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sábado, 15 de novembro de 2008

O livre-arbítrio

A vontade quer o bem. Mas os bens deste mundo são muitos, são imperfeitos e são diferentes; a vontade pode escolher entre eles: daí o livre arbítrio de que é dotado o ser humano. Em geral, a liberdade é o poder de fazer ou deixar de fazer alguma coisa. Estar livre é estar isento de vínculos; daí, serem tantas as formas de liberdade quantos são as espécies de vínculos, que podem ser classificados em físicos e materiais, que forçam à inércia ou ao movimento, e em morais, que prescrevem certos atos e proíbem outros, sem tirar ao homem o poder de os omitir ou de os executar; estas, são as leis e as obrigações, ou deveres. O maçom precisa ser não só livre de vínculos, mas precisa também ser de bons costumes.
O livre arbítrio é o poder que tem a vontade de se determinar por si mesma, por sua própria escolha, a agir ou não agir, sem ser constrangida a isso por força alguma, externa ou interna.
Assim, entre dois ou mais pensamentos que nos solicitam em sentidos opostos, o livre arbítrio decide qual deles seguirá. Do mesmo modo que, em um litígio, as partes recorrem a um árbitro, assim também atua o livre arbítrio, que decide em favor de uma ou de outra parte.
Ele – livre arbítrio – é prerrogativa essencial do ser humano; a violência pode privá-lo da liberdade física e a autoridade pode restringir a sua liberdade moral; no entanto, o seu livre arbítrio está acima de tudo; enquanto conservar a razão, ele será sempre livre para querer ou não querer.
AS PROVAS MORAIS
As provas morais da existência do livre arbítrio baseiam-se no fato da obrigação e da responsabilidade (o remorso e o mérito são conseqüências da responsabilidade). Com efeito, só nos sentimos moralmente responsáveis pelos atos de que somos a causa livre, isto é, pelos atos cuja execução – ou não execução – só dependem de nós. Os atos de que não podemos nos abster, podem se constituir em motivo de alegria ou de tristeza, mas não serão motivos de remorso ou de insatisfação moral.
AS PROVAS SOCIAIS
Todas as sociedades possuem sanções que têm por objeto a recompensa ou a punição de certos atos. O castigo só é justo, e a recompensa só é lisonjeira, quando são merecidos; por sua parte, o mérito supõe o livre arbítrio.Leibniz e os deterministas não admitem esta prova. Para eles, o castigo se justifica como meio de defesa para a sociedade e como meio de intimidação para aqueles que pensam em prejudicá-la. Leibniz conclui que os castigos e as recompensas seriam justificados, ainda que as ações do homem fossem motivadas pela necessidade.
O livre arbítrio se demonstra também pelas promessas e pelos contratos, por meio dos quais os homens se comprometem mutuamente a cumprir certos atos em determinadas circunstâncias. É evidente, com efeito, que não podemos nos comprometer com antecipação a um ato, se não estivermos certos de que esse ato depende da nossa livre vontade.
A PROVA METAFÍSICA
O homem não conhece somente os bens particulares e concretos; por meio da razão, graças à noção abstrata do bem, eleva-se à noção do bem absoluto, no qual não existe o mal. Deste modo, a escolha fica restrita a bens particulares que se opõem, mas que sempre são bens, ainda que de outra ordem. Assim, o ser humano se encontra sempre em presença de uma ou outra escolha, e a indeterminação da sua vontade mantém-se até ele a quebrar, decidindo-se por um ou outro bem; nisto consiste precisamente o livre arbítrio. Exposta a natureza do livre arbítrio, demonstrada a sua existência, resta conhecer um pouco os sistemas que o rejeitam.
O DETERMINISMO
Determinismo é todo o sistema que nega o livre arbítrio, e afirma que o homem está submetido a certas influências. Chama-se Fatalismo à forma especial de determinismo, que atribui todos os nossos atos voluntários a uma causa transcendente, superior a toda a regra. As teorias deterministas podem reduzir-se a três tipos: o Fatalismo Teológico, que se fundamenta nos argumentos da natureza de Deus; o Fatalismo Científico, que se baseia nas leis gerais do mundo; e o Fatalismo Psicológico ou Fisiológico, que se baseia nas leis da natureza humana.
O FATALISMO PANTEÍSTICO
É evidente que todo o sistema panteísta leva à negação do livre arbítrio. Esta espécie de fatalismo refuta-se do mesmo modo que o panteísmo em que se origina, pela consciência da nossa livre personalidade.O panteísmo é a teoria que afirma a identidade substancial de Deus e do mundo, isto é, Deus e o mundo são uma só e a mesma substância, considerada sob diversos aspectos. Na história da filosofia o panteísmo aparece sob duas formas:
a) O Panteísmo naturalista, que absorve o infinito no finito, Deus no mundo, e tende assim ao materialismo e ao ateísmo.
b) 0 panteísmo idealista, que absorve o finito no infinito, o mundo em Deus, e leva ao puro fenomenismo. Também neste caso, o ateísmo é a alternativa.
FATALISMO TEOLÓGICO
Segundo este fatalismo, Deus, inteligência infinita, conhece, desde a eternidade, os nossos futuros atos. Como diria um muçulmano, Maktub – estava escrito e determinado por Deus no livro do destino. Esta teoria não se sustenta, porque Deus não está submetido à duração sucessiva do tempo, porque nem o futuro nem o passado existem para Deus, mas tão somente o presente eterno, o qual, na sua indivisível simplicidade, abraça todos os tempos passados e futuros. Assim sendo, Deus não prevê o que sucederá; Ele vê o que existe, como existe, e porque existe. Deste modo, sendo a presciência divina e a liberdade humana duas verdades igualmente certas, nada autoriza a negação de nenhuma destas verdades.
O LIVRE ARBÍTRIO E O DETERMINISMO UNIVERSAL
É princípio fundamental que os fenômenos estão unidos entre si por meio de relações necessárias, de modo que cada um deles tem a sua razão necessária e suficiente naquele que o precede. Isto não se verifica no ato suposto livre, que é, por definição, um fenômeno que não está ligado – necessariamente – a nenhum dos seus antecedentes.Considerando que a vontade, colocada sucessivamente em circunstâncias idênticas, pode tomar decisões opostas, conclui-se que o ato livre não está em oposição ao princípio de causa e efeito.
O LIVRE ARBÍTRIO E A CONSERVAÇÃO DA ENERGIA
Nada se perde e nada se cria na natureza; não existem senão transformações, princípio este que se aplica às forças e às substâncias. Se é verdade que esta lei se aplica no domínio da física e da química, o mesmo não acontece no domínio da atividade livre. A decisão livre em si mesma, como força imaterial, escapa à lei da conservação da energia; a força corporal necessária à execução da vontade, já existe nos músculos do corpo e se alimenta pela nutrição; O papel da vontade livre se limita a dirigir, neste ou naquele sentido, a transformação destas forças.
O DETERMINISMO FISIOLÓGICO
O determinismo fisiológico diz que os atos voluntários são apenas as reações do organismo, que resultam das influências exteriores. Neste caso, a vontade nada mais é do que a resultante de todas as forças que atuam sobre o ser humano. E se os homens não atuam todos do mesmo modo é porque são diferentes em sua conformação. Assim pensaram Cabanis, Broussais, Taine, e todos os materialistas.A verdade é que, pela reflexão, o homem tem o domínio de si mesmo, e a sua vontade conserva sempre o poder de resistir aos incitamentos, quaisquer que sejam eles. Para o determinista fisiológico, a virtude se confunde com um temperamento sadio, e o vício se confunde com a doença. Esta teoria materialista suprime a moral por completo.
O DETERMINISMO PSICOLÓGICO
Este sistema, desenvolvido por Leibniz, afirma que as decisões da vontade são sempre determinadas por um forte motivo. Segundo Leibniz, a vontade é uma atividade inteligente, e nunca se decide sem um bom motivo. Neste caso, se uma decisão é tomada tendo por base um forte motivo, então esta decisão não é tomada livremente, segundo o princípio do livre arbítrio.
A verdade é que nem sempre se faz o que se julga ser o melhor. A consciência nos diz que uma decisão não é função de um impulso, mas sim o resultado de um ato livremente praticado. Leibniz andou longe da verdade quando comparou a vontade a uma balança, que pende sempre para o lado que estiver mais pesado. Sem dúvida, a decisão consiste em pesar os motivos; mas não se pode esquecer que esta operação é da inteligência, cujos juízos são determinados pela evidência. Mas não é por isso que a vontade fica menos senhora de suas decisões, apesar do atrativo mais intenso do prazer, do conselho mais ajuizado do interesse, ou da ordem mais forte do dever. É precisamente nisto que consiste o livre arbítrio.
Concluindo, pode-se dizer que o livre arbítrio é uma faculdade da vontade humana, e da sua capacidade de escolher entre o bem e o mal, entre o certo e o errado. O livre arbítrio consiste em escolher entre os impulsos dos desejos, os cálculos do interesse, e as idéias da razão. É, assim, a condição da moralidade, que quer o bem pelo próprio bem. Passível de variações de pessoa para pessoa, o livre arbítrio varia de acordo com o desenvolvimento da reflexão e do domínio que o homem possa ter sobre os seus apetites e os seus desejos. Ele é mais forte na idade madura do que na infância, pode ser aperfeiçoado, mas nunca suprimido pelo temperamento, pelas paixões, pelo caráter ou pelos hábitos, que são os princípios das virtudes e dos vícios.
Em síntese, o livre arbítrio é a principal ferramenta que o maçom precisa usar no desbaste da Pedra Bruta, no seu aperfeiçoamento como ser humano, na subida da Escada de Jacó, na busca do Eu Superior, o Grande Arquiteto do Universo.
Bibliografia
Descartes Hobbes Kant Leibniz Locke Spinoza Schopenhauer
ANTÓNIO ROCHA FADISTAM

terça-feira, 28 de outubro de 2008

A humanidade está louca?


Silvia Malamud, psicóloga, silvimak@gmail.com
Loucura é sofrer e concluir que viver desta maneira é normal. Loucura também é estar parado no tempo se repetindo indefinidamente nos mesmos padrões. Loucura é ficar no conhecido "piloto automático" tendo um tipo de reatividade para cada demanda que a vida nos incita e sequer se dar conta de que não há qualquer autonomia sobre si mesmo, portanto, sobre a própria existência.
Num processo gradativo, a nossa percepção pouco a pouco acabou sendo minada. Passamos a achar normal uma vida medíocre sem grandes entendimentos sobre nós mesmos. Pensamos ser normal correr atrás de uma ganância desenfreada alimentada por uma competição atroz.
Pouco a pouco, perdemos a referência de quem somos e o pior é que passamos a achar que a baixa qualidade de prazer que temos na vida é normal. Não nos apropriamos de nós mesmos e, como conseqüência, deixamos de existir como consciências quânticas que somos, passando a funcionar num limiar muitíssimo baixo.
Através de uma comprometida busca pelo encontro com o que nos é pessoal, os nossos processos de lucidez e de emancipação do eu autogerador de um si mesmo consciente e, portanto, criativo, têm portas abertas para se inaugurar. A preconização é de que estejamos lúcidos, atuantes, criativos e prazerosos em todos os nossos processos, que nada mais são do que as jornadas conscienciais do nosso dia-a-dia.
À medida que nos libertarmos de sistemas de crenças aprisionantes, bem como de tudo o que nos mantêm grudados numa tela de aparente movimento, estaremos exatamente no caminho da lucidez. Neste sentido, todo processo de crise existencial é bem-vindo como válvula propulsora de uma transformação pessoal.
Nesta etapa, pela experimentação consciente e totalmente vitalizados, estaremos na nota do prazer, em busca dos mais diversos tipos de conhecimento e em conseqüência, a cada nova descoberta teremos a oportunidade de nos renovarmos. Levamos um enorme tempo nos alimentando por critérios morais impostos e auto-impostos, por noções de certo e errado e por tudo o mais deste orbe que costuma nos compor. Ocorre que todos nós, ao menos uma vez na vida, num determinado instante somos acometidos por uma espécie de "ataque de lucidez" onde passamos a ser e a pensar por nós mesmos questionando toda essa "engenhoca" na qual nos transformamos.
Quase sempre no início da idade adulta, quando já estamos identificados com tudo o que diz respeito a este plano, é que podemos começar a ter vislumbres de percepção de existirmos em nós mesmos. A seguir, costuma acontecer uma sensação de "descolamento". É quando nos percebemos existindo independentes de qualquer sistema em que estejamos inseridos.
Depois desta percepção, que dependendo da pessoa poderá acontecer com maior ou menor intensidade, é bastante comum seguir os mais diversos rumos de acordo com a ampliação da consciência que este eu percebido promove em cada um de nós.Este momento também pode passar de modo obscuro para a grande maioria e para outros pode causar um enorme impacto na medida em que se tem um vislumbre da unidade que todos nós somos.
Mesmo que seja por apenas um instante, esta sensação/percepção do UM é extremamente delicada, posto que é neste ponto que a consciência, assolada pelo medo do desconhecido pode seguir o caminho que envolve uma possível paralisação existencial. Através de profundas experiências individuais ocorre a possibilidade de transcender os limites impostos pelas crenças assimiladas como únicas verdades. É neste momento que começamos a ter consciência do que significa a existência em si.
Para falarmos deste estado de consciência de si mesmo e da sanidade, precisaremos entrar em contato com algumas das vertentes que norteiam a psique humana e observar a sua singularidade. Portanto, aqui cabe um foco de alta definição se você estiver neste tipo de busca de encontro consigo mesmo.
Esta jornada pela sua lucidez na certa vai impulsioná-lo a buscar parceiros que possam compartilhar desses seus momentos de transformação e de resgate de si mesmo. A idéia é que de fato você busque parcerias adequadas e tome um cuidado especial para que não entre em algum outro tipo de sistema de crença camuflado que vende ilusões de idéias sensacionalistas sobre significados de como que se alcançar um suposto nirvana.
O nirvana está na capacidade da presença autoconsciente no agora. Isso mesmo, na lucidez que se tem a cada microssegundo de nossas vidas. No prazer que este status nos oferece e na mais absoluta certeza de que isso sim é que é estar plenamente sentindo-se vivo e, por conseqüência fora de qualquer espécie de insanidade.
Busque parcerias que possam estar na mesma senda que você, mas seja extremamente criterioso nessa busca.
Evite escorregar em padrões conhecidos. Fique atento porque este lugar aqui proposto requer um esforço inicial para que uma mudança efetiva se inaugure em você. Se acaso se perceber muito mental ou só emocional, saiba que está caminhando na direção oposta do que procura.
A parceria pode ser por meio de yoga, terapia, meditação ou por algum assunto que o envolva em criatividade e elaboração. Sempre elaboração sobre o vivenciado e esta pode vir em forma de insights e pensamentos, mas invariavelmente deverá acontecer, para que o agora esteja efetivamente presente e dinamizado em todos os seus momentos.

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