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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Temporada de greves


<br /><b>Crédito: </b> ARTE JOÃO LUIS XAVIER
Crédito: ARTE JOÃO LUIS XAVIER

Tem muita gente em greve. Todos com razão. Ninguém faz greve por amor a criar problemas para os outros, ainda que alguns mereçam. As greves surgem, como se diz no jargão das lutas, de necessidades imperiosas. Veja-se o caso da greve dos bancários. É mais do que justa. Só alguém muito reacionário pode condenar a greve dos bancários. Os ganhos dos bancos no Brasil são indecentes, obscenos, pornográficos. Banco é o melhor negócio do mundo. Todo mundo precisa ter uma conta bancária. Tudo passa pelos bancos. Os serviços são os mesmos em todos eles. Os bancos privados adoram se gabar das suas qualidades e fazer de conta que são mais ágeis, eficazes e modernos do que os públicos. É balela. Os caixas eletrônicos do Banco do Brasil são melhores, com interfaces mais amigáveis do que os de todos os bancos privados brasileiros. Banco do Brasil dá mais do que chuchu na cerca. Tem em toda esquina. Só dá o amarelão.

Banco no Brasil ganha muito e paga pouco. Os bancários pedem 5% de aumento real. Os patrões oferecem 0,56%. Por que tanto? Será que não vai faltar para esses pobres banqueiros pressionados por bancários sedentos de dinheiro? Que latinha a desses leitões que passam a vida mamando deitados! O lucro dos bancos cresceu 20,11% no primeiro semestre deste ano, um avanço de R$ 4,3 bilhões em relação ao mesmo período de 2010. É mole? Pois eles não querem dividir o bolo. A vida de banqueiro é dura. Tem de sustentar mansões, coleções de arte, intermináveis viagens luxuosas, familiares ociosos, serviçais de todo tipo, fusões estratosféricas, patrocínios a obras culturais que não decolam e ainda viver sob a terrível tensão das altas frequentes e das raras baixas da taxa Selic. Dá pena. Um sufoco. Um pesadelo. Coitados. Um inferno na Terra. Deve ser por isso que eles são aliviados de certos impostos. Ou não sobreviveriam.

Em 2011, o Itaú já faturou R$ 7,1 bilhões, e o Santander, R$ 4,1 bilhões. Realmente fica difícil, com lucros tão modestos, pensar em transferir uma fatia do bolinho para os empregados. Os impiedosos bancários, além de tudo, querem aumento no vale-refeição. Esse pessoal só pensa em comer. Será que esses banqueiros não sabiam de tudo isso quando escolheram essa atividade insana? Se estão insatisfeitos com tantas reclamações e greves, como parece, por que não mudam de profissão? Será que ficam só por causa desses míseros bilhões faturados no mole a cada ano? É quase impossível ver uma greve injusta. A dos Correios, por exemplo, tem toda razão de ser. As manifestações de brigadianos, no Rio Grande do Sul, exprimem reivindicações justíssimas. Se os professores da rede estadual entrarem em greve, em busca do pagamento do piso fixado por lei nacional, estarão cobertos de razão.

Só tem um jeito de evitar os problemas criados por tantas greves: pagar melhor. Sabe-se que é muito difícil para um banqueiro separar-se do seu rico dinheirinho obtido com tanto sacrifício pessoal, mas não tem jeito, terão de cumprir essa meta. Com esforço e treinamento, eles conseguirão. É só uma questão de empenho e missão.

Juremir Machado da Silva | juremir@correiodopovo.com.br

sábado, 4 de dezembro de 2010

Por um fio

<br /><b>Crédito: </b> ARTE PEDRO LOBO
Crédito: arte Pedro Lobo

Tenho recebido recados de homens ameaçando me capar por causa de "História Regional da Infâmia, o Destino dos Negros Farrapos e outras Iniquidades Brasileiras, ou como se Produzem os Imaginários" (L&PM). Estou disposto a morrer pelo meu livro. Não tenho medo. Sou de Palomas. Mas, se escapar, quero preservar a integridade dos meus órgãos genitais. Ainda pretendo recorrer aos bons serviços deles por muitos anos. Muitos historiadores, como Moacyr Flores, Tau Golin e Mário Maestri, já examinaram vários dos temas abordados por mim. Tenho a convicção de dar alguns passos à frente. Ninguém até hoje abordou como eu a questão da venda de negros no Uruguai para o financiamento do nosso movimento revolucionário, hoje louvado por muitos como tendo sido abolicionista. 

Retomo algumas questões: Bento Gonçalves foi ladrão e contrabandista? Canabarro traiu em Porongos? Os negros farrapos foram entregues ao Império ao final do conflito ou libertados? Nosso hino é um plágio? Morreu muita gente nos dez anos de guerra? Ou morria mais gente de velhice e doença? Acrescento outras: Domingos José de Almeida foi um escravista convicto que vendeu negros para financiar parte do movimento e depois brigou para cobrar a conta? Neto foi acusado de desvio de dinheiro? A divisão entre os farrapos se deu por causa da corrupção que campeava solta? Alguns historiadores pulam partes que lhes parecem sem importância. Não examinam, por exemplo, a polêmica entre Alfredo Varela e Alfredo Ferreira Rodrigues sobre a questão de Porongos. Eu passo o pente-fino em tudo isso.

Precisamos vencer a etapa dos estudos de folcloristas e militares aposentados. A historiadora Daniela Vallandro de Carvalho está preparando na UFRJ tese sobre os negros na Revolução Farroupilha. É tempo de releitura. Varela foi dos primeiros a denunciar a traição em Porongos. Descobriu uma carta assinada por Caxias combinando com Canabarro o massacre dos negros. Rodrigues buscou "provas" para refutar a acusação. Encontrou um depoimento de um suposto testemunha meio século depois dos fatos. Caxias teria assinado a carta, depois dos acontecimentos, apenas para confirmar uma intriga já montada. É frágil, pífio, quase infantil. A assinatura é verdadeira. O conteúdo seria falso. Acontece que outros elementos confirmam a traição. Canabarro tirou a munição da infantaria (não dos lanceiros), que foi massacrada. Há quem prefira crer numa boa e simples coincidência. Uau!

Recebo insultos por e-mail e Twitter. Acompanho o silêncio da grande imprensa. A mídia brasileira vem abrindo espaço para livros de vulgarização histórica, como os de Laurentino Gomes, que tem a vantagem de ter sido editor da Veja. Gomes bebeu fartamente em livros de verdadeiros historiadores, como o professor da PUCRS Jurandir Malerba. Está na hora de se ver nos jornais o trabalho de quem faz pesquisa de arquivos. É conversa fiada essa história de que os pesquisadores escrevem mal. Há muita gente escrevendo bem. O Rio Grande do Sul é que regrediu. Que me capem se eu estiver errado. Podem vir!

Juremir Machado da Silva | juremir@correiodopovo.com.br

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Patricinha fascista

A estupidez está sempre ao alcance de todos. Mayara Petruso, patricinha paulista, estudante de Direito, saiu do anonimato para fama, via Twitter, graças a um coice na inteligência nacional. Indignada com a vitória de Dilma Rousseff, a moça disparou este petardo: "Nordestino não é gente, faça um favor a São Paulo, mate um nordestino afogado. Tinham que separar o Nordeste e os bolsas-vadio do Brasil (...) Construindo câmaras de gás no Nordeste, matando geral". No Facebook, a burrinha racista se atolou um pouco mais: "Afunda, Brasil. Deem direito de voto pros nordestinos e afundem o país de quem trabalha pra sustentar vagabundos que fazem filhos pra ganhar bolsa 171". Mayara já perdeu o emprego no escritório onde trabalhava e sofrerá ação judicial protocolada pela OAB.

Alguns jovens universitários paulistas têm revelado um grau superior de idiotice. Depois da turminha que hostilizou uma guria por causa da sua minissaia, apareceu o bando do "rodeio das gordas", propondo tratar meninas obesas como animais. E agora entra em cena a tal Mayara. O escândalo maior é imaginar que isso representa uma opinião média difundida na Internet. Como será que a mulinha Mayara explica a vitória de Dilma em Minas Gerais? Achar que as ajudas sociais são incentivos à vagabundagem é típico de uma elite primitiva ou de uma classe média ignorante. Qualquer país civilizado, a começar por França, Alemanha, Inglaterra e, evidentemente, países escandinavos, oferece mais ajudas sociais que o Brasil. Não adianta ir à Europa só para comprar bolsas Vuitton. É preciso espiar o cotidiano.

Quem não recebeu e-mails dizendo que Dilma não podia ser candidata por ter nascido na Bulgária? Quantos analistas têm por aí sugerindo que os nordestinos são subeleitores que votaram com o estômago? Quando um empresário escolhe um candidato seduzido pela possibilidade de redução de impostos, o que é legítimo, não se trata de voto por interesse? Não é voto com o bolso? Quando ruralistas votam num candidato na esperança de conseguir mais incentivos, o que é comum, não é voto interesseiro? Mayara não deixa de ser o produto de uma estratégia perigosa, a divisão ideológica entre bem e mal. Foi essa perspectiva, cara ao vice Índio da Costa, que José Serra adotou. A revista Veja e o jornal Estado de S. Paulo deram aval a essa idiotice retrógrada. Uau!

O PSDB, que nasceu pretendendo ser moderno e racional, podia mais. Veja, que se acha mais moderna do que os modernos, acabou por produzir leitores Mayara. Isso não tem a ver com partidarismo como imaginam os mais simplórios ou ideológicos. Eu jamais terei partido. Meu único capital é a independência selvagem. Sou a favor do voto de castidade partidária para jornalistas. Tudo pela liberdade de dizer que quem acha o Bolsa-Família um incentivo à vadiagem pensa como Mayara. Esse foi o principal erro tucano na campanha eleitoral: ter guinado à direta para tentar seduzir as Mayaras, que arrastaram um intelectual progressista como Serra para o reacionarismo rasteiro do Estadão e da Veja. Mayaras, nunca mais!

Juremir Machado da Silva |
 juremir@correiodopovo.com.br

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Paulo e Maria de Lourdes


Crédito: João Luis Xavier



Entre as 17 histórias de vida contadas por João Vicente Silva Souza na sua brilhante tese de doutorado, "Alunos de escola pública na Universidade Federal do Rio Grande do Sul: portas entreabertas", duas são emocionantes: as histórias de Paulo e Maria de Lourdes. Paulo é apresentado assim: "Único negro a ingressar no curso de Medicina da Ufrgs em 2003 (3.711 candidatos, 140 vagas, 26,51 candidatos por vaga)". Essa era a situação antes das cotas. Um cínico certamente tiraria a seguinte conclusão: viram, um negro entrou sem precisar de cotas. Tem um especialista em investimentos que pensa o seguinte: "se o sujeito não tem condições de entrar na Medicina, por ser pobre, que faça um curso técnico e poderá ser um excelente mecânico ou encanador". Hummm...

O mais incrível é que Paulo não gostava de estudar: "Eu nunca gostei de escola, eu não gosto de estudar, detesto estudar. Nunca gostei de estudar". Por uma razão bem simples: não queria ser humilhado: "Às vezes o cobrador não deixava, não podia pegar um ônibus, tinha que esperar outro, chegava atrasado". Sem contar que não tinha dinheiro para material escolar. Nada de novo no front. Ou tudo de novo no cotidiano de milhões de brasileiros. Paulo "atravessou um oceano" e realizou o impossível. Só não podia derrubar sozinho as estatísticas, pois essas são o resultado de estruturas profundas e frias. Não se alteram por um caso pessoal. 

Maria de Lourdes, negra, 32 anos, moradora do Morro Santana, entrou em Artes Visuais, na Ufrgs, em 2004. O seu tataravô foi lutar na Guerra do Paraguai em busca da alforria. As mulheres da família continuam lutando até hoje por emancipação. Maria de Lourdes já passou fome. Sonhava em estudar Medicina. A mãe, "realista", queria que ela fizesse um curso técnico de decoração. Em 1994, quando uma liminar da Justiça permitiu que candidatos se inscrevessem sem pagar qualquer taxa, ela aproveitou a oportunidade e entrou na Ufrgs em Administração. Descobriu colegas elitizados, não tinha dinheiro para frequentar o bar da universidade e levou cinco semestres para descobrir a existência do restaurante universitário. Antes disso, conta João Vicente, ela buscava alguma saída: "Entre um turno e outro das suas aulas, distraía a sua fome dentro das bibliotecas da Universidade".

Trancou a matrícula no sétimo semestre e foi trabalhar numa petshop. João Vicente sintetiza: "Havia nesta instituição, segundo Maria de Lourdes, alguns mecanismos e hábitos que faziam com que as origens, diferenças e necessidades das pessoas não se sobressaíssem diante de um certo ''purismo meritocrático''. Maria de Lourdes não sofreu e largou a Universidade somente por ser pobre e negra. Largou, principalmente, porque foi desdenhada". Imaginar que a universidade pública deva ser reservada aos "melhores", definidos numa competição cuja única igualdade entre todos os concorrentes é o fato de responderem às mesmas questões na mesma hora, é uma das maiores maldades já inventadas. Essa meritocracia é uma sacanagem em nome de uma pretensa objetividade e universalidade. O resto é a vida real.

JUREMIR MACHADO DA SILVA > correio@correiodopovo.com.br

sábado, 14 de agosto de 2010

Abril vermelho

Crédito: ARTE DE JOÃO LUIS XAVIER SOBRE FOTOS CP MEMÓRIA


Candoca vive em Palomas. É um ingênuo. Na juventude, leu Voltaire e acreditou que o nariz existe para segurar os óculos. Tem lógica. Candoca é obcecado por radicais. Nesta semana, ele leu na Internet declarações da senadora Kátia Abreu, presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), e de João Pedro Stédile, principal líder do MST. A leitura do que disseram esses dois expoentes da agricultura nacional deixaram Candoca confuso. Stédile defendeu uma mudança no modelo agrícola: quer diminuir o uso de agrotóxicos nas lavouras, limitar o controle das multinacionais sobre a produção agrícola brasileira e associar camponeses e população urbana na construção de uma nova realidade na produção de alimentos. Candoca ficou preocupado. Perdeu o rumo.

Stédile sustentou que três ou quatro megaempresas globais dominam o mercado nacional de sementes, insumos e fertilizantes. Garantiu que elas estimulam os agricultores a usar muito veneno, fazendo do Brasil o maior consumidor do mundo de agrotóxicos, com 720 milhões de litros por ano. Essas empresas, segundo ele, ditam a lei na produção brasileira. Os venenos contaminam o solo e as águas. Sem contar que acabam no estômago de todos nós, especialmente dos mais pobres, que não podem comprar alimentos orgânicos em feiras chiques. Por fim, Stédile explicou que ocupações sempre acontecem quando poucos controlam muitas terras e muitos não possuem terra alguma para explorar. Candoca soltou uma exclamação: "Que sujeito sensato!" Dona Marcolina reagiu: "É um radical".

Perplexo, Candoca foi ler uma entrevista recente da combativa senadora Kátia Abreu. Ela reclama o uso da Força Nacional para evitar novas invasões de terra com o seguinte argumento: "A Força Nacional não tem o hábito de colaborar para evitar o tráfico de drogas, a pirataria e a pedofilia? É a mesma coisa. A Força Nacional vem para trazer paz, e não o conflito". Candoca ficou boquiaberto. Parecia um jundiá recém-pescado. Invadir ou ocupar terras é igual a atos de pedofilia? Intelectualmente limitado, o ingênuo começou a rir. Questionada sobre a importância de se reduzir a desigualdade social, Kátia Abreu declarou: "Nós não temos obrigação. Quem vai querer dividir sua terra? Não somos sócios do programa da reforma agrária". Que coisa, hein? Candoca não compreendeu. Está convencido de que não há expropriações no Brasil e de que as terras são compradas a bom preço pelo Estado para fins de reforma agrária. Pobre do Candoca, sempre tão confuso.

Bobalhão, Candoca acha que um país é como um condomínio: não pode uma família ocupar todos os andares enquanto todos os andares se amontoam embaixo da escada. Ao terminar de ler as declarações de Kátia Abreu, Candoca soltou um urro: "Que mulher radical!". Dona Marcolina tratou de aplicar-lhe um corretivo. "É uma mulher muito sensata", disse. Candoca respeita muito Dona Marcolina. Jamais se atreve a discordar dela. Tratou de mudar de opinião. De fato, concluiu, Stédile é um baita radical. Onde já se viu querer um novo modelo agrícola? Comuna!

Por JUREMIR MACHADO DA SILVA > correio@correiodopovo.com.br

sábado, 31 de julho de 2010

Guerra de facções

Crédito: ARTE JOÃO LUIS XAVIER

Por Juremir Machado da Silva

Polícia Civil e Ministério Público Estadual bateram cabeça. Numa boa. Quer dizer, numa má. Só que nenhuma parte pode admitir que passou ou tomou rasteira. Apesar de o MPE ter desautorizado publicamente a PC, os discursos tentaram ser conciliatórios. Mas não colou. O MP, como todo mundo sabe, corrigiu a investigação da PC sobre a morte de Eliseu Santos. Estava fácil demais. Por um momento, tivemos um orgulho sem tamanho da eficiência dos nossos investigadores. Tudo fora resolvido em tempo recorde. Os bandidos haviam sido pegos. Era coisa de ficção científica. Uma Polícia do futuro, técnica e espetacularmente ágil. Aí veio o MPE e, como quem não quer nada, jogou com tudo um tijolo na vidraça dos vizinhos. Depois, cautelosamente, explicou que era normal, apenas um procedimento rotineiro. Uau!

As dúvidas permanecem. Por que o MPE não pediu à Polícia Civil para refazer o dever de casa? Por que o MPE chamou a Brigada Militar para realizar diligências normalmente executadas pela Polícia Civil? Por que o MPE deixou vazar informações para a mídia na Quinta-Feira Santa e marcou uma coletiva para depois do feriado? Por que o MPE não deu a menor sinalização à Polícia Civil sobre a ampliação das investigações? O MPE fez, ao que parece, um belo trabalho. O trabalho que a Polícia Civil deixou de fazer. E ainda usa bem as palavras: em lugar de investigação paralela prefere investigação complementar. É outro enfoque, outro estilo, outra realidade. Só que nas ruas a percepção é muito mais simples: a Polícia Civil precipitou-se, concluiu um inquérito em tempo recorde e bateu de cara na parede. O MPE acabou com a festa. Estava tudo errado.

Como diz o bordão, o povo não é bobo. E gosta de espetáculo. Quer diversão e circo. Adorou a guerra entre o MPE e a Polícia Civil. Afinal, praticamente ninguém jamais acreditou na tese do latrocínio. Em cada esquina, um popular repete o refrão: tinha e tem coelho nesse mato. E coelho aparece na Semana Santa. É só procurar bem que os ovinhos são achados. Para isso, claro, é preciso meter a mão no ninho. Só que é ninho de cobras. O MPE jura que achou o ninho. A Polícia Civil pagou o pato. Nesse zoológico, bom cabrito é o que mais berra. A PC berrou. O MPE, na manha do ganso, deu o coice e recolheu a pata. Agora é com a Justiça. A Justiça, como sabemos todos, tarda e falha. Nem por isso vamos desprezá-la. Segue o baile.

Eu tenho outra tese. É meu ofício. Sempre tenho outra tese. Quando não tenho, invento. Depois, faço como a Polícia Civil. Bato pé. Não volto atrás. A minha tese é que foi latrocínio por acaso. Os bandidos estavam lá para cometer um crime encomendado. Haviam preparado tudo de maneira a confundir a Polícia. Fizeram tudo o que normalmente não se faz numa execução. Só para confundir os investigadores. Na hora, porém, de entrar em cena, esqueceram o roteiro e, para não perder a viagem, praticaram um latrocínio. O efeito foi o mesmo. A pena é que será diferente. Nada que a progressão de regime não resolva. 

domingo, 18 de julho de 2010

Mordomo e vampiro

Por Juremir Machado da Silva  correio@correiodopovo.com.br
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Agora, felizmente, está ficando tudo mais claro. Levou tempo. Já podemos entender quase tudo. Ciro Gomes disparou contra todo mundo. Demonstrou uma impressionante rapidez no gatilho. Só bala perdida. Chutou o balde com vários anos de atraso. Bateu de cabeça na parede. Abusou dos clichês. Fez pose de matador. Triste pistoleiro solitário. Entregou verdades frias como telepizzas. Morreu de boca fechada. É, como se dizia em Palomas, um paspalho. Um cangaceiro aposentado. Disse que o cara de vampiro José Serra é melhor do que a cara de Caubi Peixoto Dilma Rousseff. Vai apoiar Dilma. Chamou o cara de mordomo Michel Temer de chefe do "ajuntamento de assaltantes" conhecido por PMDB. Vai engolir Temer como candidato a vice na chapa de dona Dilma. Tudo em casa.

Uma coisa é certa: Ciro vai fazer falta na campanha. A disputa ficará menos engraçada. Será como um circo sem palhaço. Quer dizer, sem o palhaço mais engraçado, aquele que diz as maiores barbaridades com espontaneidade a ponto de ninguém se ofender. O PMDB nunca se ofende. Nem vomita. Tem estômago de avestruz. Engole tudo, de botão de jaquetão até denúncias do Ciro. Sejamos francos, será uma eleição enfadonha sem o Ciro. Mais ou menos como o futebol sem as declarações do Romário e do Edmundo. Quem fará discursos inflamados e pretensamente mais profundos? Uma vitória de Ciro nas eleições daria uma grande contribuição para a história brasileira: a primeira-dama mais bonita de todos os tempos nestas paragens tropicais. Ciro é como Lampião. Já se apagou. Mas fez estragos.

O PT terá mais de nove minutos na televisão para Dilma graças ao consórcio com PMDB, PDT, PR, PRB e PSB. O PSDB só conseguiu aliciar até agora os remanescentes da ditadura militar - o Dem - e os herdeiros dos comunistas - o PPS. Faz sentido. Vigora a anistia total e irrestrita. Só dá cinco minutos e meio de TV. É o que se chama de aliança capaz de superar as diferenças ideológicas e de possibilitar o diálogo num patamar superior: o pragmatismo absoluto. Ou de comprovar a tese de alguns de que não existe mais essa de esquerda e direita. Falta o PP, a outra metade do Dem, que não sabe se casa com o PT, baseado no princípio de que os opostos se atraem, ou com o PSDB, seguindo a ideia de que não há mais opostos. São todos partidos de programa. Como certas garotas. Não confundir com partidos programáticos.

O Brasil tem muitos partidos. Até em demasia. Mas só dois parecem bons partidos. Todos querem se casar com eles. O PMDB, apesar de grande, aceita fazer o papel de padrinho de casamento. Ou de alcoviteira. O importante é figurar no testamento. Ou no contrato de matrimônio. Afinal, como todos sabemos, casamento implica cargos e encargos. Esses casamentos são sempre com união total de bens, isto é, união total com os bens da União. Como no filme do Woody Allen, tudo pode dar certo. Exceto para quem não fizer uma boa aliança. O derrotado Ciro Gomes poderá ser recompensado por suas críticas acerbas com um ministério. Um ministério dado pelo PT ou pelo PSDB.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Minha ONG

Vou fundar uma ONG. Eu sempre quis ser militante de alguma coisa. Chegou a hora. A minha ONG vai se chamar 'Eu odeio a Net'. Vai ter também uma comunidade no Orkut. O nome será diferente: 'Nós odiamos a Net'. Só conto o que é engraçado.
Um cara da Net, MV, me ligou três vezes para vender um pacote superior. Graças a isso eu teria, sem pagar, o decodificador HD para a minha televisão LCD. Achei isso uma chantagem, mas acabei por aceitar desde que o novo pacote incluísse a Band News, a Record News, a CNN em espanhol e, cláusula pétrea, desde que eu não perdesse a TV5 Monde, canal em francês. A negociação foi gravada. MV jurou que todos os meus desejos seriam atendidos. Em contrapartida, eu pagaria mais R$ 60,00 e suportaria 30 canais de música inúteis e mais uma série de canais de filmes igualmente inúteis. A vida é assim: um troca-troca incessante.
Faz mais de dez anos que tenho o canal TV5. A Net tenta cortá-lo a cada ano. De repente, ele desaparece. Uma vez, liguei para reclamar e o Net de plantão me respondeu que haviam decidido me oferecer um canal melhor, de esportes. Briguei, ameacei e obtive a TV5 de volta. Desta vez, MV me garantiu que tudo sairia bem. Viajei numa boa. Ao retornar, liguei a TV para ver os meus novos canais. Nada de Band News, Record News nem de CNN em espanhol. E nada mais de TV5.
ARTE RODRIGO VIZZOTTO
A Net é um braço armado da Rede Globo. Faz qualquer coisa para evitar que as pessoas vejam a Record News e a Band News. Jamais oferece esses canais. É preciso insistir muito para que a Net admita que pode disponibilizá-los. Entendo a jogada. Eu queria era saber o que a Net tem contra a TV5? Será um complô contra a língua francesa? Um vendedor já riu de mim. Falou assim: 'Só o senhor quer ver esse canal'. Pode ser. Sou bizarro.
Cancelei o novo pacote. Recuperei num dos postos a TV5. Pedi para falar com o chefe. Impossível. A Net é uma muralha. Os vendedores escondem-se atrás dos gerúndios e não cedem. Quis falar com MV. Inacessível. Afinal, quem manda nessa coisa kafkiana chamada Net? Ando indignado com o tratamento que se recebe em cada lugar. Fui buscar minha mulher no hospital. Com problema de coluna, ela recebeu alta, mas não podia ficar sentada. Nem muito tempo em pé. Era correr para casa e deitar. O sujeito encarregado do visto final de liberação mandou aguardar. Olhava para cima, passava a mão no rosto, refletia, mexia no ratinho do seu computador, pensava na vida, não tinha pressa. Era a autoridade. Tive vontade de rir. Como tudo é engraçado.
A vida é cheia de emoções. Encontrei mais um sentido para a existência. Vou canalizar as minhas energias para esta missão gloriosa e universal: defender a TV5 e esbravejar contra a Net. Telespectadores do Brasil inteiro, uni-vos. Todos contra a Net. Quero concorrer com o Inter e ter 100 mil associados à minha causa. Seja você também um membro da ONG 'Eu odeio a Net'. É o canal. Não se deixe enrolar. Nem empacotar. Participe da revolução digital. Mande a Net para a Sibéria tomar uma gelada. E seja feliz.
juremir@correiodopovo.com.br

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