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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

1. Questão de honra

Houve um tempo em que tudo girava em torno dela: ter honra era ser um legítimo membro da tribo; não ter, preferível morrer. O conceito de honra, na sua interpretação mais tradicional, nasceu na Grécia antiga, foi remodelado em Roma e reemergiu na Idade Média. "Na época feudal, a honra era uma qualidade atribuída aos nobres, essencialmente guerreiros, cuja função social era proteger o rei, as crianças e as mulheres", diz Roberto Romano, professor de ética e filosofia da Unicamp. Hoje, a HONRADEZ pode ser mais relacionada à fidelidade aos próprios princípios ou ao próprio eu. Ou, no popular, ter vergonha na cara. É por isso que o tribunal da própria consciência continua a pesar mesmo quando se alega que "todo mundo faz", a começar dos "caras lá de cima", então "que mal tem" em levar a avozinha para passar na frente na fila de comprar ingresso, desrespeitar a precedência na hora de pegar uma vaga no estacionamento do shopping ou deixar uma toalha guardando lugar o dia inteirinho na espreguiçadeira da piscina disputada? O mal, evidentemente, está em desprezar a própria dignidade.

O fato
Nelson Almeida/AFP

É difícil imaginar exemplo mais completo de desonra que o do piloto NELSON PIQUET JÚNIOR. Ameaçado de demissão da escuderia Renault, ele confessou bem a posteriori ter concordado em fraudar o Grande Prêmio de Fórmula 1 de Singapura no ano passado. A certa altura da corrida, para facilitar a situação de seu companheiro de equipe, Fernando Alonso, Nelsinho recebeu a ordem de bater seu carro contra um muro. Obedeceu. Os privilégios de nascimento - bonito, rico, sobrenome famoso - agravam o tamanho da indignidade cometida contra si mesmo e do mau exemplo dado à sociedade.

A análise

"Ser honrado, hoje em dia, significa ser portador de exemplaridade para uma comunidade. E, para ser exemplo, o sujeito precisa ser probo em todos os aspectos da vida dele. Não basta, por exemplo, ser só bom médico ou bom piloto. É preciso ser bom pai, bom marido, um sujeito respeitoso e incorruptível", diz o cientista político Bolívar Lamounier.

Original em:

http://veja.abril.com.br/041109/pequeno-manual-civilidade-p-108.shtml

sábado, 12 de setembro de 2009

Vergonha na cara

Oi!
Tava relendo o post anterior, em que foi publicada a minha crônica de quarta-feira em Zero Hora, e me dei conta de como é delicado julgar os outros - e no entanto é o que mais fazemos, o tempo todo. Quando eu escrevo (ou qualquer pessoa escreve) que o consumismo anda desmedido, está passando a informação de que é uma pessoa diferente, que o seu próprio consumismo é controlado. Cada vez que criticamos alguém, estamos nos auto-elogiando. Isso é uma sinuca... Mas uma sinuca inevitável, e isso me veio à cabeça porque estava lendo sobre dois acontecimentos recentes e pensei: e se fosse comigo? É com essa pergunta que a gente testa se estamos sendo realmente honestos na nossa crítica ou se estamos apenas jogando pra torcida.
Um desses acontecimentos foi a eleição do ex-presidente e atual senador Fernando Collor como o mais novo imortal da Academia Alagoana de Letras. Como se sabe, todo pretendente se candidata à vaga, e trabalha por ela, faz campanha. De campanha o Collor entende, mas de literatura? Recebeu 22 votos a favor e oito em branco - nenhum contra. Eu considero isso uma piada, mas o que mais me surpreende é a cara-de-pau. Suponhamos que não tenha sido ideia dele, e sim de um baba-ovo que tenha sugerido: "Fernando, candidate-se a uma vaga na Academia de Letras, seus artigos e discursos são literatura da maior qualidade, e será mais um momento de holofote em sua carreira, você ficará ainda mais prestigiado aqui na nossa terra, vamos lá, honre seu sobrenome". Collor vem de uma linhagem de políticos reconhecidos, mas Academia de Letras é local de escritor, até onde sei - o que não impede que Sarney e Marco Maciel sejam imortais da ABL. Mas voltando à cena imaginária: como um homem ou mulher sensata responderia à sugestão? "Meu caro, obrigada pela gentileza da lembrança, mas meu negócio é política, nunca publiquei um livro, nunca colaborei para a vida intelectual do país, vamos deixar isso para poetas e romancistas, eu já tenho visibilidade suficiente no que faço". E encerrava a questão. Mas isso é o que eu faria, e provavelmente o que você faria. Collor nem pestanejou.
Outro assunto que me incomodou: a confirmação de que Nelsinho Piquet realmente provocou um acidente de propósito no GP de Cingapura de 2008, uma palhaçada planejada pela Renault para facilitar a vitória de Fernando Alonso. Foi todo mundo pego com as calças na mão: a Renault por desrespeitar os princípios do esporte, o Piquet por não ter a grandeza de se negar ao papelão (ok, ele disse amém pros chefes para garantir a renovação do seu contrato, mas onde fica aquela palavrinha chamada honra, caráter?) e Fernando Alonso por ter aceitado levantar o troféu (no caso de saber antecipadamente da farsa - não sei se sabia). Posso estar parecendo ingênua, já que estamos falando de uma escuderia com muita bala na agulha, ou seja, assunto de gente grande. Mas honradez e caráter não são negociáveis, ao menos não pra mim, e acredito que pra você também não. Até mesmo as facilitações de ultrapassagem entre parceiros de escuderia, razoavelmente explicáveis com o argumento de "trabalho de equipe", me irritam, acho que ferem o espírito esportivo, imagine então provocar um acidente na pista como estratégia. É de uma cafajestada ímpar, sem falar no risco que algumas pessoas correram de sairem feridas, o próprio Nelsinho, inclusive.
Vergonha na cara. Como a gente vê pouco.
Beijo!
Martha Medeiros
Original no blog dela em:

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