídos


Quando em 2001 decidi começar uma cruzada pessoal contra a miséria intelectual que assola o Brasil eu sabia que a briga seria dura, mas que valeria a pena. De lá para cá sabe o que aconteceu?

Tornei-me colunista de programas de rádio. Lancei meu livro Brasileiros Pocotó. Realizei minhas palestras centenas de vezes no Brasil e no exterior. Fiz eventos de lançamento de livros em várias universidades. Criei o programa de rádio Café Brasil que está em 27 rádios pelo país. Lancei seis Melôs que foram assistidas por centenas de milhares de pessoas no Youtube. Ampliei meu cadastro de "assinantes" do site para mais de 125 mil nomes. Viajei para o Aconcágua e o Pólo Norte. Lancei o podcast Café Brasil que já tem mais de 100 mil downloads/mês.

Tornei-me colunista de dezenas de jornais, revistas e sites. Lancei meu novo livro NÓIS. Ufa! Uma trabalheira danada que recebeu pouquíssima repercussão na grande mídia. O barulho todo veio pela internet.

Mas agora a coisa mudou! Fui entrevistado na televisão, para matéria que foi ao ar no Jornal da Cultura! Vieram me entrevistar em meu escritório! Um jornalista e dois técnicos! Vixe!

Quando ligaram interessados na entrevista, fiquei excitado! Será que finalmente eu poderia tratar de meu trabalho de combate ao emburrecimento nacional? Falar das implicações políticas de nossas decisões do dia a dia? Chamar a atenção para o vácuo de cidadania que vivenciamos neste início de século? Comentar sobre a queda de conteúdo no sistema educacional? Discorrer sobre as raízes da corrupção em nossos pequenos atos diários? Discursar sobre a necessidade de enriquecer nosso repertório para refinar nossa capacidade de tomada de decisão? Argumentar sobre a importância de não ser um bovino resignado que simplesmente destila ressentimentos passivos? Conclamar o telespectador a conectar-se a outras pessoas interessadas em melhorar o estado das coisas? Provocar a todos pedindo que resistissem caso percebessem que o Brasil está ficando burro?

Não.

Essas questões não estão nas pautas. Eles estavam interessados por causa de meu artigo "Sobre unhas" em que eu comento que estou superando o hábito de roer unhas desde que comecei aprender a tocar viola caipira.

Questões ligadas à cidadania são chatas, interessam a uma minoria que, provavelmente, nem assiste televisão. Para a televisão precisamos de coisas leves, como o hábito de roer unhas, por exemplo. Isso sim cabe em rede nacional e horário nobre.

Extrapolando meu simplório exemplo para as grandes questões nacionais, lembro-me do mestre Rubem Alves dizendo: "Os homens da mídia vivem repetindo que o dever dos jornais e da televisão é dar a 'notícia'. Mas 'notícias', há milhares delas espalhadas pelo mundo. O que me espanta é o critério que se usa para pinçar as notícias que serão servidas aos leitores como comida. Se o povo só se alimentar de comidas pútridas, ele passará a gostar do pútrido. E, ao final, também ficará pútrido."

É claro que não existe nada de "pútrido" numa solução para o hábito de roer unhas. Talvez minha história ajude outras pessoas que também sofrem com o problema, o que é muito legal.

Mas mais urgente que o roer de unhas é o roer do cérebro. É ele que está sendo destruído sem que percebamos. E o problema é que o estrago do cérebro não é visível como nas unhas. Não dói como as unhas.

E na República das Banalidades o que não é visto e nem dói, não interessa.

Luciano Pires

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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Opção pela Terra


Opção pela Terra: religiões fazem frente comum sobre o clima

Podem até se referir a Céus diferentes, mas as tradições religiosas do mundo sabem muito bem que a Terra é uma só. Assim, enquanto às vésperas da Cúpula de Copenhage sobre as mudanças climáticas, que ocorre entre os dias 07 a 18 de dezembro, as expectativas que se referem a um acordo sério e vinculante sobre o corte das emissões de gás carbônico continuam baixas, um motivo de esperança, ou de consolo, vem do crescente compromisso das religiões do mundo na luta em defesa do planeta.

A reportagem é de Claudia Fanti, publicada na revista Adista, 08-12-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Foi o que surgiu, por exemplo, de um encontro que, entre os dias 02 e 04 de novembro passado, reuniu no castelo de Windsor, na Inglaterra, os líderes das diversas denominações cristãs, do Islã, do judaísmo, do budismo, do hinduísmo, do taoísmo e de outras tradições religiosas, convidadas pelo príncipe Felipe de Edimburgo, presidente da Alliance of Religions and Conservation (Arc), e pelo secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon.

O encontro The Windsor Commitments produziu uma série de compromissos com os quais os representantes de todas as religiões assumem a tarefa de educar seus próprios fiéis a cuidar da natureza, protegendo-a pelo bem das futuras gerações: se é verdade que, indicou Olaf Kjorven, assistente do secretário-geral da ONU, 85% da população mundial professa uma religião, essa iniciativa poderia realmente se tornar a maior mobilização mundial em defesa do planeta.

Em campo cristão, particularmente, a Conferência das Igrejas Europeias (Kek) e o Conselho das Conferências Episcopais da Europa (CCEE) divulgaram, no último dia 06 de novembro, uma carta conjunta aos fiéis das Igrejas cristãs de toda a Europa, convidando-os a mudar seus estilos de vida. Entre as iniciativas previstas para a Cúpula sobre as mudanças climáticas, a mais singular é provavelmente a campanha dos "350 toques de sino", lançada pelas Igrejas dinamarquesas: em Copenhague, às 15 horas do dia 13 de dezembro, os sinos de todas as Igrejas darão 350 toques, aos quais as igrejas de todo o mundo ecoarão.

"Temos previsto – lê-se na carta assinada pelo secretário-geral da Kek, Colin Williams, e do CCEE, Pe. Duarte da Cunha – uma cadeia de toques de sinos e orações que se estenderão em um longo fuso horário a partir das Ilhas Fiji, no sul do Pacífico, que é a primeira região em que nasce o sol, onde os efeitos negativos das mudanças climáticas já se fazem sentir, até a Europa setentrional, passando por todo o mundo".

Das mudanças climáticas e das consequências devastadoras que elas já estão produzindo em algumas áreas do planeta, falou-se também em Chiang Mai, na Tailândia, onde, entre os dias 02 e 06 de novembro passado, o Conselho Ecumênico das Igrejas (Cec), a Conferência Cristã da Ásia e a Conferência das Igrejas do Pacífico convocaram uma Consulta Ecumênica sobre "Pobreza, bem-estar e ecologia na Ásia e no Pacífico".

Inserida no âmbito do processo do Cec, denominado Agape (Alternativa Global, Ambiente, Paz, Economia), a consulta foi concluída com a aprovação da "Declaração de Chiang Mai", que, destacando a estreita ligação existente entre crise ecológica e injustiça econômica, convida a uma "radical renovação espiritual" fundamentada no "imperativo bíblico da opção preferencial de Deus pelos menores (justiça) e pela sacralidade da criação (sustentabilidade)".

Fonte: IHU On-line
 
Caputrado no site:
http://transnet.ning.com/profiles/blog/show?id=2018942%3ABlogPost%3A40106&xgs=1&xg_source=msg_share_post

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Solidariedade... uma palavra que está desaparecendo no mundo de hoje.
E atitude são poucos que ainda tem ....... e os que tem, agem .....

























"A RAZÃO DOS CÃES TEREM TANTOS AMIGOS,

É QUE MOVEM SUAS CAUDAS MAIS
QUE SUAS LÍNGUAS."

Pense nisso...
Se usarmos nosso tempo, dedicação, atenção para proclamar sorrisos, felicidade e amor,
tudo fica melhor, tudo se transforma e assim cumprimos o que Deus nos confiou...
A forma de algumas pessoas levarem a vida, com mais leveza, com um sorriso no rosto
e felicidade estampada em atitudes, não quer dizer que ela seja irresponsável com aquilo
que lhe foi confiado... Dedicação, atenção, responsabilidade, não tem nada a ver com mau
humor ou o fato de não prestarmos atenção nas simples formas de amar.

As pessoas precisam AMAR mais e julgar menos...
Todo mundo é igual, e estamos todos destinados a um mesmo futuro, a morte.
Mas apesar desse destino certo, cabe a cada um a liberdade de escolha, enquanto respira...

Como você decide viver a vida é o que faz diferença nos momentos em que passar por provações.
Vamos AMAR mais e julgar menos!!
Recebi por e-mail tal qual.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Bancos públicos x privados


Bancos públicos superam os privados em lucro e tamanho em 2009

Os bancos públicos federais superaram as instituições privadas nacionais em tamanho e em lucratividade, segundo dados dos balanços referentes ao terceiro trimestre deste ano organizados pelo Banco Central.

Esses resultados foram obtidos, principalmente, pelo bom desempenho do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), que recebeu grande aporte de recursos da União para aumentar seus empréstimos durante o período mais agudo da crise.

Também contribuiu para isso a consolidação das aquisições realizadas pelo Banco do Brasil, que comprou a Nossa Caixa e metade do banco Votorantim.

Os ativos dessas duas instituições, somados aos da Caixa Econômica Federal, do Banco da Amazônia e do Banco do Nordeste, chegaram a R$ 1,39 trilhão no final de setembro. No final desse mesmo mês, instituições privadas de controle nacional listadas pelo BC possuíam R$ 1,34 trilhão.

Há três meses, os bancos nacionais privados ainda superavam as instituições públicas em ativos. Não entram nessa conta os bancos privados de controle estrangeiro que atuam no país, como Santander e HSBC, que possuem mais R$ 685 bilhões.

O levantamento também mostra que o lucro do BNDES ajudou as cinco instituições federais a registrar, juntas, um ganho maior que os bancos privados nacionais. Enquanto o lucro dos grupos estatais foi de R$ 5,3 bilhões nesses três meses, os agentes privados nacionais tiveram ganho de R$ 4,9 bilhões. No final do trimestre passado, antes dessa virada, esses bancos privados acumulavam lucro 75% acima do registrado pelos federais.

Política de governo

Uma das explicações para essas mudanças é o avanço dos bancos públicos no crédito nos últimos 12 meses. Depois de liderarem o mercado de empréstimos no país por cinco anos seguidos, os bancos privados nacionais e estrangeiros perderam espaço para as instituições estatais, cujo ativos e lucros cresceram com o aumento nos empréstimos.

Esse avanço foi uma determinação do governo para evitar uma recessão maior na virada do ano. Houve até mesmo mudanças na presidência do BB, a maior instituição do país, diante da política do banco de acompanhar os bancos privados na redução do crédito e no aumento dos juros.

Desde junho de 2004, os bancos privados vinham puxando a alta do crédito no país e a sua carteira foi se distanciando das instituições públicas. Em setembro do ano passado, a diferença entre os dois segmentos chegou a 30%. A partir daí, no entanto, essa distância começou a encolher. Em setembro deste ano, o estoque de financiamentos dos dois segmentos estava praticamente empatado.

De acordo com o BC, já há sinais, nos últimos meses, de que os bancos privados estejam reagindo a esse movimento. Um dos fatores que podem facilitar essa retomada é o esgotamento da capacidade de empréstimos das instituições estatais, que estão correndo contra o tempo para se capitalizar.

Além disso, a expectativa é que, em 2010, a economia brasileira volte a apresentar níveis de crescimento próximos do verificado no período anterior à crise.

Para o economista João Augusto Salles, da Consultoria Lopes Filho, esse crescimento dos bancos públicos foi uma exceção verificada em um período de crise, mas que deve se reverter a partir da retomada da economia brasileira já a partir de 2010. "Isso foi uma anomalia do mercado em razão da crise. Os bancos públicos, por ordem do controlador, emprestaram sem muito critério e vão ter de rever suas políticas. Agora, é a vez dos bancos privados."

De acordo com o analista da área de bancos Luiz Miguel Santacreu, da Austin Rating, o setor público não pode financiar sozinho o crescimento da economia esperado para os próximos anos. "O Banco do Brasil e a Caixa queimaram bastante combustível. O setor privado tem mais gasolina no tanque e um potencial maior para crescer no crédito."

Fonte: Folha de S.Paulo 28/12/2009

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Pequenas Obviedades


Constantemente sou convidado a falar para grupos de jovens em escolas, entidades e eventos específicos. É sempre uma experiência fascinante pegar pela frente uma platéia jovem, faminta por informação e questionadora. Numa das últimas vezes falei sobre minha experiência de 26 anos como executivo numa multinacional. Hoje como empresário, olho o universo corporativo sob um novo ponto de vista, que me leva a pequenas
reflexões sobre o que vi e aprendi. Achei que valeria a pena compartilhar algumas com você:

Se você é cliente e acha ruim ser tratado com desrespeito, espere até ser fornecedor. Você provavelmente será visto como um Zé qualquer que sempre chega na hora inconveniente para roubar o tempo dos outros. E vai ter que esperar. Esperar que seu email seja retornado. Que seu telefonema seja atendido. Que seu interlocutor o receba...

Todo mundo parece ocupado demais para ser educado. Emails e telefonemas não são retornados. Reuniões têm o horário desrespeitado, mesmo que você venha de muito longe. E ninguém pede desculpas. Ficou tão normal ser mal educado que quando alguém respeita as regras da educação, ficamos espantados! Comentamos até! Não é uma inversão total de valores?

Que feio... Será preciso um livro japonês, um guru estadunidense, um processo alemão ou a ISO xis mil para que a educação volte a fazer parte dos relacionamentos profissionais?

Outro ponto: todo mundo está com medo. Medo do concorrente, medo de tomar decisões erradas, medo que as ações caiam, medo de perder o emprego. Houve um tempo em que esse medo era o gatilho que gritava: "mexa-se!" e fazia com que as pessoas criassem soluções.

Mas hoje é diferente. Alimentado pela insegurança, pela falta de autonomia, pela ignorância sobre o negócio, pela gritaria da mídia sensacionalista, o medo hoje é criado por gente que jamais se preocupou em preparar seus sucessores. Por sistemas criados para pulverizar as responsabilidades e os processos de tomada de decisão. Assim, o que antes era resolvido em uma semana agora leva seis meses. O medo que desafiava, agora só paralisa.

Mais um ponto: você pode ser um gênio, mas estar estúpido. Ser e estar. Se a genialidade é inata, a estupidez é uma condição. Ninguém deixa de ser inteligente ou genial. Mas todo mundo está propenso a praticar atitudes estúpidas. Somos todos bons em alguma coisa e ruins em outras. Reconhecer os momentos em que estamos estúpidos é o primeiro passo para atenuar os problemas. Mas quem é capaz de se reconhecer estúpido?

E por fim: neste Brasil do novo milênio parece que perdemos a capacidade de aprender com nossos erros. Os erros de hoje são os mesmos de 10, 20, 30 ou 100 anos atrás. Estão mais sofisticados, informatizados, teorizados e enfeitados. Mas são os mesmos erros de sempre. Será que ninguém aprende?

Boa educação, coragem, reconhecer nossas limitações e aprender com os erros.

No meu tempo o nome disso era "obviedades". Hoje é "exceções".

Luciano Pires

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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Abraçando a imperfeição


Quando eu ainda era um menino, ocasionalmente, minha mãe gostava de fazer um lanche, tipo café da manhã, na hora do jantar. E eu me lembro especialmente de uma noite, quando ela fez um lanche desses, depois de um dia de trabalho muito duro.

Naquela noite longínqua, minha mãe pôs um prato de ovos, linguiça e torradas bastante queimadas defronte ao meu pai.

Eu me lembro de ter esperado um pouco, para ver se alguém notava o fato.

Tudo o que meu pai fez foi pegar a sua torrada, sorrir para minha mãe e me perguntar como tinha sido o meu dia, na escola.

Eu não me lembro do que respondi, mas me lembro de ter olhado para ele lambuzando a torrada com manteiga e geléia e engolindo cada bocado.

Quando eu deixei a mesa naquela noite, ouvi minha mãe se desculpando por haver queimado a torrada. E eu nunca esquecerei o que ele disse:

“Querida, eu adoro torrada queimada"

Mais tarde, naquela noite, quando fui dar um beijo de boa noite em meu pai, eu lhe perguntei se ele tinha realmente gostado da torrada queimada.

Ele me envolveu em seus braços e me disse:

“- Companheiro, sua mãe teve hoje, um dia de trabalho muito pesado e estava realmente cansada.... Além disso, uma torrada queimada não faz mal a ninguém. A vida é cheia de imperfeições e as pessoas não são perfeitas. E eu também não sou um melhor empregado, ou cozinheiro!"

O que tenho aprendido através dos anos é que saber aceitar as falhas alheias, escolhendo relevar as diferenças entre uns e outros. Isso é uma das chaves mais importantes para criar relacionamentos saudáveis e duradouros.

Essa é a minha oração para você hoje. Que possa aprender a levar o bem, o mal, as partes feias de sua vida, colocando-as aos pés do Espírito.

Porque afinal, ele é o único que poderá lhe dar uma relação na qual uma torrada queimada não seja um evento destruidor.

De fato, poderíamos estender esta lição para qualquer tipo de relacionamento: entre marido e mulher, pais e filhos e com amigos.

Não ponha a chave de sua felicidade no bolso de outra pessoa, mas no seu próprio. Veja pelos olhos de Deus e sinta pelo coração dEle; você apreciará o calor de cada alma, incluindo a sua.

As pessoas sempre se esquecerão do que você lhes fez, ou do que lhes disse. Mas nunca esquecerão o modo pelo qual você as fez se sentir.
 
*Livre tradução de um texto em Ingles, sem autoria

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Não vi e não gostei

Reproduzo aqui um artigo publicado no início de dezembro do ano passado. Posssivelmente agora já dará para fazer um paralelo entre a opinião do crítico e a do públcio.


Na semana passada, a alta corte se reuniu em Brasília. Mais de 1,4 mil pessoas lotaram o Teatro Nacional para assistir à pré-estréia do filme "Lula, o Filho do Brasil". Nos círculos do poder, onde o puxa-saquismo faz parte da etiqueta social e é instrumento de ascensão profissional, compreende-se que algumas pessoas tenham sentado nas escadarias e se dependurado nos lustres do teatro. Mas quando a produção chegar às salas de cinema, dificilmente terá a mesma recepção. E talvez entre para a história como o filme de expectativas mais infladas já rodado no País - e também o que menos correspondeu a elas.


Por mais que Lula seja "o cara" e mereça a popularidade que tem, existem razões filosóficas, estéticas e morais para não se assistir ao filme. A principal: é simplesmente indecoroso que o produtor Luiz Carlos Barreto tenha rodado sua sacolinha no auge do poder petista. Com cerca de R$ 16 milhões arrecadados, ele conseguiu produzir a película mais cara da história do cinema nacional. Eike Batista, aquele que queria um empurrão do Planalto para ficar com a Vale, deu R$ 1 milhão. A Camargo Corrêa, que depois de uma operação da Polícia Federal foi socorrida pelo advogado Márcio Thomaz Bastos, por sugestão direta do presidente, também entrou no consórcio, assim como duas outras empreiteiras. E a Oi, (do filho do Presidente) que ganhou uma lei sob medida na telefonia, também está no time dos patrocinadores. Por isso, é até visivel o comentário do ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, que, na pré-estréia, indagou: "Por que a oposição não arruma alguém para fazer um filme também?" Ora, simplesmente porque não tem a chave do cofre, nem a chave da cadeia - e talvez porque tenha algum decoro.

Se isso não bastasse, o principal ingrediente do filme parece ser o sentimentalismo barato daquelas produções "feitas para chorar". A história de um herói improvável que supera dificuldades e chega ao cume da glória, carregado pelo povo. Na linha do indiano "Quem quer ser um milionário?", o nosso poderia se chamar "Quem quer ser um presidente?". Só que a arte de Lula sempre foi o de transformar adversidades, como a origem humilde e a falta de diploma, em vantagens comparativas no jogo da competição política. Numa sociedade tão desigual e culpada como a brasileira, nada disso foi obstáculo ao seu sucesso - e talvez tenha até ajudado. Por tudo isso, e pelo simples fato de que teria sido mais decente esperar o fim da era Lula para rodar o filme, a produção da família Barreto não vale o ingresso, nem a pipoca.

Jornalista Leonardo Attuch
attuch@istoe.com.br

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Precisa-se de MATÉRIA PRIMA


Numa tarde de sexta-feira, recebi um telefonema de um amigo me convidando para ir a um churrasco na sua casa. Acontece que na naquela noite eu tinha que dar aula na faculdade. O problema é que eu queria ir ao churrasco, mas como?

Bem, eu agi como, geralmente, todos nós agimos: fiz de conta que estava cumprindo com a minha obrigação quando, na verdade, satisfiz o meu prazer.

O churrasco começava às oito da noite e a aula às sete e meia. Fui à faculdade, registrei a aula, fiz a chamada e inventei uma aula de leitura na biblioteca, abandonando a turma. Saí para o churrasco querendo acreditar que cumprira meu dever de professor.

No churrasco, fiquei numa mesa com o dono da casa, que é médico, o amigo que estava sendo homenageado, que é policial, um amigo do homenageado que é advogado e político e a sua esposa que é universitária e estuda no período da noite.

O assunto era um só: a roubalheira dos nossos políticos e a passividade da sociedade (todos nós) mediante a podridão do episódio do mensalão. Todos estávamos revoltados e propondo soluções para o melhor funcionamento da máquina pública e para o resgate da ética entre a classe política.

Num dado momento, o telefone do dono da casa tocou e ele se afastou para atender. Retornando, disse com raiva: "Não dá pra trabalhar com certas pessoas". Naquela noite, ele estava de plantão no hospital, mas chegou lá cedo, visitou alguns pacientes e leu "por cima", os prontuários. Depois foi para casa e deixou como recomendação: "só me liguem em caso de extrema emergência ou se aparecerem pacientes particulares".

Estava aborrecido porque a enfermeira lhe telefonara só porque chegou um sexagenário com suspeita de infarto. Ele "receitou" medicamentos pelo telefone e disse que a enfermeira só devia ligar de novo se acontecesse algo grave.

Para aliviar o clima, perguntei ao amigo que estava sendo homenageado se já havia feito a sua mudança de casa. Ele respondeu que sim e, que isso não tinha lhe custado nada, pois o dono da transportadora lhe havia retribuído "um favor": meses antes, ele tinha "resolvido" uns probleminhas de multas nos seus carros que poderiam lhe custar a habilitação e, até mesmo, a sua empresa!

Aí, a esposa do político liga para uma colega que também fazia mestrado para saber se ela tinha respondido à chamada por ela enquanto ela estava no churrasco, pois ela já estava "pendurada nas faltas" nessa disciplina e não poderia ser reprovada. E, feliz, sorriu com a resposta da colega: dera tudo certo.

Em um outro momento, o anfitrião pergunta ao político como iria ficar o caso de uma certa pessoa. E ele respondeu que tudo estava indo bem, o problema era que na secretaria almejada já havia alguém concursado ocupando o cargo que tal pessoa pleiteava. Mas que ele não se preocupasse, pois estavam estudando uma medida legal (?) para transferir o "dito cujo" de função ou de setor para a vaga "do fulano" ser ocupada por ele. "Ele é um que não pode ficar de fora, pois foi comprometido com a gente até o fim", finalizou.

Em meio a tudo isso, não deixávamos de falar das CPI's, da corrupção dos políticos e da cumplicidade da sociedade que, apática, não movia uma palha para mudar nada.

Chegando em casa fui pensar naquela noite e em tudo o que havia presenciado.

De repente, me lembrei do escritor baiano João Ubaldo Ribeiro, que diz: "nós vivemos num ambiente de lassitude moral que se estende a todas as camadas da sociedade e que esse negócio de dizer que as elites são corruptas mas que o povo é honesto é conversa fiada. Nós somos um povo de comportamento desonesto de maneira geral, ou pelo menos um comportamento pouco recomendável".

O melhor era que eu não precisava fazer qualquer pesquisa para concordar com o escritor. A sua afirmação estava magistralmente retratada no meu comportamento e no comportamento dos meus amigos naquela noite e naquele churrasco que eu havia freqüentado.

Para começar, eu, como professor, roubei o povo ao fingir que estava dando aula. E estou surrupiando (roubando) a sociedade quando marco os tão conhecidos seminários só para não dar aulas, com a mentira disfarçada de que os alunos precisam treinar a arte de expressar bem as suas idéias. Isso pelo fato dessa afirmação não ser verdade, mas parte de uma verdade maior.

É lógico que os alunos precisam treinar a arte de bem expressar as suas idéias, mas só depois de serem conduzidos pelo professor que, por sinal, é pago para fazer isso. A verdade inteira é que, quase sempre por motivos pessoais, o professor acaba transformando o que seria uma, de várias técnicas de ensino, em sua prática regular de ensino e o resultado é uma enorme massa de estudantes "transfigurados", da noite para o dia, em professores dos professores que deviam ensinar, mas não ensinam.

E o que dizer do dono da festa, o médico que estava "tirando plantão" e que, ganhando o seu salário, reclamou de ser incomodado, apenas porque um senhor de idade estava com suspeita de infarto?

Somos tão convictos de que somos bons, que o médico chegou a dizer que, se ao menos o ancião tivesse sido diagnosticado por um profissional, então ele se sentiria na obrigação de ir atendê-lo.

Ele só esqueceu de um detalhe: se o plantonista do hospital que, por sinal era ele, estivesse cumprindo o seu plantão, o senhor de 64 anos de idade, casado, pai de seis filhos, aposentado e que trabalhava desde os doze anos de idade e contribuía com a previdência há trinta, talvez tivesse sido atendido por um profissional e não tivesse sofrido um derrame cerebral.

É interessante vermos, também, o caso da universitária, a defensora dos valores morais. E, aqui eu pergunto: que valores seriam esses? O famoso jeitinho brasileiro que, não custa lembrar, só virou instituição nacional porque nós lhe damos vida com as nossas atitudes!

Acredito que mais uma vez o Brasil passa por uma oportunidade de ouro para rever-se como país e sair crescido e melhorado de toda essa crise.

O grande problema está nas pessoas. Em mim, em você, nas nossas famílias, colegas, amigos e inimigos, parentes e aderentes. Se quisermos realmente uma nação melhor temos que assumir que nós também somos recebedores do mensalão e que, portanto, cada um de nós também é merecedor de sentar nas cadeiras da CPI.

Recebemos o mensalão quando fazemos coisas como as descritas acima, e também quando copiamos ou compramos CD's piratas, quando pagamos propinas ao guarda de trânsito para ele não nos aplicar multa, enfim, todos nós, cada um a seu modo e com o seu preço, também é culpado, pessoalmente, por tudo isso que está acontecendo no nosso país.

É bom não esquecer que nossos políticos não vieram de Marte, mas do nosso meio, corrompidos por nós, corruptos e corruptores. O real motivo para a sociedade assistir apática a toda essa decadência não é apatia, mas cumplicidade.

[Pedro Paulo Rodrigues Cardoso de Melo, Psicólogo Clínico, Psicopedagogo e Professor Universitário de Psicologia e Sociologia]

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Pessoas que machucam sem bater


Colaboração de Denise Sartori

É fácil deixar uma pessoa emocionalmente em frangalhos. É só mirar no peito e atirar com palavras.

Um dos maiores dramas femininos é a violência dentro de casa.

Milhares de mulheres apanham do marido e do namorado.

Não importa se são pobres ou ricas, analfabetas ou cultas: apanham uma, duas, três vezes e, em vez de fazerem a malinha e darem um novo rumo às suas vidas, mantêm-se onde estão, roxas e orgulhosas.

A maioria suporta a situação porque não tem como se sustentar, não tem para onde levar os filhos, elas estão nesse mundo sem pai nem mãe.

Mas há outro motivo curioso: muitas mulheres encaram a surra como um contato íntimo.

Na falta de um beijo, aceita-se um tapa.

Dói, mas ninguém pode dizer que não existe uma relação a dois.

É uma maneira masoquista de se fazer notar, de não se sentir ignorada pelo companheiro.

Apanho, logo existo.

Que é medieval, nem se discute.

Mas a humanidade convive há séculos com essas armadilhas, com essas cenas em que cada um interpreta como lhe convém. Podemos nos apiedar de quem sofre maus tratos em nome desse amor fora dos padrões, mas a verdade é que apanhamos todas, todos. Diga aí quem nunca machucou, quem nunca foi machucado, mesmo sem trazer marcas visíveis.

Algumas pessoas são experts em não deixar cicatrizar velhas feridas, em fazer dor no ponto frágil. Insinuações doem, acusações injustas doem, desapego dói, indiferença, então. É justamente dentro das relações mais íntimas que se obtêm as melhores armas.

A vulnerabilidade é terreno fértil para surras psicológicas.

Sabemos como reage nosso cônjuge, o que costuma ferir nosso irmão, onde nossos amigos fraquejam.

Basta uma frase, uma ironia, e o abatemos.

Deixar uma pessoa emocionalmente em frangalhos não é passível de condenação. Não é crime, não deixa marcas de sangue no tapete. Mira-se no peito, atira-se com palavras, e os estilhaços caem para dentro. A violência física não tem essa premeditação. Ela caracteriza-se pela falta absoluta de controle.

No momento em que se agride alguém com socos e pontapés, atravessa-se a fronteira do racional: vigora a degradação, a selvageria, o fim da civilidade. Por isso, preferimos a agressão verbal, que, apesar de também machucar, ao menos mantém a ordem.

O ideal, no entanto, seria escaparmos ilesos de qualquer brutalidade e convivermos apenas com abraços, sorrisos e palavras gentis, coisa que acontece apenas entre quem mal se conhece.

A ternura full time só é comum entre pessoas cujas vidas não se misturam, não trazem conseqüências uma para a outra. Já a intimidade permite que a mágoa brote, transformando rancor em munição.

Mike Tyson ao menos ganhava bem para bater e levar. Fora do ringue, todo mundo perde.

Martha Medeiros

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Butão: o reino que quis medir a felicidade


E se os indicadores econômicos não fosse suficientes para medir o bem-estar de uma sociedade? Há 35 anos, em um isolado reino do Himalaia, um carismático rei decidiu que era mais importante a felicidade interna bruta do que o produto interno bruto. Hoje, o Butão é a democracia mais jovem do mundo e o exótico campo de testes de um dos debates mais interessantes do pensamento econômico global.

A reportagem é de Pablo Guimón, publicado no jornal El País, 29-11-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Por trás das grandes histórias, costuma haver grandes personagens. E ninguém que tenha visitado seu pequeno reino do Himalaia poderá negar esse qualificativo a Jigme Singye Wangchuck (foto), quarto rei do Butão, cuja aura misteriosa e novelesca parece ser respirado em cada um dos lares deste país do tamanho da Suíça, com apenas 700 mil habitantes, ao qual o quarto rei converteu no ano passado na democracia mais jovem do mundo.

Em uma semana no país, não foi possível ouvir uma só palavra ruim sobre Jigme Singye Wangchuck, educado no Reino Unido, casado com quatro irmãs e pai de 10 filhos, um dos quais é o atual rei. Em troca, o relato de suas virtudes se repete até cansar. Que ele vive sozinho em uma cabana modesta. Que quando as pessoas se ofereceram para lhe construir um castelo, ele disse que não, que empregassem o dinheiro e o tempo na construção de escolas e de hospitais. Que é compassivo, sábio, que sacrificaria tudo por seu povo. Que foi o primeiro a se oferecer para defender o país com suas próprias mãos quando teve que lutar, em 2003, contra os rebeldes separatistas de Assan, que cruzavam a fronteira e se ocultavam nos densos bosques do Butão para lançar ataques contra a Índia.

"É um rei deus. O único rei da história da humanidade que merece esse apelido. Muitos povos, por muitos motivos, veneraram seus mandatários. Mas ele é especial. É uma mente iluminada. É como um buda". Talvez não seja preciso ir tão longe como Ashi Sonan Choden Dorji, de 41 anos, a irmã menor das quatro rainhas, que define seu cunhado assim, tomando chá no elegante salão de sua casa nos arredores da capital. Mas a palavra "visionário" poderia ser aceita se se levar em conta que o rei cunhou, há 35 anos, um termo que hoje, neste cenário de pós-comunismo e do pós-capitalismo selvagem, constitui o centro de um dos debates mais interessantes que estão se produzindo no pensamento econômico mundial. Um debate ao qual se voltaram prêmios Nobel como Joseph E. Stiglitz ou Amartya Sen e líderes ocidentais como Nicolas Sarkozy ou Gordon Brown.

No dia 02 de junho de 1974, em seu discurso de coroação, Jigme Singye Wangchuck disse: "A felicidade interna bruta é muito mais importante do que o produto interno bruto". Ele tinha 18 anos e se convertia, após a repentina morte de seu pai, no monarca mais jovem do mundo.

Não foi um mero slogan. A partir daquele dia, a filosofia da felicidade interna bruta (FIB) guiou a política do Butão e seu modelo de desenvolvimento. A ideia é que o modo de medir o progresso não deve se basear estritamente no fluxo de dinheiro. O verdadeiro desenvolvimento de uma sociedade, defendem, tem lugar quando os avanços no material e no espiritual se complementam e se reforçam um ao outro. Cada passo de uma sociedade deve ser avaliado em função não apenas de seu rendimento econômico, mas também se leva ou não à felicidade.

Dois fatores podem explicar que essa espécie de terceira via de desenvolvimento tenha sido levada à prática precisamente aqui, neste isolado reino do Himalaia. Por um lado, estão as suas profundas raízes na filosofia budista. E por outro, o proverbial atraso do Butão em sua abertura ao mundo. O lama reencarnado Mynak Trulku explica o primeiro fator: "A felicidade interna bruta se baseia em dois princípios budistas. Um deles é que todas as criaturas vivas buscam a felicidade. O budismo fala de uma felicidade individual. Em um plano nacional, cabe ao governo criar um entorne que facilite aos cidadãos individuais encontrar essa felicidade. O outro é o princípio budista do caminho do meio".

E isso se entrelaça com o segundo fator, que é explicado por Lyonpo Thinley Gyamtso (foto), ex-ministro do Interior e da Educação: "Existem os países modernos, e depois existe o que era o Butão até os anos 70. Medieval, sem estradas, sem escolas, com a religião como único guia. São dois extremos, e a FIB busca o caminho do meio".

A televisão chegou ao Butão em 1999, ao mesmo tempo em que a Internet. Thimpu é hoje a única capital do mundo sem semáforos, e o aeroporto internacional conta com uma única pista. Esse atraso na modernização permitiu que o Butão, um pequeno país encaixado entre os dois Estados mais povoados da Terra, a Índia e a China, aprendesse com os erros dos outros países vizinhos em desenvolvimento que se centraram exclusivamente no progresso econômico.

A medida da felicidade

O conceito butanês da felicidade interna bruta se sustenta sobre quatro pilares, que devem inspirar cada política do governo. Os pilares são:

1.Um desenvolvimento sócio-econômico sustentável e equitativo

2.A preservação e promoção da cultura

3.A conservação do meio ambiente

4.O bom governo

Para levar isso à prática, o quarto rei criou em 2008 uma nova estrutura internacional ao serviço dessa filosofia, com uma comissão nacional da FIB e uma série de comitês em nível local.

O que medimos afeta o que fazemos. Se os nossos indicadores medem só quanto produzimos, nossas ações tenderão só a produzir mais. Por isso, era preciso converter a FIB de uma filosofia a um sistema métrico. E isso é o que o quarto rei encomendou ao Centro de Estudos Butaneses, que anos depois apresentou um índice para medir a felicidade.

A matéria-prima é um questionário que os cidadãos butaneses irão responder a cada dois anos. A primeira pesquisa foi realizada entre dezembro de 2007 e março de 2008. Um total de 950 cidadãos de todo o país responderam a um questionário com 180 perguntas agrupadas em nove dimensões:
•Bem-estar psicológico
•Uso do tempo
•Vitalidade da comunidade
•Cultura
•Saúde
•Educação
•Diversidade ambiental
•Nível de vida
•Governo

Essas são algumas perguntas do questionário: "Você definiria sua vida como: a) Muito estressante; b) Um pouco estressante; c) Nada estressante; d) Não sei". "Você perdeu muito o sono por causa de suas preocupações?". "Percebeu mudanças no último ano no desenho arquitetônico das casas do Butão?". "Em sua opinião, quão independentes são os nossos tribunais?". "No último mês, com que frequência você socializou com seus vizinhos?". "Você conta contos tradicionais a seus filhos?".

Uma vez processada a informação das pesquisas, determina-se em que medida cada lar alcançou a suficiência em cada uma das nova dimensões, estabelecendo valores de corte. A cada indicador em que um lar alcançou ou superou o valor de corte, atribui-se um zero. Quando o pesquisado não chegou ao valor de corte de um indicador, diminui-se o resultado do valor de corte e se divide o resto pelo próprio valor de corte. Por exemplo, se o limite da pobreza é 8, e o pesquisado alcançou 6, o resultado é (8-6) / 8 = 0,25.

Então, como se determina quem é feliz? É feliz aquela pessoa que alcançou o nível de suficiência em cada uma das nove dimensões (0). E como se determina a felicidade interna bruta? FIB = 1 - (a média do quadrado das distâncias com relação aos valores de corte).

Já temos, pois, o valor da felicidade. Mas é só isso, um número. O passo seguinte é comparar a FIB dos diversos distritos. Compará-la ao longo do tempo. Decompor o índice por dimensões, por gêneros, por ocupações, grupos de idades etc. E assim, a FIB pode ser usada como instrumento para orientar políticas.

Modelo não exportável?

A determinação para medir a felicidade nascida daquele discurso de coroação do quarto rei do Butão pode ser vista como um caso pitoresco ou enternecedoramente naïf a partir das poderosas economias ocidentais. Mas a mesma inquietação começa a ocupar as agendas de influentes presidentes e eminências da economia em nível mundial. Em fevereiro de 2008, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, criou a Comissão Internacional para a Medição do Desempenho Econômico e o Progresso Social, devido, nas palavras de seu diretor, o professor da Universidade de Columbia e prêmio Nobel de Economia, Joseph E. Stiglitz, "à sua insatisfação, e a de muitos outros, com o estado atual da informação estatística sobre a economia e a sociedade".

"A grande interrogação", continuava Stiglitz, "implica em saber se o PIB oferece uma boa medição dos níveis de vida". E os resultados da comissão, apresentados no último mês de setembro, confirmaram as suspeitas de Sarkozy: o PIB é utilizado de forma errônea quando aparece como medida de bem-estar. Mas também há quem advirta sobre os riscos de ampliar a variedade de estatísticas econômicas, que poderia permitir que os governos se agarrem a umas ou outras como quiserem, em detrimento da objetividade.

O Butão não deve ser (nem pretende ser) um exemplo para outros Estados. As peculiaridades do país tornam sua experiência não exportável. O Butão é uma das menores economias do mundo, baseada na agricultura (à qual 80% da população se dedica), na venda de energia hidráulica para a Índia e no turismo. E é um país altamente dependente da ajuda externa. A taxa de alfabetização é de 59,5%, e a expectativa de vida, 62,6 anos.

Provavelmente, o conceito da FIB soe como chinês às remotas tribos de pastores nômades do leste, que se vestem com peles de yak, praticam uma religião animista e oferecem animais sacrificados a seus deuses nas montanhas. E ainda mais aos 100 mil cidadãos da minoria étnica nepali que vivem em campos de refugiados no Nepal desde o começo dos anos 90, depois de terem sido expulsos do Butão pelo governo.

Mas em 2007 o Butão foi a segunda economia que mais rápido cresceu no mundo. A educação, gratuita e em inglês, chega hoje a quase todos os cantos do país. Em um estudo realizado em 2005, 45% dos butaneses declarou se sentir "muito feliz", 52% reportou sentir-se "feliz", e só 3% disse não ser feliz. No "Mapa-Múndi da Felicidade", uma investigação dirigida pelo professor Adrian White, da Universidade de Leicester (Reino Unido) em 2006, o Butão foi o oitavo país mais feliz dos 178 países estudados (atrás da Dinamarca, Suíça, Áustria, Islândia, Bahamas, Finlândia e Suécia). E era o único entre os 10 primeiros com um PIB per capita muito baixo (5.312 dólares em 2008, seis vezes menor do que el espanhol).

O sol ilumina intensamente a cidade de Thimpu neste sábado pela manhã. A vida transcorre sem pressa. As tendas do mercado de verduras oferecem os ricos produtos autóctones. Há deliciosas pimentas vermelhas e verdes, lustrosas berinjelas, tomates de árvore, dezenas de tipos de maças e arroz vermelho do Himalaia. Há orquídeas, cuja uma das variedades é comestível, contribuindo com uma textura fibrosa e um sabor amargo aos molhos de pimenta ou de carne. E há noz de areca que, untada com lima e envolvida em folha de betel, tinge de vermelho os dentes e os escarradores dos butaneses que a mastigam, envolvidos em seu leve efeito narcótico. Um substituto do tabaco, cuja venda é proibida no país.

Alguns jovens celebram um campeonato de tiro com arco, o esporte nacional, e dançam e entoam canções tradicionais quando sua equipe acerta o alvo colocado a 145 metros de distância. Outros dormem depois de se divertir até altas horas da noite em karaokês e clubes não muito diferentes do que se pode encontrar em qualquer pequena cidade ocidental. Thimpu tem um certo ambiente urbano, mitigado pelo fato de que, por lei, os edifícios devem ser construídos seguindo determinadas regras da arquitetura tradicional.

A maioria das pessoas, inclusive aqui na cidade, veste a veste tradicional butanesa, que a lei impõe em determinadas áreas públicas, para reforçar a identidade cultural butanesa (um dos pilares da FIB). O dos homens é um vestido de uma só peça de tecido que chega até os joelhos e é atada com um cinturão. As mulheres usam um vestido até os tornozelos. Nos atos oficiais, os homens usam um grande cachecol, chamado de kabney, cuja cor indica o cargo da pessoa: amarelo para o rei, laranja para os ministros e outras autoridades seletas, azul para os parlamentares, branco para o povo comum.

Lyonpo Sonam Tobgye, presidente do Poder Judicial, é um dos poucos butaneses que pode usar a kabney laranja. E seu uniforme particular se completa com uma imponente espada que leva amarrada na cintura. "A espada é o poder, e a kabney é a honra. Quando me aposentar, a espada vai embora, mas a kabney fica", diz, e solta uma sonora gargalhada, sentado em seu escritório, presidido (adivinhem) por uma fotografia do quarto rei do Butão. Foi ele quem o rei encomendou, há exatamente oito anos, para dirigir a comissão que se encarregaria de redigir um rascunho de Constituição para o Butão. Talvez o primeiro grande passo para converter o Butão em uma democracia.

A construção de uma democracia

O que é habitual na história é que a democracia seja uma conquista do povo, produto muitas vezes de sangrentas lutas e revoluções. Mas no caso do Butão a democracia chegou pelo empenho do quarto rei, contra a vontade da maioria de seus súditos.

Em dezembro de 2005, Jigme Singye Wangchuck anunciou que abdicaria em favor de seu primogênito e que seriam realizadas eleições. "A democracia não entrou da noite para o dia", explica Lyonpo Sonam Tobgye, com a espada assomando por baixo de seu kabney laranja. "Foi um longo processo. Quando sua majestade disse que era preciso fazer uma Constituição, a ideia não foi aceita pelo povo. Não queríamos uma Constituição. Estávamos muito bem com o nosso passado. Tínhamos desenvolvimento, segurança, tínhamos progredido. Mesmo assim, sua majestade insistiu que era importante que tivéssemos uma Constituição. E o povo aceitou suas palavras, porque confiamos nele".

O comitê estudou "umas cem" constituições estrangeiras. Depois, ficaram com cerca de 20. Entre elas, uma lhes inspirou especialmente: a espanhola. "Lemos uma e outra vez", lembra. "É uma boa constituição. É muito progressistas. E você têm, como nós, uma monarquia constitucional. Vou lhe confessar uma coisa: lemos um pouco tarde. Se a tivéssemos visto antes, talvez não teríamos estudado tantas outras".

Entregaram um rascunho depois de 10 meses, que foi colocado na Internet para que os cidadãos e o mundo exterior o vissem. "Recebemos cerca de 400 comentários de todo o mundo: intelectuais, universidades, organizações de direitos humanos. Estudamos tudo isso, fizemos outro rascunho, e este foi distribuído ao povo".

Os reis, pai e filho, percorreram então todo o país, até as aldeias mais remotas, e celebraram reuniões nos povos para explicar e discutir o rascunho da Constituição. No dia 18 de julho de 2008, foi aprovada uma carta magna sem pena de morte para um país cujo delito mais comum é o espólio do patrimônio artístico e cujo artigo 9.2 estabelece: "O Estado se esforçará para promover as condições que permitam a obtenção da felicidade interna bruta".

No dia 24 de março de 2008, foram celebradas as eleições parlamentares. Apresentaram-se dois partidos, e quem ganhou (45 das 47 cadeiras) foi o Partido da Paz e da Prosperidade, do atual primeiro-ministro, Jigmi Thinley. E há um ano, em novembro de 2008, Jigme Khesar Namgyel Wangchuck, de 28 anos, filho de Jigme Singye Wangchuck, converteu-se no quinto rei do Butão, o primeiro monarca constitucional do país.

O sangue do novo rei reúne duas legitimidades. A de seu pai, dinastia que reina o Butão desde 1907, e a de sua mãe, que descende de Ngawang Mamgyal, líder de uma escola de budismo tibetano que, em 1616, exilou-se no que hoje é o Butão, aos 23 anos, e se converteu no primeiro governante do Butão unificado. O território se chamava então (ainda hoje é chamado assim por muitos butaneses) Druk Yul, ou a Terra do Dragão do Trovão. E foi outorgado ao líder o título de Zhabdrung, ou "aquele a cujos pés deve-se submeter".

Seu corpo embalsamado é guardado na torre central do Punakha Dzong, também conhecido como Templo da Felicidade, sede do poder medieval, onde foram coroados os cinco reis modernos. Uma joia da arquitetura butanesa, que o próprio Zhabdrung mandou construir na interseção de dois velozes rios, um macho e outro fêmea (isso dizem), em um promontório com uma trompa que cai até a água. O Guru Rinpoche, santo padroeiro do Butão, que trouxe o budismo tântrico para estas montanhas, já havia advertido no século VIII antes de Cristo: algum dia, disse, em um lugar que parece um elefante morto, alguém chamado Ngawang erguerá um templo. E se tiver êxito, unificará um país.

Potência em natureza

O carro avança pela serpenteante rodovia, e seria possível passar horas olhando as formas que as nuvens que parecem de algodão desenham contra o azul brilhante do céu e o manto verde intenso com que os frondosos bosques cobrem as importantes montanhas que rodeiam o valor de Punakha. Restam poucos dias para a colheita dos campos de arroz, que são semeados em junho, antes da monção, e que conferem ao vale uma cor queimada neste início de outono.

A maconha cresce livre nas valetas, mas só recentemente houve algum problema com o seu tráfico e cultivo. Tradicionalmente, ela tinha usos mais exóticos. Como lembra um ancião do lugar, nos internatos, os jovens untavam com maconha o solo para que os percevejos a comessem, andassem mais lentamentos e despistadas, e assim fosse mais fácil caçá-los.

O Butão é uma potência em plantas medicinais. "Os botânicos estrangeiros que vêm não dão crédito", explica Karma Phuntsho, do Escritório para a Pesquisa de Plantas Medicinais e Aromáticas. Entre as espécies mais estranhas está a yagtsa guen bub, ou "erva de verão e larva de inverno". Cresce a partir de 4.000 metros de altitude e é, ao mesmo tempo, animal e vegetal. Uma larva que afunda sob a terra e que, de sua cabeça, brota uma espécie de planta ou fungo, cujo corpo se converte em raiz. Tem propriedades rejuvenescedoras e afrodisíacas, e em Bangkok paga-se 10 mil dólares pelo quilo.

No sistema de saúde butanês, para doenças leves, os cidadãos podem escolher entre a medicina tradicional e a ocidental. E a exportação de plantas medicinais, explica Phuntsho, "tem um grande potencial para o país". "Contanto", adverte, "que sempre seja realizada de maneira sustentável".

Neste momento, a economia do Butão confia na bravura de seus rios para gerar energia hidráulica (esperam multiplicar por cinco sua produção nos próximos anos) e no turismo, uma indústria que nasceu nos anos 70. Nesse campo, segue-se uma política, entroncada com a filosofia da FIB, de "poucos visitantes, mas muito valor". O turista deve pagar uma tarifa de 220 dólares por dia, que inclui alojamento, refeições, entradas em museus, deslocamentos interiores e guia. Trata-se de manter um volume rentável, mas moderado, e evitar catástrofes ecológicas, estéticas e sociais como a que o turismo massivo provocou no vizinho Nepal.

E assim até que o país seja autossuficiente e deixe de depender da ajuda externa. "Fazemos um bom uso das ajudas. Há pouca corrupção, e os doadores gostam de se associar à ideia da FIB. Mas haverá um momento em que a ONU irá considerar que podemos nos valer por nós mesmos", explica o ministro Lyonpo Thinley Gyamtso. "Somos um país pequeno e queremos fazer as coisas assim. Não queremos ensinar nada ao mundo. Fazemos aquilo que acreditamos que é melhor para nós. E se o mundo acreditar que há algo para aprender, são mais do que bem-vindos".

Fonte: IHU Notícias

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