Mostrando postagens com marcador vítima. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador vítima. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 1 de maio de 2009

A Excomunhão


EXCOMUNHÃO DA VÍTIMA

Miguezim de Princesa
I
Peço à musa do improviso
Que me dê inspiração,
Ciência e sabedoria,
Inteligência e razão,
Peço que Deus que me proteja
Para falar de uma igreja
Que comete aberração.
II
Pelas fogueiras que arderam
No tempo da Inquisição,
Pelas mulheres queimadas
Sem apelo ou compaixão,
Pensava que o Vaticano
Tinha mudado de plano,
Abolido a excomunhão.
III
Mas o bispo Dom José,
Um homem conservador,
Tratou com impiedade
A vítima de um estuprador,
Massacrada e abusada,
Sofrida e violentada,
Sem futuro e sem amor.
IV
Depois que houve o estupro,
A menina engravidou.
Ela só tem nove anos,
A Justiça autorizou
Que a criança abortasse
Antes que a vida brotasse
Um fruto do desamor.
V
O aborto, já previsto
Na nossa legislação,
Teve o apoio declarado
Do ministro Temporão,
Que é médico bom e zeloso,
E mostrou ser corajoso
Ao enfrentar a questão.
VI
Além de excomungar
O ministro Temporão,
Dom José excomungou
Da menina,
sem razão,
A mãe, a vó e a tia
E se brincar puniria
Até a quarta geração.
VII
É esquisito que a igreja,
Que tanto prega o perdão,
Resolva excomungar médicos
Que cumpriram sua missão
E num beco sem saída
Livraram uma pobre vida
Do fel da desilusão.
VIII
Mas o mundo está virado
E cheio de desatinos:
Missa virou presepada,
Tem dança até do pepino,
Padre que usa bermuda,
Deixando mulher buchuda
E bolindo com os meninos.
IX
Milhões morrendo de Aids:
É grande a devastação,
Mas a igreja acha bom
Furunfar sem proteção
E o padre prega na missa
Que camisinha na lingüiça
É uma coisa do Cão.
X
E esta quem me contou
Foi Lima do Camarão:
Dom José excomungou
A equipe de plantão,
A família da menina
E o ministro Temporão,
Mas para o estuprador,
Que por certo perdoou,
O arcebispo reservou
A vaga de sacristão.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Com um pé atrás

Ando cada vez mais cético. Olha só esse escândalo da operação Satiagraha, com o delegado Protógenes. O herói que prendeu o banqueiro desonesto agora é o indiciado que passa por cima da Constituição e abusa de seu poder de polícia. Mas basta sair às ruas para ver a manifestação pró Protógenes numa esquina e a manifestação contra Protógenes na outra... Todos cheios de razão. Afinal, ele é mocinho ou bandido?
Algum tempo atrás Oscar Niemeyer fez 100 anos. A vida toda li e ouvi que ele é o grande nome da arquitetura brasileira, admirado em todo o mundo, criador de obras que entraram para a história da humanidade. Mas na comemoração de seu centenário, dezenas de críticos caem de pau. Ele seria apenas um bom escultor e péssimo arquiteto. Faz coisas bonitas, mas impossíveis de serem habitadas. E é comunista. Prega um mundojusto, de paz entre os homens, mas defende regimes como o de Fidel Castro, Stalin e outros assassinos.
Pelé é o maior jogador de futebol do mundo, personagem requisitada e sempre presente nos mais importantes eventos globais. Mas a crítica caide pau sobre ele desde que afirmou uns trinta anos atrás que o brasileiro não sabia votar. Pelé era bom de bola, mas tem que ficar de bocafechada...
Aprendi na escola que os Bandeirantes foram os grandes heróis brasileiros, os homens destemidos que conquistaram o Brasil, derrotando osíndios selvagens. Para descobrir mais tarde que eram bandidos sanguinários.
E os espanhóis que conquistaram a América Latina? Admiráveis guerreiros e navegadores que descobriram novos mundos e acabaram com costumesselvagens das tribos que sacrificavam seres humanos. Mas um outro ângulo diz que eles eram saqueadores, genocidas. Exploradores.
E Che Guevara? O herói romântico que embalou os sonhos de várias gerações? Surge agora como um psicopata que matava por prazer, não tomavabanho e foi o covarde que implorou para não ser morto.
E os estadunidenses que lutaram contra o comunismo e salvaram povos de massacres perpetrados por ditadores perversos? Admiráveis, não é? Mas são os exploradores capitalistas, invasores em busca de riquezas naturais, que destroem as culturas regionais, etc etc etc.
Lula? É amado por uns, odiado por outros. Como Bush. Obama. Bento 16. Chaplin. John Lennon. Jesus Cristo. Gandhi. Juscelino... até Deus! Escreva aqui o nome de quem você quiser. Sempre aparecerá alguém com uma história que ninguém sabia, comprovando que ele ou ela tem ou tinha um comportamento questionável que deve ser criticado. Ninguém mais é absolutamente bom. E, se um dia foi, era por falta de informação de quem o admirava... E para piorar temos cada vez menos tempo para dedicar aos estudos, à reflexão. E assim o tempo passa a ser inimigo do entendimento e da coerência. Pressionados pelo tempo ouvimos rapidamente, lemos rapidamente e tiramos nossas conclusões incertas e superficiais.
É duro admitir, mas aos cinqüenta anos de idade fico a cada dia mais cético. Não tenho mais segurança para defender ninguém que eu não conheça profundamente. Acabaram o preto e o branco. Tudo ficou cinza quando mergulhamos na era da informação: temos toda ela à nossa disposição, contra, a favor ou muito pelo contrário. E precisamos selecionar. Julgar. E escolher. Por isso fica cada vez mais importante ser cético. Mas não o cético-burro, que adota o ceticismo como postura política perante o mundo, que não acredita em nada. O ceticismo que me interessa é o ceticismo como método, acreditando que a certeza, o preto, o branco, o bom e o mau são possíveis, sim senhor.
Mas sempre com um pé atrás.
Luciano Pires
http://www.lucianopires.com.br/

Seguidores

Visualizações nos últimos 30 dias

Visitas (clicks) desde o início do blog (31/3/2007) e; usuários Online:

Visitas (diárias) por locais do planeta, desde 13/5/2007:

Estatísticas